Monday, April 29, 2013

Vanzolini e nossa grande perda

Foi em 1922 que se oficializou o Modernisno no Brasil, mais precisamente no Teatro Municipal de São Paulo. Como qualquer outro movimento cultural e político não é correto acreditar que foi ali, naquele teatro e naqueles dias que o Modernismo tenha começado por aqui. O local e a data são apenas referências de espaço e tempo num mundo carente de maiores abstrações. Para muita gente o Modernismo foi uma das matérias de prova no colégio ou de questão de vestibular.  Foi muito mais que isso.
 
Nossos modernistas de 1922 apenas deram expressão a algo que inquietava muitos no Brasil. Simplificadamente queriam o novo, mas sem perda de identidade. Em outras palavras, ser moderno sim, mas sem deixarmos de sermos brasileiros.
 
O século XX foi fértil em muitas inquietações, por aqui, e pelo mundo. Entre as décadas de 1920 e 1960 muitas coisas aconteceram. Um crise financeira, uma guerra mundial, perseguições e ódio disseminado pelos meios de comunicação. (Triste é constatar que, à execeção de uma guerra mundial, não parecemos ter mudado tanto assim...)Mas não foram só tristezas que esse período vivenciou. Tivemos Picasso, Freud, Einstein e Garrincha. Tivemos Vargas, vivo e morto, Carmem Miranda e Pixinguinha.
 
A Universidade de São Paulo nasceu nessa janela histórica de 1920 a 1960. A universidade que pretendeu, um dia, formular o pensamento e a ciência que serviriam ao país. A USP nasceu pretenciosa e ousada. Numa época em que se pensava grande e para frente. Num período em que se buscava o melhor para nós mesmos. Um tempo em que a USP se diferenciou por querer ser um centro de excelência do pensamento e da crítica. Um tempo distante da indústria de artigos e publicações para a participação em listas de "grandes" universidades. É irônico notar que a USP foi maior quando se preocupava mais em pensar do que parecer que pensava...
 
A rua Maria Antónia, no centro de São Paulo, foi o berço da USP. Por lá passaram alguns do nomes da ciência que mais nos orgulharam no século XX. Mestres que foram além da pesquisa. Brasileiros que pensaram grande, por não terem desprezado o  pequeno.
 
Entre os mestres que tivemos, dois nasceram no mesmo ano, 1924. Um faleceu no ano passado, Aziz Ab Saber. O outro faleceu ontem, Paulo Vanzolini.
 
Aziz contou que em 1942 frequentava muito a então biblioteca Municipal de São Paulo, que fica não muito longe da Maria Antónia. Disse que fazia parte de um grupo de amigos que cultuava a geração de 1922. Estudavam ciência, mas apreciavam literatura, música, poesia e política. O respeito que tinham pelos modernistas era tão grande que partiu deles o pedido para que a Biblioteca tivesse o nome que até hoje conserva: Mario de Andrade.
 
Aziz Ab Saber e Paulo Vanzolini estão entre os produtos do modernismo brasileiro. Como foram Niemeyer, a Petrobrás e a Embraer. Foram modernos, ousados e genuinamente brasileiros. Produziram muitos trabalhos individuais,  e escreveram juntos a Teoria dos Refúgios, referência na produção científica mundial. Mas foram mais do que cientistas. Vanzolini alternou sue trablaho de pesquisador com o de funcionário do Museu de Zoologia da USP. Mais do que cientista, atuou num museu pouco mencionado, mas cuja proposta é engrandecedora. Na cultura Vanzolini se tornou um dos grandes compositores de Samba. Não sabia tocar nenhum instrumento e, segundo ele mesmo, não diferenciava um tom maior de um menor. Mas escrevia a letra, criava a melodia e cantarolava para músicos que davam forma para suas criações. Vanzolini prezava as pessoas simples e autênticas. Conviveu com Adoniran Barbosa, embora não tenha escrito nada com ele, para nosso azar.
 
Aziz Ab Saber era o homem das aulas magnas. O mestre que palestrava para professores aos sábados, interessado em compartilhar o que sabia para aqueles encarregados de educar crianças e jovens. Ab Saber foi um dos maiores exemplos de cientista a serviço do país que tanto amava. Assinou manifestos, participou de reivindicações e brigou com políticos. Sempre com muita energia e disposição.
 
 
Vivemos tempos tão interessantes quanto perigosos. Tempos em que a faciliade de acesso à informação não tem necessariamente resultado em ganhos de conteúdo. Tempos em que a discussão e o debate parecem ofender àqueles com suas verdades cristalizadas. A perda de Vanzolini ontem e de Aziz no ano passado deveria servir para pensarmos melhor no que temos feito com nossas universidades, escolas e país. Que tipo de seres humanos estamos a formar hoje? Sinceramente, que tempos são esses de Felicianos a serem mais lembrados do que Vanzolinis? Quem tempos são esses em que campanhas fascistas alternam aplausos a assassinos do Carandiru com companhas pela redução da maioridade penal?
 
Quem ainda não percebeu que estamos flertando com o perigo do pensamento único, excludente, autoritário e intolerante?
 
A História nos prega peças e o palpiteiro aguarda a mais uma das suas. Pois quando tudo parece fadado ao pior, por vezes podemos ter o melhor. Do século do nazi-fascismo, ditadura civil-militar e Hebe Camargo conseguimos nomes como os de Vazonlini e Ab Saber. Um olhar mais atento à nossa volta poderia nos levar ao desânimo diante da mediocridade reinante. Nossos mestres provaram que é possível sermos maiores em meio a tantas dificuldades e resistências. 
 
Que Vazolini descanse em paz. Nós não.

Saturday, April 06, 2013

Um palpite sobre a crise da Coreia: Drama e comédia no caso da Coreia...

A mobilização militar e a troca de provocações entre as autoridades da Coreia do Norte e dos EUA são amplificadas, disseminadas e dramatizadas pela imprensa. Há fatos. E há a interpretação dramatizada deles. O palpiteiro, enquanto se diverte com a histeria midiática do caso, busca fatos... 

Em 1983, um avião da Korean Air Lines violou o espaço aéreo da então URSS, no extremo leste siberiano. Caças soviéticos foram acionados. Seguindo orientações superiores, um caça derrubou o Boeing, no caso conhecido como KAL007. O avião caiu e não houve sobreviventes. Os números denunciaram a morte de 269 pessoas. 

Esse caso indignou a opinião pública internacional em 1983, época de Guerra Fria, sem internet. As investigações foram prejudicadas pela recusa da Rússia, senhora da URSS, em liberar dados que pudessem esclarecer o que de fato ocorreu. 

Pelo lado dos EUA- o voo tinha partido de Nova Iorque e tinha cidadãos estadunidenses- a URSS cometeu um crime internacional, ao abater um avião civil com 269 inocentes. Pelo lado da URSS, os pilotos de seus caças agiram da forma correta, cumprindo ordens diante de um avião que não foi identificado. Pelo lado dos EUA e da Coreia do Sul, o avião violou o espaço aéreo da URSS por erro nos equipamentos de navegação num tempo em que não existia GPS. Pelo lado da URSS, qualquer país invadido no seu espaço aéreo pode abater o avião intrometido. Entre um lado e outro, repousa a verdade e 269 almas...

Esse caso horroroso parece absurdo hoje em dia. Mas fez parte da rotina da Guerra Fria entre 1945 e 1991. As duas superpotências não podiam se enfrentar diretamente, devido às suas capacidades nucleares. Mas se provocavam indiretamente, usando outros países. Quase 3 décadas depois do KAL007, muita gente desconfia do mais sórdido: os EUA, ao enviarem mensagens erradas, usaram o avião da Korean Air Lines para testar o sistema de radares da URSS, na Sibéria. Os radares detectataram o avião e foi derrubado. À parte a tristeza das famílias das vítimas, o que tivemos foi um jogo no qual uma superpotênica provocou e a outra não recuou. E quem se deu mal foram os coitados que perderam suas vidas no KAL007. 

