Tuesday, November 23, 2010

Você não foi perspicaz. Desculpe-me.

Custo a acreditar que seja mesmo você.

Convivi com você por quase um ano letivo. Você tinha 15 anos e de modo algum diria que era limitado.

Aparentava um bom nível cultural e uma velocidade nas respostas que destoava da maioria dos garotos da sua idade.

Por vezes eu me surpreendi com a diferença entre a imagem da "bad boy" - que você fazia questão de ostentar- com a perspicácia do seu pensamento.


Você sempre me pareceu mais confuso do que mau caráter.


Um dia vi você numa das escadas da escola com aquela sua namorada. Você estava matando aula e eu lhe disse que nada falaria. Você era o aluno e eu o professor. Não tive dúvidas e informei a orientadora do que você estava fazendo. Lembro-me de que você foi chamado à atenção. A orientadora fez o trabalho dela, eu o meu. Você é que estava fazendo a coisa errada. E tenho a certeza de que percebeu isso, pois jamais me cobrou por isso. Você sabia já no ano passado a distinção entre o que é o certo e o que é o errado. Já disse e repito, dentre todos os seus defeitos, não está a falta de inteligência.

Você é perspicaz.

Em 2009 segui o combinado da escola. Falei sobre a Europa e a questão da Xenofobia. Dei aquela aula sobre a África do Sul e me dediquei ao máximo quando falei sobre o Apartheid e o problema do racismo.

Sinceramente não me lembro do seu rosto durante essas aulas. Mas tenho certeza de que você me ouviu algumas vezes.


Vou lhe confessar um segredo: toda vez que toco num assunto que envolve violência tento chamar a atenção para o que é o errado e o que é o certo. Aprendi que adolescentes ficam interessados em histórias de violência. E aprendi o quanto é importante deixar claro sobre o quanto a violência é ruim.


Falei disso quando dei aula sobre a população da América e o genocídio dos indígenas, praticado tanto na América do Norte quanto na América do Sul. Não tem essa de que os EUA foram malvados e nós não. Todos matamos índios em nossas histórias e todos carregaremos para sempre uma parcela dessa culpa. A terra que pisamos tem parte do sangue deles.


Também me esforço para falar da violência e do preconceito quando toco no assunto sobre o Oriente Médio. Desisti de buscar um lado certo naquela encrenca toda. Sempre busco deixar claro que israelenses e palestinos cometem excessos e erros.

A maldade humana não tem lado.


Você deve ter ouvido alguma coisa do que eu disse quando falei sobre a Ásia e o Vietnã. Talvez não tenha percebido, mas quando fui crítico aos EUA o que menos me interessou foi ser anti-americano.

Aprendi a condenar a violência e não o violento.


Aprendi também a condenar o holocausto, o terrorismo e perceber que o que quer que os EUA tenham feito de errado nada justificou os ataques do 11 de setembro.


Parece complicado, mas não é. Quando se assume o compromisso com a defesa da vida fica bem fácil de saber quem é bom e quem é mal.


Você foi meu aluno e esse ano saiu da escola.


Fiquei sabendo apenas agora os motivos.


Mas você deve ter aprendido mais do que nunca agora que notícias ruins se espalham com muito mais velocidade do que as coisas boas. Aprenda isso: o gosto pela maldade e pelo sofrimento alheio não é exclusividade sua. Muitos agora que se diziam seus amigos agora se orgulham em dizer que o conheciam e a lhe rotular como idiota e "sem-noção".


Você jamais imaginou que pudesse ser vítima do julgamento dos outros como está sendo agora.

Ironia: seus amigos julgaram pessoas sem conhecer e condenaram sem a mínima legitimidade moral. Hoje você é a vítima do julgamento superficial e da ignorância. Atos que você viu de perto, de outra forma.


Você deve estar sofrendo com isso, mas deve saber que pessoas estão se divertindo às custas do seu sofrimento. Hoje. Agora.


Não acredito sinceramente que você seja um monstro. Aposto muito na ideia de que tenha se deixado levar pela bobeira que compromete a história de muitos adolescentes.


Parece fácil agora ver o quanto errou. Mas não pareceu na hora em que você errou. Você sempre me pareceu muito perspicaz. Não foi aquele dia.


Às vezes torço para que todos que citam o seu nome estejam errados. Sinceramente torço para que não seja você um dos adolescentes que estavam entre aqueles que agrediram aqueles "gays" na Paulista.

Mas os boatos e as versões me parecem tão reais que começo a crer na sua participação.


Se for você mesmo não tenho como lhe tirar a culpa. Se não errou por que não bateu, errou muito por não ter se colocado contra. A omissão é às vezes a maior aliada da maldade.


