Tuesday, December 12, 2006

As lições do Chile

O Condor é uma ave andina, cujos hábitos o aproximam muito mais dos abutres, bicho carniceiro. Por motivos mórbidos o nome dessa ave foi escolhido para uma ação conjunta das ditaduras do Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai contra presos políticos, apoiada pelo governo dos EUA, através da CIA. Em 1964 o Brasil iniciou sua ditadura. Para fugir de perseguições políticas muitas pessoas se refugiaram no Chile. Lá havia argentinos, uruguaios e paraguaios, além de simpatizantes de outras nacionalidades que apoiavam o governo socialista de Salvador Allende. As fronteiras da América do Sul pareciam então permeáveis. Uma ditadura apertava de um lado e refugiados se escondiam em outro, sempre com a solidariedade de colegas de militância esquerdista. No Chile a situação era peculiar. Um governo socialista tinha sido democraticamente eleito e tentava fazer mudanças estruturais. A sociedade chilena foi então dividida entre os que desejavam as mudanças e os que as negavam. A divisão foi acentuada pelos dois lados. Eram tempos de Guerra Fria e não havia muita margem de negociação: ou se estava de um lado, ou de outro. Houve provocações mútuas. Mas os EUA já estavam decididos há muito tempo. Como no Brasil, um golpe militar foi apoiado e um General assumiu a presidência. Para evitar o trânsito de militantes esquerdistas é que foi criada a Operação Condor.

Maria Regina Marcondes Pinto, esposa do sociólogo Emir Sader foi uma brasileira que por suas ligações com a esquerda chilena foi seqüestrada pela polícia de Pinochet, na Argentina. Um casal de argentinos foi assassinado no Uruguai, diante de seus filhos, uma menina e um menino. As crianças foram levadas até o Chile, onde foram abandonadas. Essa história é contada no livro Clamor, de Samarone Lima. Esse palpiteiro não tem vergonha de dizer que foi o único livro que o fez chorar. E por histórias desse tipo é que seria injusto colocar toda a carga de culpa em Pinochet. Como no nazismo de Hitler ou na União Soviética de Stalin, o ditador comanda, mas nunca age sozinho. Assassinos de escritório. Às vezes nem ordenam um assassinato. Apenas acenam positivamente para algozes de plantão que se afirmam eliminando inimigos do regime imposto.

Pinochet morreu no dia 10 de dezembro de 2006, aos noventa e um anos. Algumas pessoas ficaram tristes e muitas demonstraram uma curiosa felicidade. Esse palpiteiro sorriu. Sua morte teve repercussão internacional, pois Pinochet foi muito mais do que um ditador chileno. Em 1998, um juiz espanhol teve a coragem de pedir sua prisão quando estava na Inglaterra para tratamento médico. Acusação: crimes contra a humanidade. A morte de cidadãos espanhóis no Chile e as leis da União Européia facilitaram a prisão do ditador. Mas Pinochet tinha amigos. Margareth Tatcher o ajudou. A Inglaterra dificultou o quanto pode e por razões humanitárias o devolveu ao Chile. O país é que se virasse com a mala sem alça e assassina. O Chile foi colocado numa situação incômoda: não entregar Pinochet significaria perdoar seus atos. Entregá-lo seria pior, pois significaria que o Chile não era capaz de julgar um criminoso daquela natureza. O Chile preferiu o caminho mais difícil, não entregá-lo e julgá-lo em seu próprio território, com suas próprias leis. Descobriram-se então mais coisas. Além de ditador e assassino de gabinete, Pinochet era corrupto. O homem foi julgado e teve prisão domiciliar. O antes todo poderoso não podia sair de casa sem autorização judicial.

Por tudo o que fez e representou, a prisão domiciliar foi uma grande vitória e não apenas os chilenos ganharam. Henry Kissinger, por exemplo, foi o norte-americano que idealizou muitas coisas na Guerra Fria, inclusive a Operação Condor. É respeitadíssimo no mundo e nos EUA. Mas não pode ir a qualquer lugar. FHC, quando presidente da República, cogitou condecorar Kissinger em São Paulo. Pegou mal. Serra, preso pela polícia chilena em 1973, foi um dos que se incomodaram. Mas a coisa desandou quando alguém lembrou que algum jovem do Ministério Público poderia querer ganhar fama prendendo Kissinger por crimes contra a humanidade. Pelo desconforto causado e riscos no horizonte, Kissinger não veio ao Brasil e não ganhou nada. Histórias como essas se tornaram mais comuns. Poderosos algozes temem algum tipo de punição em países que cogitam visitar. Mas a grande lição mesmo foi o dia de hoje. Pinochet está morto e seu corpo velado. Apesar de manifestações de alegria, tem o direito de ser reverenciado também. Quem quiser chorar que chore. Os que comemoram tem ao menos um alento: provar que são muito melhores que Pinochet e que o Chile hoje respeita os direitos humanos, inclusive do homem que mais os desrespeitaram no país. Cremar Pinochet com respeito é talvez a maior lição de humanidade que o Chile possa demonstrar a todo o mundo civilizado.

2 comments:

Anonymous said...

"FHC, quando presidente da República, cogitou condecorar Kissinger em São Paulo. Pegou mal. Serra, preso pela polícia chilena em 1973, foi um dos que se incomodaram."

O que voce esperava do filho de general que se exilou em Paris e que mesmo como "perseguido político" conseguia dar aulas no Chile?

Eu não engulo esse Don-Doca.

Pinoche já vai tarde e, há julgar pelos atos a ele atribuído, por certo será cremado duas vezes.

Uma já foi. Agora é esperar que tenha sobrado algum petróleo lá na terra do tinhoso.

Com dor ou sem dor, morrio el condor.

Abs.

Rasca

Filipe said...

muuuito bom!!!!