Em pleno século XXI a pergunta "se vamos ter uma guerra nuclear entre EUA e a Coreia do Norte" não é das mais inteligentes. A melhor opção é questionar: por que ainda há 2 Coreias no mundo pós URSS?? Por que elas não se unificaram como a Alemanha?

Em primeiro lugar é preciso lembrar que a divisão de um país milenar foi uma das bizarrices de um período histórico muito bem determinado. Desde então, a Coreia dividida rasgou a história de um povo, mas atendeu aos interesses das elites dos 2 lados. Pelo lado da Coreia do Norte há uma elite de burocratas e militares que não teriam o mesmo poder econômico e a mesma influência social numa Coreia reunificada. Pelo lado da Coreia do Sul não há interesse em ter o poder dividido com os "pobres" da Coreia do Norte. Grande parte do povo coreano gostaria de ver seu país reunificado. As elites políticas e econômicas dos 2 lados não. 

Pelo mundo afora não há interesse na reunificação coreana. A Coreia do Norte é pobre mas possui um exército de respeito. A Coreia do Sul é uma piada militar, mas uma potência econômica. Uma Coreia reunificada- nos moldes da Alemanha pós-Muro de Berlim- formaria uma potência regional de respeito. E esse é um problema, não para os coreanos. Japão, China, Rússia e EUA não têm o menor interesse em aprovar o surgimento de uma potência média num espaço onde disputam cada milímitro de influência política e militar. Não interessa aos outros a unificação coreana. Simples assim.

Mas por que o presidente norte-coreano é tão provocativo? 

Não é estúpido reconhecer que Kim-Jun-un provoca crises externas para saciar a elite militar da Coreia do Norte e a elite burocrática que vive às custas de um Estado voltado para a guerra. Estúpido é acreditar que isso só ocorre por lá. 

O mundo ainda vive uma crise econômica e social das mais graves. As perspectivas não têm sido boas e, uma ameaça de guerra, é muito conveniente para governos sem propostas e credibilidade. Na Coreia do Norte há fome, pobreza e repressão. Uma ameaça de guerra no mínimo distrai os potenciais opositores do governo pelo apelo nacionalista que toda guerra desperta. Assim é nos EUA, Japão e Rússia. Sem ameaças externas, estadunidenses, japoneses, russos e coreanos teriam que ser defrontados com seus problemas domésticos e reais. A falta de emprego, a queda do padrão de vida e os excessivos gastos militares são deixados de lado. Convenientemente. Ou são justificados diante de "um mal maior". No Brasil isso parece estranho. Acostumados a criticar nossos governos, adquirimos uma qualidade pouco reconhecida ente nós. A de que nossos problemas são culpa nossa, não dos outros. NENHUM presidente ou presidenta do Brasil jamais apelou para crises externas para dissimular problemas internos. Pelo menos desde Vargas até Dilma. Nem o doido do Jânio, o histérico do Collor e os fardados da ditadura civil-militar. Isso no mundão afora não é tão comum e óbvio como parece ser por aqui. 

Assim, as provocações de Kim-Jun-un seguem um roteiro bem conhecido. Declarações raivosas, mobilização de tropas e aumento das tensões. Pelo lado dos EUA, Coreia do Sul e Japão, o mesmo. Nesse teatro de farsas convenientes, a guerra não é desejada. TODOS perderiam. O que fazem é exaltar a ameaça, demonstrar os riscos e faturar com o medo coletivo de seus povos. O medo é um poderoso - e perigoso - instrumento de coesão nacional a sustentar governos ineficientes, corruptos e irresponsáveis em seus gastos militares. 

Mas há um risco. O jogo de ameanças de guerra não é para todos. Apenas bons jogadores se beneficiam dele. Sempre há o risco de alguém sair do tom, agir de modo mais agressivo do que o esperado. E avançar além do que o outro lado pode suportar. O segredo da política externa mais agressiva não é ameaçar. Mas dar ao ameaçado alguma chance de saída honrosa. Diante de um impasse no qual um país é confrontado entre a luta e a covardia, o mais comum é o seu líder partir para o ataque. É nesse contexto que as guerras estúpidas ocorrem. E vidas se perdem, Estupidamente. 

Pelo que já leu, ouviu, viu e pensou, o palpiteiro afirma que um conflito entre a Coreia do Norte e os EUA e seus aliados (Japão e Coreia do Sul) é possível, mas pouco provável. A tecnologia nuclear nos trouxe essa macabra segurança. A guerra entre detentores de bombas atômicas não ocorre devido ao apelo da paz. Ela simplesmente não ocorre pelo medo da auto-destruição. Na Guerra Fria chamávamos isso de "equilíbrio pelo terror". 

O palpiteiro arrisca ser desmentido pelos fatos. Aposta que essa tensão militar irá passar. O que não quer dizer que não possamos ter uma guerra daqui a poucos minutos. Mas não há o cheiro da guerra no ar. A "névoa da guerra" ainda não pairou sobre nós. 

Evidências?

O jovem presidente da Coreia do Norte recomendou que os embaixadores de outros países se retirassem de sua capital, por não ter como garantir a segunraça deles em caso de guerra. Isso é um típico aviso público de que as coisas estão esquentadando. Pelo lado da realidade, até este momento em que o palpiteiro escreve, NENHUMA das grandes potências com embaixadores na Coreia do Norte retirou seus representantes do país. De acordo com nota do Itamaraty, o embaixador do Brasil ali permanecerá, até seguna ordem. Cá ente nós, diante de uma ameaça REAL de guerra, alguém acredita que tantos países abandonariam seus embaixadores num alvo de bombas nucleares? Estamos falando de  Alemanha, Gra-Bretanha, Suécia, Polônia, Romênia, República Tcheca e Bulgária, países com embaixadores na Coreia do Norte que não acataram a recomendação de retirada. 

Alguém realmente acredita que os EUA não teriam uma mobilização ousada e grande para retirar os milhares de seus cidadãos da Coreia do Sul e do Japão caso acreditassem mesmo que teriam uma guerra de verdade?

A ameaça de guerra entre a Coreia do Norte e seus rivais, EUA à frente, interessa aos governos dissimulados que precisam disso para suportar as críticas de seus erros em outras áreas, econômicas e sociais em especial. Também interessa a setores da mídia, que carecem das vendas de jornais, revistas e audiência, perdidas com a internet. 

No mundo real, alimentado por informações apuradas e mais próximas da realidade, essa guerra é mais uma das muitas armações que o mundo já viu. Acredita quem quiser. Ou estiver para lá de mal informado... 



Wednesday, March 20, 2013

Um dos muitos mestres que já tive na vida

No garimpo virtual pode-se encontrar preciosidades. Um palpiteiro acidentalmente achou algumas, transcritas abaixo. Estão fora de ordem e quem quiser ler a íntegra dessas citações pode acessar o link ao final. O importante é saber quem é Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro. E que no Brasil há pessoas dignas, geniais e tristemente esquecidas pelos toscos "formadores de opinião"...
 
“A geografia não é para estar se fragmentando e se especializando mais e mais... É importante preparar os outros para ter liberdade quando criticar”
 
 
"Na universidade fui para o lado físico para não bisbilhotar a vida alheia como na geografia humana!"
 
"No primeiro dia de aula, entrei na sala, os alunos levantaram e fizeram um comício por causa do Ato Institucional e da política que estava fervendo. Os estudantes viviam reclamando da ditadura. Eles entraram, fizeram o comício, fiquei escutando e depois fui embora. Não foi hostilidade a mim, era um protesto geral."
 