Se eu pudesse lhe dar algum conselho lhe daria o mais simples: jamais negue seu erro. Não finja que não foi com você. Pague, exigindo justiça, pelo mal que eventualmente cometeu. Nem a mais e nem a menos. Exija justiça tanto pelo que não fez quanto pelo que tenha feito.


E se puder, pense no quanto ganhará daqui para frente ao assumir um compromisso pela defesa da vida.


Você deve saber da realidade: é menor de idade e o barulho feito agora não necessariamente será da mesma proporção de uma eventual condenação. Na pior das hipóteses terá sua liberdade em menos de 2 anos. Na melhor das hipóteses desfrutará do que é mais injusto nesse país: um sistema judiciário que maltrata pobres e bajula os mais ricos.


A escolha é apenas sua. Aprender com o erro de hoje ou se safar mais uma vez.

Até quando?


E se eu pudesse lhe dizer algo olhando nos seus olhos diria: você não errou sozinho. Errei eu que não fui capaz de lhe convencer daquilo que acredito. Seus pais, suas escolas, seus amigos e toda essa sociedade hipócrita que hoje lhe condena mas que continua a criar tantos jovens que farão algo semelhante ou pior do que o que você e seus amigos fizeram.


Não duvido da necessidade de você ter algum tipo de punição. Mas não me envergonho de lhe pedir algo: desculpa.

33 comments:

Anonymous said...

Professor, compreendo o seu pedido de desculpas a esse aluno e lamento não ser ele - pois dá para sentir o seu desejo de que ele leia este texto...
Nem sempre a todos convenceremos. E também, às vezes necessitamos sentir algo além (inusitado, espécie de adrenalina) - contudo esse garoto (se for ele mesmo) optou por um impulso do mal, aquele que rege os que destroem vidas e a jogam pelos córregos mundanos. Mas, não deixou de ser um impulso tomado abruptamente– é ele não foi perspicaz.
Separei uns trechos que gostei...
"A terra que pisamos tem parte do sangue deles." E também de muitos outros que foram vítimas da cegueira e estupidez de outrem.
"A maldade humana não tem lado." Infelizmente não tem e segue muitas vezes impune - por todos os cantos do globo terrestre. ):
-
Professor, desculpa se o comentário ficou um pouco incoerente... E, sentiremos saudades das suas aulas! haha (:

Anonymous said...

Opiniões sinceras: texto raso, choroso, mole. Isso não parece conversa de professor, parece conversa de pai arrependido, tio arrependido. Não é à toa que o monstrinho chegou onde chegou.

TODO MUNDO CONIVENTE COM OS ERROS DE GENTE MAL EDUCADA.
Perdeu a chance de ficar calado, professor (de marginal).

Sérgio Coutinho said...

Professor e colega de profissão, compreendo o que quer dizer.

Mas nos 20 anos de profissão tenho visto de forma progressiva alunos com disturbios mentais. Depressão, sindrome do panico, esquisofrenia.

Ja tive a infelicidade de ter um aluno que se suicidou. Outro, um rapaz brilhante que abandonou a escola porque a depressão o consumiu.

Meu palpite é que esse garoto possa sofrer de algum disturbio psiquiatrico. O Sr. sabe como a escola sempre tratou o assunto: varre para debaixo do tapete e ignora.

Talvez essa seja a hora de chamar psiquiatras nas escolas para ouvir os alunos. Psiquiatras - e não psicólogos.

O seu aluno me parece sofrer de transtorno de personalidade. Por mais que seus pais lhe ensinaram, por mais que o Sr. tenha esclarecido a mente do jovem não está saudável para pensar no que vai fazer.

Trago neste post uma reflexão importante que está sendo há muito adiada nas escolas desde país.

Sérgio de Moraes Paulo said...

Sergio Coutinho,


a escola há muito precisa ser pensada com apoio de psiquiatras, juristas, psicólogos, médicos, nutricionistas, jornalistas e todos os profissionais que possam de algum modo ajudar no processo de formação dos brasileiros.

Não tenho condições de avaliar o que de fato ocorreu naquele dia e se o garoto tem ou não problemas. Mas não posso deixar de notar a omissão de vários atores na sua formação.

Assim como não carrego toda a responsabilidade pela educação do adolescente, não me eximo da pequena parcela de culpa que me cabe.

Abraço

Edmar Ávila said...

No Nassif a galera não gostou do tom do seu texto. Mas é curioso, quem menos gostou menos argumentou...

Eugenio Raggi - BH said...

Mais uma vez um colega de profissão me decepciona com essa conversinha mole de professor-tranformador-do-mundo.



Chega a ser irracional que alguém que se encontra por 2 módulos de 50 minutos por semana com um aluno em meio a outros 40 colegas possua qualquer tipo de ilusão de ser transformador de almas.



