Monday, November 20, 2006

CONSCIÊNCIA NEGRA

Hoje é feriado na cidade de São Paulo, dia da consciência negra. Esse palpiteiro ouviu almas brancas de diferentes origens e semelhantes mediocridades manifestarem certa indignação, pois achavam injusto não poderem usar camisetas como "100% branco" ou que não tivessem um dia do branco. Para omitir o próprio racismo, esse palpiteiro percebeu que a tática é apontar o racismo no negro. O palpiterio em questão não é negro e nem branco, clasificando-se como "outros" segundo a metodologia do IBGE. Mas o palpiteiro leu um livro que recomenda, chamado "Longo caminho para a liberdade", escrito por um tal Nelson Mandela.
Mandela foi dos poucos alfabetizados em seu povo no sul da África do Sul, os Xhosa. Era campeão de boxe amador na categoria peso-pesado, bom orador e tinha cursado Direito quando foi morar em Jhoanesburgo. Não deu muito certo tratar um negão inteligente pra caramba, com mais de 1,80m e mais de 90 kg como inferior. Mandela foi obrigado a morar em SouthWesternTownship, SOWETO, um dos maiores centros de resistência ao regime racista do Apartheid. Partiu para a guerrilha e foi mais tarde preso e condenado a prisão perpétua como inimigo do povo. Ficou 27,5 anos preso. Na cadeia escreveu o livro que credenciou o palpitieiro a opinar sobre o dia de hoje. Entre tantas histórias, Mandela revela que o racismo não é inato. Não somos racistas por natureza, aprendemos a sê-lo. Esse ensinamento jamais foi esquecido.
Certa vez, o palpiteiro estava num Shoping metido a besta em SP. Era época de Natal e crianças pobres e mal vestidas entraram para brincar perto do papai Noel, o velho batuta. A filha do palpiteiro tinha pouco mais de 3 anos e brincou com as outras crianças, sem diferenciá-las pelas roupas ou pela cor da pele. As crianças são capazes disso. O palpiteiro estava emocinado, pois naquele instante entendeu Mandela. Por pouco tempo.
Os pais das outras crianças estavam indignados com a presença dos meninos pobres, mulatos e negros em sua maioria. Alguns tiraram seus filhos, ensinando-os a não se aproximarem daquela gente. Outros procuravam a segurança. O palpiteiro acredita que as crianças brancas daquele Shoping aprenderam uma lição ensinada há alguns séculos no Brasil.
Mandela disse que se aprendemos a ser racistas, podemos também aprender a não ser. Se entendermos a importância do dia de hoje, sem a medíocre reação às manifestações dos militantes negros, teremos um primeiro passo para um longo aprendizado. Assumir o problema é um avanço. Milton Santos, ilustre brasileiro e também genial como Mandela, disse que no Brasil não é feio ser racista, mas sim dizer que se é. Quem sabe hoje algumas almas brancas não repensem seus valores e rótulos?

5 comments:

Anonymous said...

Exatamente!

Racismo é algo inato e ocorre principalmente onde a distância que separa brancos e negros é o balcão, a caixa de sapato, a flanela, a caixa de sorvete, a bandeja,etc.

Deste mal eu não padeço e agradeço por ter vivido toda minha infância em Pirituba, onde não apenas negros, mas principalmente índios, era em grande número.

Social e fraternal abraço.

Rasca

Anonymous said...

Ola moraes...
otimo texto..pena q essas almas brancas num deve ter lido

mto boa a ideia do sue blog
visitarei sempre.

isabela

Denise said...

Sabe, Moraes... sem duvida a gente aprende a ser preconceituoso, aprende que se nao travar a porta do carro o menininho de rua vai te assaltar, que o negro é descendente de escravos e por isso nao merece bons empregos, que o gay vai te paquerar ou entao mandar beijo pro seu namorado...
A sociedade ensina tudo isso pra gente. A família também.
Acho lindo que vc não passe isso pra sua filha, mas eu não tive a mesma sorte que ela.
E por ter tido um avô que proibiu que minha tia casasse com um negro, e um pai que tem a mesma mentalidade que ele, não acredito que o Dia da Consciência Negra seja justo. Não que eles não mereçam, mas sempre achei que o que existe para um, deve existir para todos e, ultimamente, através de cotas em universidades e leis que proibem o uso de "neguinho" e outros termos do tipo, isso não tem acontecido.
O branco é privilegiado na nossa sociedade, mas manifestações como a que vc mesmo citou (100% Branco) são repudiadas por todos. E se os negros podem ter orgulho de ser negros, pq os brancos nao podem?
A sociedade nao vai mudar por conta das medidas adotadas para integrar o negro. Pra mim, elas só geram mais diferenças entre as pessoas.
O problema foi no começo de tudo. Se tivessem pensado em inclusão do negro na sociedade qdo a escravidão foi abolida, a situação hoje seria diferente.
Infelizmente, não da pra voltar o tempo. Entao, a gente tem q tentar passar pros nossos filhos q nascemos da mesma forma, e acabaremos embaixo da terra, seja qual for a cor, seja qual for a classe social. Essa sim, é a unica forma de lutar contra o preconceito.
Parabens! Vc faz a sua parte.
=]

Iguti said...

Excelente texto, Sergião!
Ótima iniciativa, não pare de "palpitar".

Leonardo said...

Muito bom o texto, Moraes!! E a frase do Milton Santos é totalmente verdadeira, infelizmente...
Um amigo meu, que infelizmente é racista, falando do questionário do ENEM, disse que não se colocou como racista, mas que já presenciou casos de racismo, e disse que ninguém assumiria ser racista... é bem isso, as pessoas tem mais vergonha de se assumirem racistas que de praticarem atos ou fazerem comentários racistas.
Falando nisso de racismo, e aproveitando a deixa de um comentário aí em cima, o que você acha das cotas??
Abraços!