"Pedir dinheiro para viajar é um direito do pesquisador, mas neste país de exceções, em que as crianças estão morrendo de fome e cheirando cola, me considero um privilegiado e pago a minha curiosidade, não vou tirar do contribuinte. Nesse ano, em Moscou, entrei para a comissão de problemas ambientais, o presidente era o Innokenty Gerasimov, um cientista de prestígio naquela academia. Foram 12 anos em que eu viajei na comissão. Em 1976 foi em Moscou, 1977 em Praga, 1978 na Nigéria, em Lagos, em 1979 na Rússia de novo. Depois, em 1980, no Japão, 1981, no México, 1982 em São Paulo, organizado por mim. Em vez de ficar preso numa cidade vendo paper, organizei uma excursão de quatro dias; o primeiro dia a gente foi em direção a Piracicaba, almoçou na beira do rio, que já estava poluído. Depois a gente continuou em direção a São Carlos, onde dormimos; o dia seguinte apresentamos os papers – a gente viajava um dia e trabalhava no outro. Você vem da Rússia, da Índia e tem de ficar trancado numa sala vendo papel que você pode ler depois? É uma pena, não é?".
 
"As partes se completam, não se pode ignorar o coletivo, mas também não se pode ignorar a parte interior do homem. Temos o direito de desenvolver uma percepção crítica, é importante preparar os outros para ter liberdade quando criticar e não seguir o rebanho fazendo tudo o que os outros fazem."
 
 

 

Thursday, March 14, 2013

Jorge é agora Franciso. Não é tolo e nem argentino

Conta-se que, durante a construção de Brasília, muitos embaixadores de países amigos procuraram as autoridades brasileiras para a compra de terrenos na nova capital. Os EUA foram os primeiros a fazerem sua proposta. Mas foram os terceiros a conseguir. Em primeiro lugar ficou o Vaticano, em segundo Portugal. A maior potência econômica e militar do planeta  foi deixada em terceiro plano, após um país pequeno da península ibérica e de outro que nem exército tem. 

Conta-se também que durante a ditadura brasileira o exército não temia quase nada. Reprimiu guerrilheiros, torturou, matou e ocultou os cadáveres de opositores. Aposentou professores universitários, bateu em operários e deu tapa em estudantes. Mas foi muito cuidadoso em relação a instituição mais respeitada pela ditadura civil-militar: a Igreja Católica. No início da década de 1970 um grupo de cardeais se reunia secretamente com um general muito católico, afim de manter as boas relações entre o exército e a Santa Igreja Católica no Brasil. O palpiteiro já viu fotos de um desses encontros, ocorrido em Petrópolis, RJ. 

Assim é a Santa Igreja na América Latina. Não tem a força das armas, mas das ideias, dos valores e do medo do inferno. Ademais, possui um dos maiores serviços de espionagem do mundo, em especial nos países de maior presença de católicos. O que um católico não diz no trabalho, entre os amigos ou a família o faz para o padre, pessoa de alta confiança em muitas comunidades. Qualquer paróquia é um centro de coleta de informações sociais, econômicas e políticas. Padres conversam com bispos, que conversam com arcebispos. Que se reportam a Cardeais. Que elegem Papas...

Em latim, Cardeal quer dizer "principal". Ninguém chega a esse posto se não for da mais estrita confiança da Santa Igreja. Uma instituição que nascida no Império Romano, que cresceu na Idade Média, resistiu à Reforma Protestante, à revoluções socialistas e duas guerras mundiais. A Santa Igreja é assim. Possui uma estrutura econômica, política e moral que ultrapassa o tempo e o espaço. 

Ninguém que tenha juízo briga com a Santa Igreja. Em 1989 os EUA invadiram o Panamá, com a missão banal de prender o presidente da República. Noriega, ex-colaborador da CIA, se refugiou num prédio da Igreja. Que negociou sua entrega com os EUA. 

Golpes de Estado e tentativas de Golpe contaram com a participação de parte do alto clero católico. Ditaduras também foram derrubadas com a participação de parte desse mesmo alto clero católico. Ascenção e queda de governos raramente ocorreram sem a participação direta ou indireta de autoridades da Santa Igreja. 

O novo Papa nasceu na Argentina, o que não quer dizer que continue a sê-lo. Foi-lhe dado o nome de Jorge, desde ontem tornado Francisco. Jorge não foi escolhido ao acaso. A Argentina é ainda um país de maioria católica, assim como o Brasil, México e a maior parte da América Latina. Naquele país, Jorge, hoje Francisco, foi sempre leal à sua Igreja. 

Conta-se que durante o sanguinário regime militar argentino ele foi hábil para jogar nos dois lados. Incentivou católicos da Teologia da Libertação ao mesmo tempo em que não atrapalhava a sua perseguição. Dizem que fora leal a pessoas de lados em conflito. Se agiu dentro da moral católica ou não, apenas ele e Deus devem saber com exatidão. 


A Santa Igreja tem um sério problema político para resolver. Suas riquezas estão concentradas na Europa, onde a perda de católicos tem sido forte, há mais de 5 décadas. A maior comunidade católica do mundo está na América, sobretudo latina, mas com minorias significativas nos EUA e Canadá. O dilema político é simples. O lugar onde há mais católicos não tem tanto poder de decisão política e econômica no Vaticano. O lugar onde há maior perda e crítica à Santa Igreja concentra o poder.

Um Papa da América não representa necessariamente uma vitória do continente ou um ganho de força na estrutura do Vaticano. A maioria dos cardeais com direito a voto é europeia. Dificilmente Francisco I mudará o Vaticano sem a anuência deles. 

O Papa é um rei de uma monarquia não hereditária com sucessão eletiva. Como chefe de Estado, um Papa atende aos interesses do que governa, não do país em que nasceu. Maldizer a escolha de um Papa nasicdo na Argentina é tão estúpido quanto comemorar uma eventual escolha de um Papa brasileiro. 

Jorge, hoje Francisco era Cardeal. Hoje é Papa. Há muito tempo que não é mais argentino.       

Thursday, March 07, 2013

O sábio silêncio

Capas do jornal O Estado de S. Paulo, nos dias 06 e 07 de Março de 2013:

Capa do jornal O Estado de São Paulo

Sobriedade. Imagem bem escolhida, com Chavez acenando para o povo, de costas. Para um presidente morto, com forte apoio popular, a capa do Estadão é respeitosa. Não exalta, não elogia. Não há adjetivo. O Estadão nunca apoiou Chavez. Jamais concordou com ele. Várias vezes o criticou e debochou dele em seus editorias. Mas o momento era outro. A morte, limite máximo do ser humano, estava colocada. Até mesmo diante do pior dos nossos inimigos o silêncio respeitoso é necessário. 
 

Capa do jornal O Estado de São Paulo

No segundo dia, o respeito aos fatos. "Venezuela se despede de Chavez e teme instabilidade". Sim, a imagem do cortejo fúnebre cercado por tanta gente é um reconhecimento da realidade. Fosse quem fosse Chavez, houve comoção popular. Mas o Estadão dá o recado: a coisa está feia por lá. O país não está seguro de uma transição tranquila, "teme instabilidade". Por dentro, crítica, ataques. O Estadão de sempre na oposição a Chavez e a quem dele se aproximou. Mas o que fica mesmo para a histórica, nas consultas rápidas que fazemos e faremos nos arquivos digitais, serão as capas dos jornais, mais do que seu conteúdo. Se por dentro o Estadão é o mesmo, por fora soube se resguardar. Apenas leitores argutos e interessados repararão na diferença entre o conteúdo ácido e a capa sóbria. Diga-se o que quiser do Estadão. Mas ainda há classe. Resta elegância, a despeito dos deslizes panfletários dos últimos anos.  
 