Eu entro em sala para dar aulas de história, não para impedir a ascesão da homofobia. Como pai eu combato sentimentos dessa natureza em emus filhos. E sou eficaz nisso. Se eu falhar, apenas eu ( o pai, já que ela perdeu a mãe há 2 anos) serei o responsável por isso. Se ela se transformar em uma homofóbica fascista a culpa será EXCLUSIVAMENTE minha. Nenhum milésimo disso caberá aos seus professores, nem à escola, a TV, a mídia ou colegas.



Não terceirizei a educação moral e ética de minha filha a um grupo de professores. Não cobro deles isso. Ela vai à escola pra calcuilar o delta, estabelecer ligações químicas e entender o que é marxismo ( se vai ser ou não marxista é ela quem decidirá).



Balela esse papo de dividir a culpa com toda a sociedade, para fragmentar ainda mais a notória negligência das famílias nessa verdadeira tragédia urbana. No fim, com tantos, culpados, a culpa não acaba sendo de ninguém.

Sérgio de Moraes Paulo said...

Edmar,

desconfio que um tom de mea-culpa esteja em baixa nos últimos tempos...rs...

Procuramos tanto atacar que um texto quase cristão incomoda...rs...

O mais curioso é que eu não mudaria muito a essência.

Não achei que tivesse tanto a cara de "auto-ajuda" assim...rs...

Mas não se pode agradar a todos.

Quanto às críticas, note que as mais ácidas partiram de professores...rs...


Preciso dizer mais alguma coisa?

André said...

Titio palpiteiro,

Seus textos em segunda pessoa sao nao apenas bons, mas diferenciados. Keep on it!!!

As palavras nunca voltam vazias: nossos discursos sempre surtem efeitos (pro bem ou pro mal), ainda que nao levem `a transformacao integral (o que seria muita pretensao). Entendo seu jogo argumentativo, mas creio ser a culpa algo bem mais relativo e complexo do que da forma como tendemos a imputar - inclusive com relacao aos pais irresponsaveis que existem aih e aqui (incrivelmente, comeco a achar inclusive que muito mais aqui nas terras da Rainha).
Bonitinho vc assumir a culpa que te caberia, mas nao te cabe nada, chegado.

A questao dos nossos disturbios mentais (de todos nos) tem me incomodado muito tambem. Precisamos de ajuda urgente (ou nos conscientizar da importancia de espalhar o apoio mental pra sociedade como um todo. Meu, ha dois anos atras nunca imaginava que isso fosse tao - ou mais importante ateh - do que a educacao; hj nao tenho mais a minima duvida disso).

Saudades de vc, chegadao!

Andre.

Eugenio raggi - BH said...

Sergio,


Somos colegas de profissão. Boa parte de nossos colegas (você incluído) acha que o mundo pode ser transformado por nossas ações profissionais. Não vejo diferença alguma entre a minha parcela de transformação da sociedade e a de um vendedor de sapatos, profissão bastante respeitável. Um vendedor de sapatos, se for bom pai, bom amigo, bom filho, pode muito bem transformar o mundo com suas ações de cidadão, não pelos sapatos que vende.

Enquanto continuarmos nessa pretensão arrogante de que a nossa profissão é mais importante e transformadora do que todas as outras na sociedade, com essa ideia nefelibata e narcisista de que somos muito mais imprescindíveis ao mundo do que o vendedor de sapatos continuaremos colaborando para construir esse modelo quantificador de sociedade, em que pessoas são medidas pela sua importância no nosso "belo quadro social".

Sempre odiei essa obsessão pela "excessiva valorização dos mestres"., esse lero-lero de que na Coréia professor é um Deus, no Japão está acima dos Samurais, na Islândia as pessoas se curvam quando estão de diante de um, blá-blá-blá.

Somos apenas mais uma profissão, como tantas outras. Cada qual delas com seu quinhão, que não deve ser medida nunca com a régua da arrogância. Escolhi ser professor porque gostava (e gosto ) de ensinar, não porque me julgava mais útil para a sociedade do que um comerciante de jóias.

Raul Seixas já disse certa vez: "E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social?"

Bons irmãos, bons pais, bons filhos, bons amigos, cidadãos tolerantes e respeitosos. Estes sim são so imprescindíveis. E esse tipo de coisa não deve, EM HIPÓTESE ALGUMA, ser prerrogativa da escola. Numa sociedade decente, formar um cidadão com estes requisitos é uma prerrogativa dos LARES, dos PAIS, da FAMÍLIA.

Terceirizar a formação humana, ética e moral das crianças e adolescentes para o ambiente escolar é uma negligência, uma terceirização formativa grave e inconsequente.

Ficar achando que as nossas escolhas são muito mais nobres do que vender sapatos não vai resolver nada!

