Thursday, January 18, 2007

Any e a tragédia espetacular

Todo jornalista em começo de carreira aprende que “notícia é quando um homem morde um cachorro e não o contrário”. Uma criança morta por um cão feroz não teria o mesmo apelo que “homem mata pit bul a dentadas...” Tanto quanto a informação precisa e imparcial - seja lá o que for isso...- é preciso ter o talento para chamar a atenção daqueles a que se destinam as notícias e, assim, vender mais jornais, revistas ou aumentar a audiência do rádio, televisão e Internet. Mudam os meios de informação, mas no geral o objetivo é o mesmo: despertar o interesse pela notícia. Em tempos de férias surge o problema. As pessoas querem se divertir, viajar, namorar mais. Janeiro no Brasil é assim. Não é por outro motivo que o ano para as emissoras de televisão como a Globo começa em abril, início de outono e certamente pós-carnaval. Esse palpiteiro mesmo conseguiu ficar dez dias sem qualquer acesso a veículos de informação, no tradicional esforço de desintoxicação informacional que realiza sempre que possível, geralmente em Janeiro. Assim, ficou sabendo que um buraco engoliu terra de suas bordas e fez desaparecer um micro-ônibus com algumas pessoas dentro, além de outros desafortunados que estavam próximos ao local. Teve o conhecimento disso cinco dias mais tarde. Mas não deu outra: com três dias as coisas já estavam esfriando numa metrópole tão violenta como São Paulo e, uma tragédia como a que tivemos, gradativamente foi sendo incorporada na história e no cotidiano de todos. Porém a imprensa precisa de “notícias”. E junto com a terra movida pelos bombeiros, repórteres escavam fatos. É preciso piorar as coisas para que despertem a atenção de todos. Vale tudo: cenas de corpos cobertos em seu resgate e matérias sobre cadelas talentosas do corpo de bombeiros. Uma delas é chamada de Any, como soubemos nesses dias.
Esse palpiteiro passa com relativa freqüência na região do evento, já foi Office-boy e se formou em geografia numa Universidade banhada pelo rio Pinheiros. Mesmo após tudo o que apurou junto à imprensa, o palpiteiro ainda acredita que é mais perigoso ser roubado no Metrô que já funciona em São Paulo do que novas tragédias na parte em construção da dita linha Amarela. E numa quinta-feira chuvosa, o palpiteiro assistiu o filme “Os monstros estão de volta”, na sessão da tarde. Foi muito mórbida a situação na qual a Globo exibia um filme de comédia com a exaltação a cadáveres e assuntos fúnebres intercalando chamadas ao vivo do buraco, na qual um tal César Tralli tentava dar ar de seriedade e respeito ao andamento do resgate de alguns corpos da tragédia do Metrô. Também está sendo patética a forma pela qual Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo cobrem o evento. Manchetes já priorizam o termo “cratera”. Sim, não foi um buraco de uma obra do Metrô. Mas apenas uma cratera. Termo maroto esse. Preserva a companhia Pública responsável maior pelas obras e também o seu controlador, o Estado de São Paulo. O palpiteiro assume os riscos e questiona palpitando:

1) Um movimento de terras dessa magnitude não ocorre como avalanches de desenhos animados. Embora rápidos, há uma série de indícios que olhos atentos de engenheiros civis sabem identificar: fissuras no asfalto ou nas calçadas, por exemplo. Cá entre nós, se você fosse um engenheiro responsável por uma obra desse tamanho assumiria riscos? Arriscaria sua vida ou a de operários, sob a possibilidade de perder a própria vida ou a de responder processos por mortes de subordinados? Arriscaria perder o emprego por um incidente que chamasse a atenção da sociedade e que o tornasse um desempregado?
2) A segunda dúvida se relaciona à primeira: porque a única vítima entre os que trabalhavam na obra foi a de um caminhoneiro que voltou para pegar seus documentos? Teriam sido os outros avisados? Será que num buracão daquele tamanho não exigia a presença de NENHUM funcionário das empresas envolvidas? Sorte ou prudência de quem sabia que algo ruim poderia ocorrer?

Ao que parece, a imprensa quer fazer o homem morder o cachorro. Talvez a Any. Não nos parece que seja interessante questionar o cotidiano brasileiro de omissão de autoridades ou do poder que empreiteiras têm no país. Isso infelizmente nos indica que novas tragédias poderão ocorrer. E que a depender do nível de informação que a sociedade recebe, ficaremos mais no espetáculo da tragédia do que no combate àqueles que as causam. E coitados dos cachorros...

4 comments:

Fran Flauzino said...

Eu moro ao lado da "cratera", é inacreditável como funciona o sensacionalismo, assim como o nosso governo.
Não sou PT, PSDB ou qualquer outro "P" por aí, muito menos anarquista, comunista ou socialista, mas o governo é capitalista e eu só estou palpitando. Negligências houve e sempre haverão. Também não posso desmerecer bons profissionais da área, há mesmo bons engenheiros e geólogos. Mas se quer um conselho: desconfie sempre da imprensa!
E se quer saber se ainda ando de metrô? Claro, assim como todos nós não deixamos de sair as ruas por causa do PCC.

Abraços Moraes!

Espero não ti ver no curso Objetivo esse ano, mas espero muito esbarrar contigo na usp, afinal ainda faz mestrado, não?

Fran!

Artur Monteiro said...

Fessor,

É o cara da gripe aviária (risos). Essa foi boa! Ok. É um dos caras da revisão final de Santana, talvez o senhor se lembra.

Estou comentando só pra dizer que foi o único texto que eu li dizendo realmente as coisas -- e, claro, com um humor moraeslítico.

Abraço e boa sorte!

PS:. Não assista Sessão da Tarde. O Brasil precisa da sua mente!

Sérgio de Moraes Paulo said...

Valeu, Artur,

quanto à sessão tarde, lembro ao senhor que cresci vendo filmes do Jerry Lewis depois da reprise das novelas...

Acho que não me fez tão mal assim...rs...

Grande abraço.

Jackelyni said...

A questao se resume em: o povo brasileiro esta acostumado a nao se interessar o como ou porque de acontecimentos assim, e sim fica repassando a "informacao" de que abriu um buraco na cidade e morreu um monte de pessoas e so. O povo repassa as informacoes e a imprensa fica no mesmo papo "retiraram mais um corpo" e nao se dedica pra dar a verdadeira informacao, quer seria a irresposabilidade da prefeitura que obviamente ja previa tal acidente , afinal uma cratera nao surge do nada nao e mesmo?
Mas a imprensa quer so a parte chocante, que realmente prende a atencao da populacao, o que na verdade, deveria ser a funcao da imprensa , informar os verdadeiros responsaveis e causas de acidentes, crateras e afins.


Agora um comentario a parte : estava eu na praia quando aconteceu isso e meu pequeno primo se manifestou ao saber: "cratera? nossa cairam meteoritos em sao paulo?" ahahahahahhaaha....!


bjooo moraes to com saudades das suas aulas e vc me infortunando e mandando a mae alice fazer seus trabalhos ! =]