Capas do jornal "Folha de São Paulo, nos dias 06 e 07 de março de 2013:

 Capa do jornal Folha de São Paulo

E a Folha de São Paulo, o que escolheu? A palavra pesada, lúgubre, mórbida. O substantivo dolorido e doído. "Câncer". Na capa da Folha, Chavez não morreu, foi morto. A informação de sua idade não foi gratuita. "58", informa a versão impressa do jornalismo rasteiro que a TV brasileira mostra diariamente às 18:00h. Quem morre aos "58"? Partindo da generosidade que a Folha se referiu à idade de Chavez, não ao seu número de camisa, sapato ou de sorte. "58". Quem morre aos "58"? Os fracos, os que não puderam contar com a sorte. Os doentes e os enfermos. Morrem aos "58" os que sofrem acidentes. Morrer aos "58" é contradizer a imagem escolhida. Ao fundo, desfocada, a caricata foto de Che Guevara. Em primeiro plano o referido, num gesto de força, com a mão direita estendida. A imagem, malandramente escolhida faz referência à saudação nazista. O braço direito estendido. Quem duvida que procuraram alguma que tivesse com a mão aberta à semelhança de Hitler? Hitler? Sim, o ditador assassino que morreu na derrota alemã. Sim, a ideia é essa: ditadores às vezes morrem, Ou são mortos. Se a imagem mostra vitalidade, a manchete contradiz. "Câncer", "mata",  "58".
Mas faltava o tiro final. O irresistível uso do adjetivo. O qualificador do líder morto. "POPULISTA". Popular? Não. O que interessa é o julgamento. O corpo de Chavez ainda não havia sido exposto quando a Folha se decidiu pela manchete. Chavez foi para o inferno ou para o céu? Para a Folha não há dúvida. Era "populista". Ponto final. Chavez jamais irá se defender dessa última qualificação negativa dada pela Folha, com destaque, na primeira página. Cá entre nós: raramente pode se defender por lá. Se vivo estivesse, dificilmente teria esse direito. Chavez morreu. A Folha não mudou...

Capa do jornal Folha de São Paulo


A capa do segundo dia após a morte de Chavez é um exemplo do "estilo" Folha de ser. A imagem mais uma vez foi escolhida a dedo. Sim, havia muita gente. Mas há no alto, em destaque, um morro com casas pobres. A imagem comum, brasileira quase, de favela. O recado implícito é sarcástico. "Morreu o líder, mas vejam só a miséria..." Para aqueles que se acostumaram com o "estilo" Folha de "jornalismo" não é por demais exagero o pensamento "...pobres...Só pobres gostavam daquele populista...Gente ignorante..."
A manchete é ainda mais interessante: "Missão das tropas é eleger chavista, diz chefe militar". A mania da Folha em ter frases longas para capa de jornal é inusitada. Se pudesse, eliminariam essa bobagem chamada manchete. Por que não escrever logo o texto inteiro em letras grandes? O conteúdo, o mesmo de sempre. A  Chavez, o "ditador", nada mais óbvio do que "tropas" se manifestarem politicamente. A mensagem da Folha segue seu padrão de "jornalismo". Chavez era um "ditador" e seu grupo permanecerá no poder pela força. Se isso vai acontecer ou não é outra história. O que interessa é apontar o caminho de uma ditadura. Nem que seja fantasiosa, sugerida ou desejada.
 
Quem quiser se divertir ainda mais com a histéria gráfica da Folha, que leia o editorial da mesma edição dessa capa. Os fatos cedem lugar ao excercício da futurologia. E, no melhor estilo de humildade da Folha, o jornal dá a receita do que a oposição a Chavez deve fazer.
 
 
Um dia alguém irá fuçar a capa desses jornais no futuro. Talvez já nem saibam quem foi Chavez. Se vir primeiro a capa do Estadão pensará que houve a morte de um presidente Venezuelano. Se vir a Folha, terá certeza de que morreu alguém que não merecia respeito.
 
Um dia alguém se questionará por que alguns jornais não ultrapassam um século de vida.
 
O Estadão é de 1875.
 
A Folha? Não fez cem anos ainda. Escrevendo com a inconsequência dos adolescentes fica difícil acreditar que chegará a viver mais do que o Niemeyer.
 
Chavez morreu aos "58'. É razoável crer que muitos de seus detratores também não cheguem a durar um século. 
 
Chavez, ao menos morreu de Câncer. E suicídio jornalístico, existe? 

Sunday, February 03, 2013

Um Renan que vem bem a calhar

O palpiteiro tem se divertido com a indignação cívica - e seletiva- de brasileiros que repudiam a eleição de Renan Calheiros para a presidência do Senado nesse início de 2013. O palpiteiro sempre temeu pelo linchamento individual que libera ódios, alivia tensões e favorece canalhas de diferentes quadrantes. Aqueles que se beneficiam com tudo o que há de errado no Brasil adoram quando você ofende, execra, pede a renúncia e aponta apenas para Renan Calheiros. 

Mas Renan é consequência, não causa. Assim como seu antecessor, José Sarney. Para conferir, basta ver a lista de presidentes do Senado. Alguma vez aquela casa já foi presidida por alguém digno de admiração nacional? Responda rápido: qual o nome de UM único presidente do Senado que tenha, de fato, relevância na nossa história?

Quem consultar a lista de presidentes da "Câmara Alta" brasileira verá nomes para lá de curiosos. Em 1973 era Filinto Muller, aquele que entregou Olga Benário Prestes, judia alemã, grávida, para a Gestapo, em plena Segunda Guerra Mundial. Filinto Muller acabou morrendo num acidente aéreo. Sabe-se lá como está sua alma...

Mas a lista de presidentes é interessante. Entre 1981 e 1983, o presidente da honrosa casa era Jarbas Passarinho. Antes, gloriosamente, Jarbas Passarinho havia sido o ministro da educação da ditadura. Conduziu a reforma no ensino no Brasil. Quando de sua participação tínhamos um sistema educacional muito restrito, mas de boa qualidade para os que nele podiam ingressar e permanecer. Após Jarbas, o sistema foi expandido. E milhões de brasileiros finalmente puderam entrar em escolas péssimas, com professores mal pagos e condições materiais muito ruins. 

Entre 1997 e 2001, o presidente do Senado foi António Carlos Magalhães. Um político cujo apelido era "Toninho Malvadeza" não merece maiores apresentações. ACM, como muitos chamavam Malvadeza, tinha poderosos e leais amigos. Sua família detém até hoje as emissoras que retransmitem a Globo na Bahia. 

O antecessor de Renan Calheiros foi José Sarney, cuja família é dona da emissora que retransmite a Globo no Maranhão.  Também é membro da Academia Brasileira de Letras, aquela entidade fundada por Machado de Assis e que conta com "gênios" da nossa língua, como Merval Pereira e Paulo Coelho. Sarney governou o Brasil entre 1985 e 1990. Foi para a história como o presidente que mais liberou concessões de emissoras de rádio e TV em nossa história. Graças aos seus critérios republicanos, temos a situação de hoje: 56 parlamentares do Congresso Nacional são sócios ou diretores de emissoras de rádio e TV. A lista obtida pelo palpiteiro não informa se há parlamentares que comandam emissoras por controle remoto...

Renan Calheiros foi apoiado por Fernando Collor, também senador por Alagoas. Collor foi presidente entre 1990 e 1992. Renan Calheiros foi seu ministro. Collor foi afastado e deixou a presidência. Renan Calheiros continuou na política e foi ministro da JUSTIÇA de FHC...