Anonymous said...

Esse professor palpiteiro devia se candidatar a substituto da madre Teresa. E tentar fazer como Jesus: colocar-se na cruz para o perdão dos pecadores.

Que tal oferecer-se, professor, para pagar a pena na FEBEM no lugar dos marginais, já que se sente tão culpado? Já que foi tão responsável?

Que começou dando mal exemplo de como MENTIR ao dizer que não ia dedurar o moleque que tinha matado a aula, mas que depois o fez?

Tenha santa paciência. Um dramalhão sem fim esse texto. Um dramalhão.

Juliana Santos said...

Ao contrário de muita gente eu acredito na capacidade de cada ser humano de tocar, transformar e ajudar o outro seja lá qual for o tempo que se passou com essa pessoa.


Acredito ainda com mais veemência na capacidade que possuem os professores.


Acredito por experiência!


Eu estudei numa escola pública, e tinha um professor de história, Marcos, que sem a menor sombra de dúvidas é responsável por muito do que eu sou hoje. Ele dava aula para todas as turmas do colégio da tarde, para outro colégio de manhã e outro de dia, cumpria a carga horária exaustiva que é impostas aos professores nesse país.



Mesmo assim ele marcou minha adolescência. Inclusive a escolha da minha profissão e a minha determinação devo em muito a ele.


O gosto por política, a certeza de que você pode fazer o melhor independentemente dos outros, também devo em parte a ele.


Com o risco de ser piegas, eu ainda acredito no ser humano. É, porque ultimamente as pessoas estão mais preocupadas em apontar o dedo cheias de convicção para condenar os outro.


O que esse rapaz fez foi horrível, mas qual é a nossa parcela de culpa?! Quanto dessa violência é reflexo da nossa sociedade?!


Enfim o que queria dizer Moraes é que eu achei muito bonito o seu texto, e muito sincero. E que a responsabilidade por atos de violência como esses são culpa da sociedade como um todo. Culpa de um mundo em que a banalização da violência nos permite aceitar o inaceitável.

Você foi perspicaz!

Edmar Ávila said...

Eu não queria, mas vou ter que opinar (ou seria "palpitar"?!). Confesso que a primeira leitura do seu texto me deixou uma impressão de certa apelação dramática. Mas relendo, nas pegadas do conselho do sábio Goethe, percebi o que você realmente quis dizer. Eu não me sentiria determinantemente culpado por nada, mas não dá pra ver o assunto só do ângulo da relação professor/aluno, e numa abordagem mais ampla pode-se entender a falência do todo social, dos "valores humanos" (lato sensu, não na perspectiva cristã da família). Apostar no "império da índole" pode ser um equívoco simplista muito mais romântico que o apelo à participação social. Eximir-se é a prerrogativa primeva do "idiota" (até a etimologia da palavra mostra isso!).A grande questão e o maior desafio do educador é perceber a linha tênue entre o alcance das suas idéias e a estratégia covarde do sistema educacional, que utiliza a fragilidade de sua estrutura para "carregar" o professor de uma responsabilidade que não deveria ser dele(as idéias contenmpladas em ambiente escolar modificam determinantemente o sujeito, claro que sim, todo projeto da Erzihung alemã foi fundamentada nessa premissa, o que não preveniu deformidades). Como professor, não me vejo como "repetidor de apostilas", acho que temos um papel formador que não cabe em paradigmas redutores, e não tomem isso por "arrogância". A menos que um sapato vendido ensine alguém a caminhar eu consigo ver diferencias inconciliáveis entre as profissões - eu disse DIFERENÇAS e elas nada têm a ver com IMPORTÂNCIA - afinal, uma fórmula, um texto, um esquema de reação química também não fazem bons vendedores, estes são mais talentosos nas estratégias persuasão que o professor mais dedicado. Enfim, concordo que nosso papel primordial é instruir, todavia também acho que a educação transforma moralmente. O que a gente precisa aprender é não retirar do receptor (o aluno) a responsabilidade em quaisquer dos processos evolvidos na educação; se ele não quiser, nada acontece bem. Vai vender sapato para quem quer comprar bananas e vê o que acontece!

Eliana said...

Curioso...

Achei tão óbvio que encontraria aqui inúmeros louvores ao seu texto que me assustei com o que li.
Creio que poucos conseguem ver que somos todos um pouco responsáveis por tudo o que acontece.

Curioso quem nunca teve um professor que fez muita diferença em sua vida...Esse talvez só lembre que ficou em recuperação por causa de um deles. Por culpa do professor, de preferência.

Curioso quem nunca saiu feliz de uma loja de sapatos depois que o vendedor se esmerou e encontrou exatamente o que se procurava...Esse talvez diga com tranquilidade que o único interesse em jogo foi o econômico.

