Wednesday, December 27, 2006

A MUDANÇA PELA ESCASSEZ

Esse palpiteiro certa vez ouviu que somente os gênios vêem o óbvio. Embora não saiba ao certo a autoria da dita frase, sua simplicidade revela mais do que um fundo de verdade, sendo apenas genial. Um desses gênios que viram o óbvio foi Milton Santos. Em seus últimos anos de vida, adoecido por um câncer, Milton Santos deu muitas entrevistas, demonstrando a consciência de sua importância e a coerência de sua vida. Mais do que um geógrafo reconhecido pelo mundo, Milton Santos foi um professor.

Numa de suas muitas entrevistas Milton Santos disse que acreditava em mudanças e que por isso era um otimista. Disse que as mudanças viriam pela escassez e que a classe média haveria de aprender com os pobres a lidar com esse fenômeno. O professor sabia ver nos pobres a inteligência daqueles que têm de sobreviver com muito pouco. Para fundamentar o que dizia, apontou para as periferias das metrópoles. Esse palpiteiro, por exemplo, foi uma das testemunhas que viram um debate entre Milton Santos e Mano Brown na USP, ocasião em que o professor que já dera aula na França e no MIT, demonstrou grande apreço e respeito pelo poeta da periferia. Antes de tudo, Milton Santos via no rap uma expressão da linguagem urbana - metropolitana - que era mundial por abordar temas que eram também universais como pobreza, violência policial, desrespeito a direitos básicos, falta de moradia e etc. A escassez motiva o ser humano a mudanças. Talvez para melhor.

Desde então esse palpiteiro aprendeu a procurar em diferentes problemas alguns tipos de escassez que pudesse levar a mudanças. Na perspectiva de escassez de energia elétrica todos somos obrigados a adiantar o relógio em uma hora. Na escassez de espaço para a fluidez do trânsito de São Paulo, foi imposto um sistema de rodízio de veículos segundo os números das placas. Embora a instituição do rodízio tivesse sido motivada inicialmente pela poluição do ar. Ou melhor, pela escassez de ar respirável... O que mais despertou a atenção do palpiteiro foi o fato de serem medidas que, tomadas pela escassez coletiva, foram impostas a toda a sociedade. Ricos e pobres não têm alternativas: devem acordar mais cedo todos os anos e serem privados de circular com seus carros ao menos um dia da semana. Muitos são os exemplos de escassez cotidiana. Nos últimos meses, descobrimos a escassez de controladores de vôos e, por conseqüência, a escassez da pontualidade.

Assim, os sonhos desse palpiteiro têm sido direcionados pelos diferentes tipos de escassez. À escassez de mão-de-obra qualificada talvez tenhamos um dia um sistema público de educação mais decente. À escassez de boas condições de vida, talvez um dia tenhamos um saneamento básico melhor e um sistema público de saúde que de fato seja universal e digno. Na perspectiva de escassez de água potável, poderemos, quem sabe, ter práticas mais sábias de uso e conservação dos nossos rios. À falta de segurança, é possível que tenhamos melhores políticas de distribuição de renda, amparo social, moradia, lazer para os adolescentes e segurança pública, que deve sempre existir, mas que sabemos que é tão mais necessária quanto mais escassos forem os serviços e políticas de atendimento à população.

Na escassez de palpites que fossem apropriados para a véspera de mais um ano novo, segue a esperança de que, com tantos tipos de escassez, o ano de 2007 nos traga mudanças e que nunca se esgote nossa capacidade e disposição de nos indignarmos com o que é injusto, desonesto e desnecessário.

2 comments:

Rafael Seferian (o outro) said...

Boa virada momô! ehehhehe
tenha um bom 2007 prof...

e agora, vou opinar rapidinho sobre a carta do Vianna, já havia lido...
bom, interessante, clichê, e um pouco hipócrita...
mas...
nenhuma midia presta completamente...jogo de interesses, dinheiro, religião(que não deixa de ser dinheiro)...
e por ai vai!

Sérgio de Moraes Paulo said...

Rafa,


no final das contas essa carta serve para isso mesmo: reafirmarmos nossas desconfianças frente aqueles que de uma forma ou outra lidam com informações. No mais, se não tivesse nenhum valor, essa carta teria sido manchete do JN. Como não foi, nós repercutimos...rs...

Bom 2007 para vc tb.