A história de Collor merece um palpite a parte. Por aqui, o que interessa lembrar é que perdeu a presidência da república e que foi por 9 anos impedido de se candidatar a qualquer cargo eletivo. Cumpriu sua pena e o povo alagoano o elegeu Senador novamente, tudo dentro da lei. Collor perdeu o cargo, o prestígio e o respeito de muita gente. Mas nunca perdeu o controle da emissora Gazeta de Alagoas, retransmissora da Globo no Estado. O palpiteiro acredita firmemente que o Senador Collor nunca misturou seus interesses políticos com os negócios de sua emissora. Qualquer um pode apostar na imparcialidade de sua TV ao noticiar casos envolvendo adversários políticos. Afinal de contas, a emissora de Collor retransmite a Globo, padrão reconhecido de isenção, honestidade e responsabilidade no trato da informação. 

As relações entre parlamentares e emissoras de TV merecem muitos estudos, investigações e discussões. Até que ponto a informação que chega pelas emissoras de rádio e TV são de fato livres dos interesses políticos de seus donos e sócios?


Renan Calheiros foi eleito com 56 votos a favor e 18 contra. Entre os 81 senadores, 4 deixaram de votar, o que naquelas circunstâncias nos permite indicar um apoio envergonhado a Renan. 


O mais inusitado na eleição de Renan Calheiros foi a forma da votação. Os senadores votaram em cédulas de papel, que foram destruídas após a contagem. O voto não foi aberto. O palpiteiro tem todo o direito de desconfiar que há muitos senadores que dizem uma coisa em público e votam no sentido contrário em segredo. Renan Calheiros foi eleito com muito mais votos do que aqueles dos senadores que o apoiaram publicamente. Teve espertinho posando de oposição ética nos microfones e de apoiador envergonhado no papelzinho que deu a vitória a Renan.


O presidente do Senado detém um poder muito grande. Apostar na destituição de Renan Calheiros agora é muito arriscado. Não sabemos do futuro e denúncias podem surgir e virar o jogo contra Renan. Por ora, ele possui muito apoio no Senado. Isso é um fato. 


O direito ao choro é livre no Brasil. Vociferar contra Renan Calheiros é legítimo. Defender sua renúncia é louvável. Mobilizar-se por investigações e eventuais punições é republicano. Mas fazer tudo isso sem questionar os demais parlamentares, senadores e deputados, assim como as relações incestuosas que muitos deles mantém com emissoras de rádio e TV é uma grande infantilidade. 

Cá entre nós: cada vez que você mirar apenas em um, os demais parlamentares terão aquela sensação de alívio, do tipo: "...ufa! ainda não nos descobriram...". 


Renan Calheiros é o Judas que os ingênuos malham no poste da "grande imprensa" nativa. Convenhamos, atacar APENAS a ele e não saber do apoio midiático que permite ter o Senado que nós temos é ótimo para alguns muito espertos. Esse ódio a Renan vem bem a calhar...     


Links fofos...

A respeito da relação entre parlamentares federais e emissoras de rádio e TV:

http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/confira-a-lista-de-parlamentares-donos-de-radio-e-tv/


A respeito da peculiar forma de votação para a presidência do Senado:

http://noticias.terra.com.br/brasil/politica/presidente-do-senado-sera-eleito-por-voto-em-cedulas-de-papel,aa58e5f59869c310VgnVCM3000009acceb0aRCRD.html

Wednesday, January 30, 2013

Entre tantos culpados...

Hanna Arendt, a serviço da revista New Yorker, assumiu uma missão marcante para a sua vida: cobrir o julgamento de um criminoso nazista em Israel. A tarefa não foi simples. Arendt era judia e tinha sobrevivido à perseguição antissemita durante a insanidade hitlerista. Os artigos de Arendt para a revista foram reunidos e transformados num livro muito bom, chamado "Eichmann em Jerusalém". De toda a riqueza da análise do caso, a expressaõ que o palpiteiro adotou para o resto dos seu dias foi "assassino de gabinete". Explica-se. Eichmann não matou um único judeu. Diretamente. Mas era o encarregado de organizar os trens que levaram milhões de judeus, gays, comunistas, eslavos, testemunhas de Jeová, deficientes físicos e mentais, para os campos de concentração onde foram assassinados em larga escala. A defesa de Eichmann insistiu no óbvio: ele apenas "cumpria ordens". 

O nazista foi condenado à morte, enforcado, cremado e suas cinzas lançadas no Mediterrâneo, fora das águas territoriais israelenses. O entendimento do tribunal foi de responsabilidade comum. Não matou, mas ofereceu, com grande empenho, todas as condições que podia para que outros matassem. Numa frase curta: Eichmann se omitiu diante de uma tragédia inaceitável. 

O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria tem algo parecido. Ninguém poderá ser acusado de ter provocado, intencionalmente, a morte de mais de 2 centenas de jovens. Logo, não há quem pague. 

À prefeitura, caberia a devida fiscalização. Aos corpo de bombeiros também. Aos seguranças, instruções mínimas, além de um grama de humanidade. Aos proprietários, a responsabilidade pela vida de tanta gente que lhes rendiam bons lucros. Aos músicos da banda que lançaram os sinalizadores que provocaram o incêndio, um mínimo de conhecimento  e juízo. 

A legislação brasileira diferencia muito bem a prática de homicídio culposo, sem intenção, do homicídio doloso, intencional. 

No caso em questão, há fortes indícios de culpa, mas não de dolo. Com muito talento e empenho, a promotoria conseguiria a condenação de dolo de alguém, no mínimo dos proprietários. 

O palpiteiro ficou sabendo da prisão de um dos sócios da dita boate e de integrantes do grupo de cretinos que iniciaram o incêndio. A sensação principal foi a de terem detido os bobos da vez. 


Não há como um local de entretenimento, que atrai tantas pessoas, com a movimentação de funcionários e dinheiro, funcionar, irregularmente em Santa Maria sem um mínimo de negligência de corrupção das autoridades responsáveis por sua fiscalização. E não cabe a culpa direta a um ou outro funcionário específico. A realidade aponta para a responsabilidade comum de uma cadeia de muitos participantes. Nenhum com a intenção direta de matar. Todos com a responsabilidade indireta de oferecer as condições para tantas mortes. Assassinos de gabinete enfim. 

O Estado Brasileiro, nos seus 3 níveis de governo apresenta o mal do descaso, a praga da corrupção e o costume do cinismo. 

No descaso, notamos a falta de empenho em realizar suas funções mínimas, como a fiscalização de uma boate em Santa Maria ou em São Paulo - não importa o local...

A praga aparece como coisa normal. A grana que se paga a um fiscal ou qualquer outra autoridade para que não haja maiores dores de cabeça. 

Cinismo emerge da prisão de cretinos mais frágeis na cadeia de culpados. Um sócio tonto e músicos toscos no uso de material combustível. As instituições como a prefeitura, o governo do Estado e o corpo de bombeiros estarão devidamente preservados. Não demora muito a RBS Globo local - mostra imagens de bombeiros tirando gatinhos de uma árvore. E a boa imagem da corporação permanece. 


Quando tantos são culpados difícil fica de punir alguém. 


Mas se há tantos culpados na tragédia de Santa Maria, alguém irá pagar pelo que ocorreu?

Muitos já pagaram: com a vida. 

Quanto aos gabinetes, tudo continua como sempre. 

Friday, January 25, 2013

Óbvio

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1220033-sem-conseguir-internacao-jovem-volta-a-cracolandia-em-sp.shtml

Monday, January 14, 2013

Os gatos pingados da Paulista

Qualquer um que conheça um grama do que tem sido o Brasil nos últimos 20 anos saberá que forjamos três formas de pensar a respeito de política: os que admiram Lula, os que o odeiam e os que não se importam com sua existência, sucesso ou fracasso. 