Curioso quem acha que o bem é questão apenas de ações extremadas como a Madre Tereza de Calcutá. E que considere isso algo ridículo e vergonhoso. Porque fazer o bem dá vergonha.

É tão fácil jogar toda a culpa do mundo sobre uma única pessoa! Isso deixa todos automaticamente absolvidos, talvez de um modo que nem Cristo conseguiu fazer com que eles se sentissem.

Tenho um filho professor, que leciona porque teve em sua vida um professor. Claro que estamos falando aqui de uma espécie rara entre os que lecionam, os verdadeiros professores.

Longa vida ao mestre!

Eliana

Eugenio Raggi - BH said...

Reforçando o que eu disse:

- Cada vez me sinto mais e mais indignado com essa reiterada tentativa de se travestir o magistério de sacralidade. Como sou professor há 25 anos me sinto enojado com essa insistência sobre nossa "divindade vocacional", como se fôssemos "escolhidos" e tivéssemos uma missão mais digna do que a do ... vendedor de sapatos (desculpe, Sergio, mas o seu exemplo é um sofisma tão frágil e preconceituoso que não há como não lembrá-lo).

- Volto a repetir: Eu sou professor e não tenho missão transformadora alguma aqui na Terra com essa profissão que escolhi. É uma profissão muito digna, tão digna quanto a de um borracheiro, encanador ou manicura. Para mim não há diferença de qualidade entre as profissões humanas. Não me acho mais transformador do que ninguém só porque gosto de ensinar. Os que acreditam nessa tolice ou são ingênuos ou vaidosos ao extremo.

- Culpar a sociedade é um instrumento torpe e fascista de fragmentação de responsabilidades. CULPAR TODO MUNDO É A FOMRA MAIS SIMPLES DE NÃO SE ACHAR CULPADO ALGUM!!

Juliana Santos said...

Nossa eu achei que esse foi o texto mais singelo que eu já havia lido por aqui, mas acabou sendo um dos que mais provocou reações tão irritadas.

Hummm...o que será que reações tão raivosas por um tema tão simples quanto uma simples "culpa moral" podem nos levar a pensar?

Guilherme Paes said...

Em um mundo no qual as pessoas utilizam a compra como forma de prazer e alívio, os sapatos vendidos pelo sapateiro são muito mais do que só sapatos.
Em um país em que um dos problemas é a memória histórica, "ensinar o que é o marxismo" é muito mais do que só ensinar o que é o marxismo.
Concordo quando é dito que um sapateiro pode ter o mesmo potencial de transformação que um professor, mas isso não muda o fato de que um professor tem, de fato, poder de influência.

Não terceirizar a formação moral de seus filhos não quer dizer controlar TODA essa formação. Quer dizer, no máximo, que os país não abrem mão de cumprir seus papeis nessa construção (o que inclui entender que, em qualquer ambiente em que há diálogo com outros seres humanos, há influência ética e moral).

Quanto da culpa pelo crime é da família? quanto da culpa é da influência dos amigos, ou do momento? Quanto da culpa é dos sapateiros que o garoto encontrou na vida? Mais complicado ainda é: como nós, que talvez nunca conheçamos a fundo a história de vida do cara, vamos medir essas culpas?
Eu entendo que a intenção do Moraes não é tornar a culpa homogênea e diminuir sua intensidade, mas - já que não podemos entender de forma precisa como se deu a formação moral de seu ex-aluno - nos fazer questionar o quanto estamos envolvidos na construção de uma realidade que possibilita crimes como esse.

Quanto ao tom do texto, creio que não há nada de choroso, mas sim de perplexidade. É bom poder perceber que, quando temos aula, não estamos lidando com máquinas de reprodução de conteúdo;

Sérgio de Moraes Paulo said...

Eugênio,

a "sacralidade" no exercício do magistério é uma interpretação sua.

Quanto a ter 25 anos de magistério isso pouco me importa: conheço pessoas que fazem as mesmas coisas de forma moralmente discutível há mais de 40 anos. E não apenas na educação.


Quanto ao vendedor de sapatos o preconceito foi construído por você, não por mim.


Entendo que se vendesse sapatos olharia para a cara do cliente e teria como única preocupação a minha venda e um consumidor satisfeito.


Ocorre que na educação não há "trocas" como no caso de um sapato apertado...


Não tenho nada contra vendedores de sapatos. Mas julgo que sua função é atender ao consumo e não a formação de pessoas.


Se você não vê diferença nisso, lamento: pensamos diferente e fico imaginando o que você tenha feito nesses últimos 25 anos com tantos alunos. Ou vítimas.

Eugenio Raggi - BH said...

