Bolívia é um país que cansou de perder. Perdeu a prata para o espanhóis, o litoral para o Chile e o Acre para o Brasil.
No início do século XX os EUA criaram uma empresa chamada Bolyvian Sindicate. Coisa linda. Os estrangeiros davam grana e armas para os bolivianos enfrentarem brasileiros que tiravam látex em território boliviano. Enfrentaram e perderam. O plano dos EUa deu errado e diante de uma possível guerra entre Brasil e Bolívia, os gringos caíram fora da Amazônia. É sempre bom lembrar que os interesses do Departamento de Estado dos EUA são muito mais antigos do que a avó de Evo Morales. Há quem veja apenas no atual presidente a origem de problemas que já ultrapassam séculos.
O Brasil tem muito mais diferenças com a Bolívia do que podemos imaginar. Uma delas é Fiscal. SP, RJ e MG são os mais ricos do país e os que mais arrecadam impostos. A grana vai para Brasílis e depois é distribuída para outros estados e regiões. Quem organizou isso foi o governo do Vargas. Não foi fácil e houve muita resistência, principalmente de SP. Mas SP perdeu essa parada e tem que passar por isso até hoje. Um paulista mais afoito chamaria de injustiça. Um nordestino mais sereno chamaria de equilíbirio. O fato é que esse mecanismo dá alguma estabilidade num país tão grande e com tantas diferenças de riqueza nos mais diferentes estados. Basta imaginarmos o contrário: SP com toda a riqueza e os recursos públicos do páis. Coisa boa não daria...
Evo Morales assumiu o Poder na Bolívia prometendo transformações. Instituir o monopólio do Gás Natural e peitar a Petrobrás foi apenas um capítulo dessas transformações. Se eu fosse acionista da Petorbrás eu o amaldiçoaria. Se eu fosse um boliviano pobre o aplaudiria. Não tenho ações da Petrobrás. Mas tenho simpatia pelos pobres da Bolívia...
A nova Constituição da Bolívia prevê a redistribuição dos impostos arrecadados em Santa Cruz e em outros estados do país, os mais ricos. A maioria boliviana pobre e indígena que mora nos altiplanos aprovam. A minoria mais rica das terras baixas repudia. Nas terras baixas da Bolívia estão as empresas que exploram o Ga´s do país. Agricultores estrangeiros de soja: brasileiros, argentinos, americanos. Latifundiários bolivianos também.
Os EUA têm empresas que exploram a economia boliviana, assim como o Brasil também. As perdas econômicas na Bolívia seriam ridículas para os EUA. Muito poucas para um país que anda salvando empresas financeiras mal administradas com mais de US$ 200 bi. O problema não é só econômico. É político também. Os EUA temem mudanças nas quais eles deixem de ganhar. O problema é a Bolívia virar um exemplo. E se nacionalizar e transformar der certo? O que aconteceria com a América Latina? Imagine um sentimento nacionalista se alastrando pelo sub-continente. Os EUA sabem que é preciso agir. Financiam seus aliados na Bolívia. Jornais, emissoras de TV, rádio, revistas e partidos políticos. Um embaixador dos EUA avançou o sinal: no meio de toda a confusão passou a se encontrar publicamente com os opositores que atacam o gasoduto para o Brasil e que falam em separatismo. Não parece grave?
O embaixador em questão foi representante dos EUA na antiga Iugoslávia. Atuou de maneira habilidosa e se aliou a separatistas que estraçalharam o país, originando a Bósnia e Kossovo. Se acha isso pouco, é só imaginar o que os EUA fariam se um embaixador boliviano andasse na Carolina do Sul pregando o separatismo. Sim, naquele país onde morreram 500.000 pessoas numa guerra de Secessão. Os EUA sabem o que é lutar para manter a integridade territorial. E não aceitam isso na Bolívia. Separatismo no quintal dos outros é refresco.
E eu com isso? Sou apenas um brasileiro, latino-americano sem dinheiro no banco. E que sabe que um separatismo na Bolívia pode ser muito perigoso para toda a América do Sul. Se a moda pega, daqui a pouco o senhor embaixador dos EUA monta uma ONG e passa atuar na Aamazônia. E olha que o cara é bom de fragmentar o território dos outros...
É também por isso que 9 presidentes da América dos Sul estão conversando no Chile, dentre eles do Brasil e Argentina. A questão já não é mais gostar ou não de Morales. A questão é saber o que ganhamos com uma grande potência rondando a América do Sul e pregando separatismos. Sai para lá Exu-Caveira...
Claro, se você acompanhar esse assunto pela Globo ficará com a impressão de que e apenas o Gás natural que está em discussão. O casal patético do programa de humor chamado Jornal Nacional vai lhe dizer que as coisas estão tensas e mostrará uma entrevista qualquer com algum líder político...De Santa Cruz, é claro. Parece lógico a Globo ficar ao lado do pessoal mais rico de Santa Cruz e simplesmente ignorar os indígenas do Altiplano, omitindo um dos lados em disputa.
A Globo já escolheu o lado dela. E nós?