Diferentes palpiteiros eleitorais têm apontado para números que fazem algum sentido quando olhamos os resultados eleitorais. Acreditam que uns 30% apoiem de fato Lula, uns 30% o detestem e uns 30% oscilem de acordo com as circunstâncias do momento. 

Se considerarmos os três últimos resultados eleitorais, 2002, 2006 e 2010, é razoável acreditar que os indiferentes se uniram aos simpatizantes, deixando os odiosos com pouco mais de 35%. 

Se considerarmos os resultados anteriores, 1989, 1994 e 1998, teremos que aceitar que os indiferentes se uniram aos raivosos contra Lula e o PT.

É por isso que as manifestações políticas contra Lula ficam engraçadas quando seus militantes mais exaltados definem o sucesso eleitoral de Lula e do PT das últimas eleições como resultado da "burrice do povo". O argumento é singelo,  pois desconsidera a própria lógica da burrice. O mesmo eleitorado que votou em Lula e no PT nas últimas 3 eleições o fez contra nas 3 anteriores. A burrice é então eventual ou apenas falta de argumentos mais consistentes?

O dia de ontem foi histórico. De acordo com a Folha de SP, cerca de 20 pessoas organizaram uma manifestação "contra Lula e o PT e em favor da honestidade". 

A conhecer a seriedade e a competência da Folha de SP com números, é seguro acreditar numa margem de erro de 10 manifestantes. O palpiteiro acredita em no mínimo 10 e no máximo 30 deles...

Mas o número dos herois da resistência a Lula não traduzem nem de longe a realidade de quem não gosta de Lula e não suporta o PT. 

Na cidade de SP, os que não votaram no PT nas últimas eleições somam, tranquilamente, milhões de pessoas. Nem todos babam de ódio ou podem ser classificados como "fascistas  manipulados pela coligação veja-globo-folha-estadão". Muitos simplesmente não concordam com as propostas, o discurso e a forma do PT governar. Tem toda a legitimidade para isso, num sistema pretensamente democrático. 


O que surpreende é notar que mesmo entre os militantes mais hidrofóbicos não houve condições de organizar ao menos 5.000 pessoas na avenida Paulista contra Lula e o PT. Quem mora em São Paulo sabe que há muito mais raivosos do que isso. 

Mas por que não conseguem se mobilizar aqueles que mais se incomodam contra Lula e o PT?

O palpiteiro acredita que são vítimas do próprio discurso. Acostumaram-se a rotular manifestantes de baderneiros. Poucos titubearam no apoio à repressão da Tropa de Choque contra grevistas, professores e militantes nas ruas do Brasil. 

Para quem acredita que pessoas que se manifestam estão sempre a agir como zumbis de sindicatos ou partidos políticos fica mesmo difícil acreditar na capacidade real que uma mobilização de manifestantes nas ruas pode provocar. 

O palpiteiro jamais se colocará contra o direito à manifestação daqueles que o fazem sem violência. Mesmo que pense em contrário. 


Mas não custa nada aos raivosos aprender algumas lições:

- mobilizar pessoas requer capacidade de liderança e organização

- uma causa comum é sempre importante, mas principalmente com um objetivo mais específico

- colocar-se contra o direito de manifestantes que pensem o contrário de você pode ter o efeito contrário: desacreditar as manifestações pacíficas de rua como instrumentos legítimos da democracia.

- esperar a mobilização de milhares de pessoas e contar com apenas 20 delas não é motivo para desânimo ou raiva. Antes de tudo é preciso fazer um balanço do que deu errado e POR QUE deu errado. Humildade não faz mal a ninguém. Nunca. 


São lições básicas que pessoas interessadas no livre exercício da democracia aprendem fazendo. Não há livro ou curso de formação política que ensine isso tão bem quanto a própria experiência e perseverança. 


O palpiteiro se solidariza com os 20 gatos pingados que dignificaram a luta por um Brasil "mais honesto e sem Lula e o PT". Por isso, recomenda a observação daqueles que já se mobilizaram no passado. Estudar a liderança de Lula como político, ao invés de demônio, pode ser um bom e significativo passo nesse aprendizado. 

Aqui, o link da histórica e retumbante manifestação

http://www1.folha.uol.com.br/poder/1214302-protesto-contra-lula-e-pt-reune-20-pessoas-na-avenida-paulista.shtml



Saturday, January 05, 2013

Retiro

O palpiteiro cumprirá o necessário retiro de janeiro. Bom para a saúde mental e para a redução das bobagens que se postam a cada segundo na internet. 

A todos um bom verão. E até lá por volta do dia 13/01/2013.


Friday, December 07, 2012

A herança de Niemeyer. E de muitos outros também.

O ano de 2012 não terminou e a inteligência universal lamenta grandes perdas. Aziz Nacib Ab'Saber, Eric Hobsbown, Décio Pignatari e Oscar Niemeyer se foram. Todos eles morreram com mais de 80 anos. Pignatari foi, entre eles, o mais novo, com 85 anos, e Niemeyer o mais velho, com 104 anos, a poucos dias de completar 105 anos. 

Morrer é a condição humana que amedronta, intriga e provoca. A morte para nós é diferente. Se para os animais é definida pelo instinto, para os humanos é mais do que isso: é pensamento e dúvida. Fazemos parte da única espécie que sabe que vai morrer e que se preocupa com o como, onde, quando e, de forma arrogante, o por quê isso irá ocorrer. As dúvidas a respeito da morte justificam a religião, motivam a filosofia, inspiram os artistas e amedrontam meio mundo. No limite, fica frase para lá de repetida e verdadeira: "Todo mundo quer ir para o céu, mas ninguém quer morrer".

As pessoas imaginam a morte de diferentes maneiras. As religiões de base judaico-cristã pregam uma vida eterna, ao lado de Deus, livre de erros e maiores preocupações. Outras religições acreditam num ciclo contínuo, em que o espirito migra, se transforma, retorna e parte. Para alguns a reencarnação seria apenas o preço para ficar mais na Terra. Para outros, a aceitação de nossa transitoriedade terrena. Seja lá qual for a crença se se siga, o mais sensanto é pensar justamente nisso: nossa passagem pela Terra é finita no tempo. Temos uma data de nascimento e uma de morte, ainda que não conhecidas. E aceitas.

Os mais materialistas pensam na possibilidade de deixar seu legado para que não os esqueçam. Um anel para um filho, bens, uma vida tranquila. Coisas que poderiam ser listadas em testamento, com registro em cartório, no papel. Nesse time há os ambiciosos que acreditam que podem comprar o reconhecimento pós morte. Aqueles que realizam obras ou patrocinam iniciativas que permitirão a lembrança das gerações seguintes. Isso vale para os Faraós que mandaram erguer suas pirâmides, para os escravistas que bancaram a construção de igrejas barrocas em Ouro Preto e para a família Matarazzo, cujo mausoleu no cemitério da Consolação sustenta este palpite.

Mas há outras formas de lembrança. Um ditado oriental ensina que "um homem só morre quando é esquecido". Tutancamom assim morreu. A Pirâmide que mandou construir à custa de tantas vidas é lembrada por si, não por ele. No final das contas as pessoas visitam o Egito pelas ideias e conhecimentos que permitiram a construção daquelas obras, não de seus mandantes. As construções em pedra mantém vivas as ideias e os conhecimentos do egípicios antigos. Tutancamon é só um morto, a cultura egípcia não.

Aziz Ab'Saber, Hobsbown, Pignatari e Niemeyer não tiveram Ferraris e também não mandaram construir Pirâmides. Mas todos eles serão lembrados pelo que fizeram, escreveram disseram e ensinaram. 