Sergio:

Vc diz:

"Ocorre que na educação não há "trocas" como no caso de um sapato apertado..."

Ocorre aqui o mesmo erro de sempre. Quer dizer que o erro de um professor é maior do que outros erros?
O que nos coloca na condição de superiores (médicos, doutores, bombeiros, ou um engenheiro que pode errar um cálculo e desmoronar um pre´dio, não é mesmo?)?

A compre de um sapato pode ser ou não ser a "formação" de uma pessoa. A minha aula ( e a sua também) podem ou não formar uma pessoa.

Eu espero que nenhuma das duas FORME ninguém. Espero que o comprador/aluno tenha por trás de si uma família sólida que lhe dê caráter, amor, hombridade, ética.

Coisa que eu JAMAIS espero fazer em 100 minutos semanais diluídos entre milhares de seus colegas.

Eu é que lamento se você tem a ingenuidade de se achar melhor ou mais missionário por isso.

Eugenio Raggi - BH said...

Então tá, Sergio,

A sua diferença para um vendedor de sapatos é que você forma pessoas e ele só quer saber de din-din. Seu trabalho é mais nobre porque as tuas notas de 100 reais vem com uma frase escrita ("Obrigada por criar consciência coletiva no meu filhinho Playboy") e as dele vem em forma de bônus-alimentação.

Ambas as atividades ( vender sapatos e ensinar) são relações humanas. Delas pode resultar ou não influências sobre quem comprou sapatos Democrata bicolores ou de quem aprende que o AI-2 foi promulgado em 1966.

Se você continua nessa pretensão "ba.ba.ca"(com o perdão da vulgaridade) de que vc é melhor do que o comerciante de sapatos a discussão se encerra.

Você ou é um ingênuo útil ou um narcisista convicto mesmo.

Aposto na segunda opção.

Sérgio de Moraes Paulo said...

Caro amigo Eugênio,

Babaca, narcisista, ingênuo, fascista...

Na boa: você consegue conversar com alguém sem usar adjetivos?


Tanta irritação por um textinho "choroso" e cheio de balela?


Sei não, acho que na conversa de vendedor de sapatos acabei por pisar no seu calo...


Desafio de professor para professor:

mande outro comentário sem rótulos ou adjetivos. Afinal, "25 anos de magistério" devem ter servido mais do que aprender a ofender o interlocutor com o tom de uma partida de truco...

Anonymous said...

Gostaria que o meu professor também escrevesse um texto sobre as pessoas que sofrem agressões.Dá a entender elas são as vilãs da história.

Sérgio de Moraes Paulo said...
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Anonymous said...

Moraes, não sei se cabe agora o comentário, mas andei lendo aqui no seu blog e também no do Nassif as reações de várias pessoas perante esse texto. Uma dessas reações me chamou à atenção, pois como fui seu aluno ano passado não pude deixar de notar. Comecei o cursinho em Osasco, com pretensões de fazer SanFran. Na primeira aula sua, numa sexta, lembro que citou Hobsbawn (a Era dos Extremos) e falou de relações de poder. As demais aulas foram passando e sempre melhorando. Lembro quando comentou da Guerra das Malvinas, da belíssima aula sobre o pré-sal... Tiveram sextas que eu ía apenas para ver suas palestras (como costumava comentar com o pessoal) e ter uma "lição de Moraes" haha. Digam o que quiserem, mas, o fato deu ter mudado de opinião e querer prestar Geo na Usp foi única e exclusivamente sua culpa. Comecei a ver com outros olhos a idéia de ser professor (mesmo sendo no Estado de SP...) e também de moldar/ajudar a moldar mentes melhores pro futuro. Aprendi a importância da Geografia, deixemos assim.
Enfim, muita coisa ainda não mudou de 2009 pra cá; mas uma coisa eu posso dizer: eu mudei. E é isso que tenho de fazer. Afinal, o ser humano transforma a natureza, certo? Se eu não o fizer, não estarei na condição de "animal racional"...

Abraços e saudações de um ex-aluno que te admira como mestre.

Sérgio de Moraes Paulo said...

Com um comentário desses quem é que não se torna narcista convicto?

Valeu, anônimo.

Seja lá quem você for...rs...

Eugenio Raggi - BH said...

Sergio,

Foram raras as vezes nesses 25 anos de magistério em que eu não tenha sido o paraninfo das turmas no final do ano.

Já me deparei diversas vezes com alunos que disseram ter saído de casa mesmo doentes apenas para me ouvir falar. Já perdi a conta dos estagiários de História que foram meus ex-alunos e que - obviamente - fizeram história por influência minha.