Os prédios de Niemeyr durarão muitos anos, talvez séculos ou milênios. Mas não serão as obras em si a serem descritas. O que ficará para as gerações futuras será a ousadia. O atrevimento de arriscar fazer diferente. 

O palpiteiro aprendeu a respeitar os Modernistas Brasileiros pela ousadia de aceitarem o desafio de fazerem o novo com autenticidade. Esse foi o caminho que permitiu a produção da Teoria dos Refúgios de Ab'Saber e Vanzolini; os poemas concretistas de Pignatari; o concreto armado e curvo de Niemeyer. A história viva, do homem comum e injustiçado de Hobsbown. 

Todos esses grandes homens mortos em 2012 se fizeram notáveis pelo que pensaram. Curiosamente, todos eles prezavam o diálogo, a conversa franca e o reseptio ao homem comum. De Pignatari e Hobsbown o palpiteiro conhece pouco, mas sabe alguma coisa de Ab'Saber e Niemeyer. Dos mestres que se fizeram respeitar no Brasil e no mundo sem esquecer do bom dia ao porteiro, do sorriso ao estudante, o pedido de licença ao garçom. Sem se esquecerem de pensar no outro, de se indignarem contra as injustiças e de saberem de suas condições humanas, transitórias enfim.

Perdemos grandes pensadores. Mas herdamos muitos de seus ensinamentos. Temos a chance de melhorar, estudando o que construíram, o que fizeram e o que foram como pessoas. Quanto à morte, permaneceremos em dúvida. Permaneceremos enfim limitados na nossa transitoriedade humana, seja lá qual for nosso destino. 

P.S.: Esse palpite é dedicado ao amigo Luis Fernando, que perdeu D. Hilda um dia antes da morte de Niemeyer. D. Hilda não foi conhecida como os mestres acima. Mas será lembrada e reconhecida pela pessoa boa que foi.
 

  

Monday, November 26, 2012

Há saída

Às vezes o noticiário revela verdades que mesmo o mais manipulador dos mortais não teria como negar. Às vezes a realidade é tão gritante que surge asssim mesmo, intrometida, sem pudores, mas nem por isso menos discreta.
 
Há poucos dias Boris Casoy, um representante do jornalismo capenga, teve que pagar, por acordo judicial, assim como sua empregadora a Rede Bandeirantes de TV, uma indenização de 21 mil reais a um gari. Quem lembra do caso, sabe que Boris Casoy fez um comentário preconceituoso contra o homem. Era um 31 de dezembro e o Jornal da Bandeirantes colocou saudações de feliz ano-novo de pessoas anônimas, literalmente, pois não havia caracteres que as identificasse. Numa delas um gari desejou felicidades a todos os que o vissem. Boris Casoy ironizou, menosprezando a sinceridade do gari. O áudio da fala do "homem branco, rico, letrado e superior" ao gari vazou. Pegou muito mal. No dia seguinte, Boris Casoy piorou as coisas. Pediu desculpas pelo vazamento do áudio, não pelo conteúdo do que disse. A Bandeirantes fez pior: manteve o "nobre" jornalista no ar e em seu quadro de "apresentadores de alto nível". Bem verdade que no horário da meia-noite, quando garis dormem...
 
Os anos se passaram e aparentemente justiça se fez. A moral ofendida do gari não pode ser reparada por 21 mil reais, dinheiro que não fará falta alguma a Casoy e ao grupo Bandeirantes. Mas o caráter simbólico da decisão é relevante. Lamentalvemente a imprensa que saúda a justiça que condena políticos silencia diante daquela que pune - com leveza, é verdade- os maus jornalistas. De todo modo, o gari passará um ótimo natal e um agradável ano-novo. A felicidade que ele desejou a todos, e que Boris Preconcetuoso-Arrogante Casoy desdenhou, fará a felicidade dele. Quem disse que o bem desejado não retorna?
 
Hoje o palpiteiro leu no Estadão a notícia que completa a realidade perturbadora, que protege garis e que ofende a outros. Trata-se da declaração do Reitor da Unesp de que as 3 universidades públicas estaduais de SP adotarão uma política de cotas sociais. De acordo com ele, será "semelhante ao que o governo Federal aprovou, porém melhor". 
 
Na notícia que o palpiteiro leu no Estadão, cerca de 50% das vagas nas "3 irmãs" ( USP, UNESP e UNICAMP) seriam destinadas a alunos de escolas públicas a partir de 2014. Destas, 35% para alunos negros ou pardos.
 
Como de costume, a notícia suscitará declarações raivosas contra as injustiças, a oportunista "defesa da escola pública" e o conceito para lá de retorcido de uma tal "meritocracia". Seja lá o que seus defensores entendam o que seja. 
 
Discursos hidrofóbicos a parte, o que se percebe é que o governo do Estado resolveu se mexer. Após os resultados das eleições de 2010 e 2012, descobriu que a questão social e racial não podem ser ignoradas no Brasil. Muito menos camufladas por "analistas" e "palpiteiros" de bem, brancos, escolarizados, com todos os dentes na boca e, em alguns casos, alérgicos a garis.
 
As mudanças que apontam para a inserção socioeconômica dos mais pobres, social e racialmente excluídos ao longo da história, vieram para ficar. Em pouco tempo deixaremos de discutir se devem ou não ser implantadas. Não demorará para avançarmos na discussão a respeito de COMO deverão ser efetivadas.
 
O palpiteiro tem uma triste notícia aos que desejam um país exclusivamente branco na sua elite e sem espaço para o pleno exercício da cidadania de pobres, negros e garis: esse país está deixando de existir. Devagar demais, é verdade. Mas está.
 
Em outros tempos você, amigo racista, teria a violência, o golpe, a repressão para conter esse tipo de avanço. Conseguiu isso no passado, no Brasil, na África do Sul. Naqueles tempos a CIA acreditava que seu racismo dava a vantagem de conter o comunismo. A história avançou, o comunismo não é mais assunto da CIA e os EUA - país de cotas raciais - tem um negão na presidência da República.
 
Na falta de meios extra-civilizatórios, o palpiteiro sugere que vá para Nova Iorque ou para a Suíça. Não que você incomode alguém por aqui, afinal você tende a ser uma minoria cada vez mais insignifcante como referência de ideias. Mas pelo seu próprio bem. A longo prazo, o desconforto e o sofrimento que você sente hoje só tende a aumentar. Vá por mim. Vá por você. Vá por nós.  

Saturday, November 24, 2012

Não deixe de perder: lista de coisas inúteis para a Fuvest

Amanhã, 25 de Novembro de 2012, teremos mais uma prova de primeira fase da Fuvest. Tem sido assim há décadas. Trata-se de primeira etapa de avaliação aos interessados em estudar e seguir alguma carreira oferecida pela Universidade de São Paulo, a USP. 

A USP é cercada não apenas por muros, mas também por mitos, lendas e julgamentos que variam desde a admiração sincera até a inveja mais descabida e mal disfarçada. A Fuvest é o nome da Fundação para o Vestibular, entidade que elabora as provas e organiza a sua aplicação que se dá em duas fases para a maioria dos cursos. Alguns têm provas de aptidão, como Arquitetura e Música, o que resulta numa avaliação a mais. 