Eu póderia usar todas estas informações para inflar o meu ego e me achar a última Coca-Cola do deserto. Mas não sou nada disso. Essa pretensão de transformar pessoas é que transforma a educação nessa farsa que é. Esse viés missionário é uma mentira usada como forma de reconfortar os péssimos salário e as terríveis condições de trabalho. Uma muleta que parece nos ajudar a caminhar mas nos entreva a cada ano que se passa pois coloca sobre nossas costas o peso injusto da culpa.

Repilo de maneira veemente a forma com a qual você argumenta favoravelmente a isso. Faço dessa convicção ( de que não temos missão especial nenhuma nesse planeta) minha bandeira de vida. Há anos combato essa egolatria dos que lecionam, a farsa do "educar para transformar", da "escola cidadã", blá-blá-blá....

Influenciar - como no caso dos alunos que fizeram História ou votaram em Dilma por conta daquilo que se construiu como conhento durante as minhas aulas - é muito diferente de formar caráter, moral e ética.

Um dia você entenderá isso.

PS - Quanto à questão palestina, que me incomodou muito no seu texto, eu tenho a dizer que eu ( um oriundi de família ítalo-judaica) continuarei sempre destruindo a reputação dos terroristas de Israel. Nessa guerra existe sim o oprimido e o opressor. Manter a neutralidade aqui é se omitir diante de crimes gravíssimos contra a humanidade praticados por Israel há mais de 5 décadas. Mas isso (voto, posicionamento político) é apenas influência, jamais formação de caráter.

Sérgio de Moraes Paulo said...

Amigo Paraninfo,


você é novo por aqui e não conhece minhas opiniões sobre o que os israelenses fazem contra os palestinos.

Suas conclusões sobre esse tema foram feitas com base numa única frase que escrevi:

"Sempre busco deixar claro que israelenses e palestinos cometem excessos e erros".


Desistir de procurar um lado certo e outro errado não é o mesmo que igualar as duas posições, mas procurar um ponto de equilíbrio no qual a convivência seja pacífica.


Não sei de onde veio tanta raiva, mas parece que você se esforçou por tomar as frases no seu sentido literal.


Esqueça suas aulas de história, pois quando escrevo eu esqueço minhas aula de geografia.

Aproxime-se da literatura. Lembre-se que há recursos linguisticos para dizer algo além do que se escreve ou se diz.

Tomar o que escrevo como tese é um grande erro.


Não sei se notou, mas o nome desse bog é "opalpiteiro"...


Pense um pouquinho a respeito antes de julgar quem por vezes pensa diferente de você.

E aprenda que divergir não é o mesmo que desqualificar o outro.


Fui choroso? Talvez. Fui emotivo? Sim.

Agradeço a Deus por não lhe encontrar na Av. Paulista com uma lâmpada na mão. Talvez você me agredisse...rs...

Anonymous said...

Professor, relaxa que o teu texto tá fera e você tocou todos aqueles que têm coração. Haha, ok - mals ae frustradinhos e revoltadinhos que não conseguem enxergar as diversas significações de um texto, e que se apegam ao absoluto concreto para criticar e maldizer.
P.S.: usei esta linguagem de propósito.
P.S. 2: Eugenio, ele também é paraninfo... logo no primeiro ano que está em nossa escola e nem se acha, perto do que poderia (ao contrário de você). (:
Beijinhos para todos os revoltadinhos e saudações Moraes!

Eugenio Raggi - BH said...

Amigo Sergio,

Sinto que estamos do mesmo lado.

Acho que - apesar dos excesso que cometi - tenha contribuído com o que penso.

Não acredito na vocação missionária e transformadora do professor. Foi somente isso que eu quis dizer.

No fundo, penso que estamos do mesmo lado e com a nítida sensação que nos daríamos muito bem se trabalhássemos juntos.

Abração do Eugenio!!

Anonymous said...

Alguém aí saberia me dizer a marca da lâmpada?...rs...

Sérgio, te admiro muito mesmo, sem nem mesmo ter sido um aluno seu, tenho certeza que gostaria de sê-lo.
Quando à toda essa polêmica do texto, a única coisa que gostaria muito de tentar entender é como que, as pessoas gostam mais de atacarem às outras, ao invés de, tentar encontrar por mínimo que seja, um lado bom, fazer um elogio ou até mesmo uma crítica, porém essa última, com o único objetivo de tentar somente ajudar e não apenas atacar como de costume.
Gostei do texto, acreditei que se trata muito de uma particularidade sua e nenhum profissional, sendo ou não, da área que atua tem o direito de atacar você por isso.
Se cada um tentasse ao menos ajudar ao próximo, sendo ou não seu filho, aluno, empregado ou até mesmo um professor de história, o mundo com certeza poderia não ser melhor, mas sim, muito mais educado.

Parabéns à todos que respeitam e se preocupam com seus semelhantes.

E àqueles que somente atacam dizendo que se trata de cristianismo, marxismo, facismo ou qualquer outro qualquer adjetivo que seja...

... boa sorte à vocês!

A vida sempre continua e ensina muito mais que qualquer professor, pais, mães ou qualquer outro profissional.

Tudo isso me faz entender o Palpiteiro como um amigo somente por algumas poucas frases que são de autoria próprio e que em um momento difícil nos ajudaram a enfrentar uma fase difícil, não como aluno/professor, mas sim como amigos e nada mais.

Era Fev.2010...

..."Meu amigo gostava de coisas simples."

"Meu amigo adorava crianças e o Raul Seixas..."

"Um amigo de verdade a gente não percebe por uma única atitude ou acontecimento. Descobrimos o amigo pela sucessão de experiências nas quais temos a gradativa certeza da boa companhia."

Essas atitudes sim nos fazem ter esperança do mundo em onde vivemos se tornar um pouco mais descente!

Abraço Sérgião! Não mude !

Anonymous said...

Professor, pode ter certeza que você educa e transforma as pessoas.
Lembro com muito saudosismo a admiração que eu, meus colegas e amigos, tanto os mais, quanto os menos estudiosos, nutríamos por você, pelo conhecimento que você nos passava em 50 ou 100 minutos semanais, muitas vezes até naqueles cinco nos intervalos. Ainda acho que três anos de ensino médio foram pouco para todos os ensinamentos que levamos para o resto da vida.Palestras é um termo muito adequado para definir uma aula sua, como bem escreveu um colega mais acima. Costumava dizer, e ainda digo, que mais do que um professor, você é um amigo. Uma pessoa que se pode acreditar nos valores.
Esteja certo que você mudou muitas vidas para o bem com o seus ensinamentos, o que acontece é que, infelizmente, algumas pessoas passam por cima de seus ideais para serem aceitas por "grupinhos" e esquecem do grupo em que vivem, a sociedade. Infelizmente, também, não podemos interferir no livre árbitrio delas antes do pior. Só podemos penalizar depois e esperar que isso as corrija, pena que muitas vezes no nosso país isso contribua para piora-la.
Grande abraço!

Anonymous said...

A discussão aqui virou uma batalha de egos envolvendo o que significa ser professor, e isso parece que saiu totalmente do escopo do texto original. Acabei de ler um "Eu sou paraninfo, eu sou bom, os alunos me amam, estudantes se convertem às humanidades graças a mim...". Que discussão mais despropositada.
Eu ainda preferi ler opiniões do tipo "gostei do texto" ou "isso tudo aí é balela", que ver a discussão transcorrer para o ad hominem (EGO HOMINIS!). Mais uma vez, dá para entender bem em que ambiente SOCIAL as pessoas que pensam que o mundo gira ao redor delas (o que inclui os agressores da FEBEM) foram criadas: gente que briga egocentricamente, dizendo que não é egocêntrica.
Quero elogiar opalpiteiro pelo texto, apesar de eu discordar COMPLETAMENTE dele, veementemente dele. Mas é opinião, e válida, porque mostra um lado da controvérsia que inclui analisar de quem é a CULPA por esse tipo de aberração que vimos estes dias aí.
Ainda estou tentando ver o resultado prático desta mea culpa do professor palpiteiro, mas é assim a vida: uns mais práticos, outros menos. Tem gente trancada em convento uma vida (ainda) orando pelas almas dos outros. Vá saber se não estão certas...

Anonymous said...

"É bom poder perceber que, quando temos aula, não estamos lidando com máquinas de reprodução de conteúdo"

Isso resumiu tudo. Não só eu, mas muitos alunos cursinho/colégio agradeceram suas brilhantes aulas. Parabéns.

Anonymous said...

O comportamento do jovem deve ser reprimido, mas isso não significa que a culpa seja inteira dele. Apesar do tamanho e do excesso de informação, os adolescentes de hoje são exatamente como sempre foram: impulsivos, belos, inconsequentes, alegres, ingênuos. O que mudou, a meu ver, é a postura da escola. Essa, na qual estudava o jovem, simplesmente não cuida de seus alunos. Não sabe seus nomes, suas dificuldades, seus anseios. Essa escola, em especial, não vê que são seus alunos, que estão sob sua responsabilidade, que passam o dia sentados na escada, na pracinha próxima à escola ou caminhando sem destino pela Avenida. Escola privada é boa e o país precisa dela. Mas os mantenedores deveriam assumir o compromisso de educar seus alunos, o que não foi feito com o trio de agressores. Todos alunos ou ex-alunos dessa escola, que aliás, não foi sequer mencionada em nenhum grande veículo de comunicação. Características da "sociedade hipócrita"... Saudações cordiais.