Como de costume, algumas coisas se repetirão ao longo do dia de hoje. Conselhos, comentários e "dicas" para as pobres almas vulgarmente conhecidas como "vestibulandos". O palpiteiro não quis ficar de fora, pois sempre há uma oportunidade para se promover à custa do sofrimento alheio. No interesse de facilitar a vida daqueles que se submeterão ao moedor de carne chamado Fuvest, seguem aqui algumas dicas do que o vestibulando realmente não precisa:

Estudar até o último minuto - 

Tontice pura. O cidadão ouve aqueles testemunhos dos caras que passaram nas provas anteriores e se impressiona com o desabafo "se não fosse olhar a tabela periódica antes da prova não teria conseguido aquele precioso ponto para a segunda fase...". Numa prova de 90 questões, conseguir um mísero ponto com o desespero nas horas que precedem o exame é discutível. Se o cidadão precisou de 53 pontos para determinada carreira, isso significa que ele garantiu 52 antes do dia da primeira prova. Horas antes do exame, ficar tranquilo, distrair-se com coisas banais, prazerosas e seguras podem dar mais resultado do que a pressão que só uma apostila de cursinho pode oferecer...

Fórmula 1 - 


Totalmente inútil para a cidade, para o país e para quem vai prestar a Fuvest, a despeito dos lucros que rendem aos seus promotores, donos de hoteis e empresários ligados ao turismo em São Paulo. Pois bem, teremos a prova da primeira fase da Fuvest simultaneamente ao GP Brasil, em Interlagos. Para a maioria dos vestibulandos isso não causará maiores problemas. Para quem mora na Zona Sul, nas imediações de Interlagos, isso significará trânsito, stress e aumento de tensões. Além disso, o grande número de agentes da CET que conduzirão o trânsito em Interlagos deixarão de fazê-lo nos locais de prova da Fuvest onde haverá mais carros. São Paulo é jenial. Promove um GP de Fórmula 1, que atrais milhares de carros, no mesmo dia em que um exame para mais de 100 mil pessoas será aplicado. Tudo correrá bem para quem se precaver. Mas não deixa de ser interessante o palpite: confirmado a simultaneidade do GP Brasil com a Fórmula 1, podemos ficar tranquilos para a Copa 2014 em São Paulo...


Dúvidas a respeito da carreira na hora da prova - 

O garoto de 17 anos fez a inscrição há alguns meses e, em meio a incertezas, selecionou uma carreira da qual ele não tem muita convicção de seguir. Na hora da prova, ao invés de se concentrar, resolve se questionar por que optou por Geologia ao invés de Nutrição ou Letras... Não é feio ter dúvidas na vida. É muito nobre se questionar. MAS NÃO NA HORA DA PROVA. Por algum desígnio divino ou da natureza, o cidadão fez uma determinada escolha. Se vai fazer a prova, é coerente jogar conforme o combinado. Se não quiser fazer o curso ou se arrependeu amargamente por qualquer outro motivo, resolva depois. A prova é uma oportunidade de reflexão e testes de conhecimentos. Aproveitar esse momento para aprimorar a capacidade de ser testado é no mínimo interessante.

Certeza - 

Apenas os idiotas a possuem. E, geralmente, quanto mais certeza, maior a idiotice. Alguns jovens pensam: "Vou entrar na USP com 18 anos, concluir meu curso aos 23, seguir minha carreira, curtir a vida, casar-me aos 39 anos, comprar meu Iate aos 43 e subir o Everest antes dos 60 anos..." Não é estúpido fazer planos e sonhar para o futuro. Estúpido é acreditar que planos traçados aos 18 anos serão realizados EXATAMENTE do jeito que foram elaborados. Se você elaborou um plano com tanta certeza e detalhamento o palpiteiro lamenta: você tem uma lista de desejos, não um plano. Eventualmente um mau desempenho na Fuvest pode alterar esse plano. O que não quer dizer que deva ser descartado. Viver é arriscar, errar, aprender e seguir. 

Cobertura "jornalística" sobre a Fuvest -


A imprensa aparentemente presta um serviço quando aborda a Fuvest nos dias que antecedem a sua aplicação. Informar a respeito do trânsito ou indicar algumas dificuldades de acesso é trabalho jornalístico. Mas raramente essas matérias acrescentam algo ao que o vestibulando já sabe. O cara já leu o manual, já sabe onde fará a sua prova e deve ter uma noção do tempo e do que será preciso para chegar até o local da prova. Mas o mais interessante é assistir aquela matéria jornalística com aquele tom "...tensão antes da Fuvest, candidatos aproveitam os últimos momentos de preparação, nesse cursinho...". 
A emissora líder de audiência mostra professores dando aula, entrevista alguns alunos e, coincidentemente, o cursinho onde a "matéria jornalística" foi gravada anuncia no intervalo comercial... Existe uma certa emissora que até esconde o nome e o logotipo do cursinho, mas deixa "acidentalmente" aparecer as cores e o visual que identifica o dito cujo. Campanha de marketing bem feita é aquela em que você vende o produto sem que o cliente perceba que foi induzido a fazê-lo. Isso mesmo: essas "matérias jornalísticas" nada mais são do que isso. Peças publicitárias disfarçadas de jornalismo.


Assumir culpa alheia - 

Passar na USP não é fácil. São mais de 130  mil candidatos para pouco mais de 10 mil vagas. A maioria será excluída muito menos por incapacidade acadêmica e muito mais pela simples injustiça de não haver um número digno de oportunidades para mais pessoas. O Estado brasileiro não foi capaz de resolver isso. O governo federal, o estadual e o municipal poderiam fazer muito mais pela educação do que fazem. Se o resultado de sua omissão é excluir jovens, o que se deve fazer é colocar as coisas nos seus devidos lugares. Fazer a prova com toda a dedicação e honestidade que lhe cabe. E exigir, continuamente, que essa situação mude. Há jovens que se sentem muito mal após o exame diante de um desempenho ruim. Passam a julgar a si mesmos. Autocrítica é importante, mas você não deve carregar nas costas a culpa da incompetência do Estado brasileiro no ensino superior. Menos.

Conduta de mau perdedor - 


O palpiteiro ingressou no curso de Geografia da USP em 1993. Em cinco anos de curso, pagou apenas pela  taxa de inscrição para a Fuvest e R$ 40,00 para o calígrafo escrever o diploma. Fez um bom curso, com excelentes professores e instalações muito boas, mesmo que abaixo do ideal. A USP proporciona isso em praticamente todas as carreiras. Mesmo nos cursos em que faltam equipamentos, há sobra de professores que compensam de algum modo. 
As universidades privadas atuam nessa realidade: absorvem as pessoas que não puderam ingressar numa universidade pública. Algumas - poucas - o fazem com dignidade. A maioria só quer ganhar dinheiro. Nessa história o palpiteiro tem percebido um discursinho pitoresco entre alguns jovens de classe média. Não admitem claramente que possuem poucas chances de ingressar na USP. Deve ser duro para alguns adolescentes entenderam que seus pais gastaram muito dinheiro para pagar escolas caras que eles não aproveitaram. Pior para aqueles que acreditam que o dinheiro compra muita coisa, menos vaga na USP. Seria digno repensar a vida. Alguns fazem isso. Outros não. Preferem falar mal da USP. Bradam que a "estrutura" é precária ( o palpiteiro sempre quis saber qual: a óssea, a molecular ou a dos prédios...). Querem acreditar que "só tem greve" e que a USP já era. Ou que "já não é mais a mesma".  Assim fica mais fácil pagar por cursos de qualidade discutível que cobram mais de R$ 1.500,00 mensais, além de outras taxas. É muito bom valorizar a universidade privada que presta um bom serviço. Mas não é elegante diminuir a outra universidade para destacar a que ele escolheu. Isso soa muito mal. É típico de maus perdedores...



Há muito mais coisas inúteis que um candidato da Fuvest não precisa. O palpiteiro só lembrou dessas. no mais, deseja muita tranquilidade e leveza na hora da prova. Ao fim de tudo, é só mais um prova em meio tantas outras que a vida irá oferecer. Provas que nenhuma escola ou cursinho irá prepará-lo. Sucesso, é o que o palpiteiro lhe deseja.