Saturday, September 11, 2010

Algumas lições do 11 de Setembro

Se tem alguma coisa que o 11 de setembro ensinou foi o impacto da sociedade da informação na vida contemporânea.


O palpiteiro estava numa sala de aula quando um aluno disse o que havia ocorrido naquela terça-feira. Arrogante, não acreditou na história e ordenou que prestasse atenção na aula. O palpiteiro estava errado e aprendeu que o professor já não era o senhor da verdade há muito tempo. Nunca tinha sido.


Os atentados foram meticulosamente planejados para causar o medo coletivo nos EUA e na Europa. Bin Laden sabia como funcionava a era da informação. Derrubar as torres gêmeas seria um ato mais do que violento. Seria e foi espetacular. Um espetáculo de horror.

Os EUA tinham um presidente com baixa popularidade e uma economia estagnada. Bush agarrou a oportunidade que lhe deram e encarou o papel de defensor do "mundo livre contra o terrorismo".


O mundo aprendeu que às vezes os inimigos se completam e desenvolvem uma necessidade mútua de existência. Bush precisava da figura de Bin Laden para justificar ações violentas e elevados gastos militares. Bin Laden precisava da violência de Bush para ter mais apoio de militantes terroristas. Aos dois nunca interessou a destruição do adversário. Foram atores de um teatro que teve a CNN, a Reuters e a Fox News como palco. E uma parte da imprensa mundial e brasileira como repetidoras inconsequentes.

Os atentados ensinaram que um presidente pode se aproveitar de uma tragédia para defender um governo imoral e uma postura militarista. Abafar problemas internos e manter a ordem social num país que vê seus impostos torrados com armas e gente desamparada com a tragédia do Katrina.


Bush usou o medo coletivo nos EUA para convencer seu povo e o Congresso a aprovar uma guerra estúpida no Iraque. Um senador chamado Barack Obama ensinou que ser uma voz contrária no momento em que a histeria coletiva leva um país a caminhar sob a ordem de um cego é um acerto. Obama votou contra a guerra do Iraque. Ou melhor, no Iraque. E deu a cara a tapa. Foi um político corajoso ao dizer publicamente e com destaque que aquela guerra era um erro.

Nas eleições de 2008 Obama se lançou candidato com a autoridade moral de quem tinha apontado o erro da guerra no Iraque. Mostrou-se um líder. O mundo aprendeu que manter a coerência de suas ideias mesmo quando todos se colocam contra elas pode ser um grande acerto.

Os atentados de 11 de setembro tem sido sistematicamente explorados pela mídia sensacionalista. Há poucos minutos o Jornal Nacional mostrou a reportagem de sempre. Uma cerimônia com gente emocionada e declarações do presidente dos EUA. Nada sobre a história. Absolutamente nada sobre a parceria entre a CIA e Bin Laden contra os russos no Afeganistão entre 1979 e 1988. Nada sobre as consequências dos atentados para a população pobre do Afeganistão e do Iraque.

A "grande" imprensa aprendeu que a melhor maneira de manipular a opinião pública -seja lá o que for isso- é ignorar a história. Fale muito sobre o presente. Dê detalhes sobre os atentados. Diferentes tomadas dos aviões que se chocaram no WTC. Cenas de familares tristes e bombeiros heróicos. Mas nunca fale sobre o que é o Departamento de Estado dos EUA e uma tal de CIA...

A "grande" imprensa só não aprendeu que um punhado de pessoas tem uma necessidade de informação maior do que a mísera ração diária de conteúdo que ela oferece. Mas se a "grande" imprensa não aprendeu, as pessoas aprenderam. A internet se tornou uma fonte importante de informação para quem quer algo além do que a mídia oferece. A "grande" imprensa vende o fast-food da notícia. Peça pelo número e tenha as mesmas notícias combinadas. Dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial especial, cebola e picles num pão com gergelim... Nem todos querem lanches prontos. Ainda há pessoas que preferem o restaurante simples, a com comida tradicional e uma boa conversa com o cozinheiro. O filé não deve ser igual para todo mundo. Há quem se contente com o prato-feito. Há quem prefira o restaurante a quilo.

As lições do 11 de setembro foram muitas. O questionamento sobre o que realmente é a "era da informação" talvez seja a maior delas. Uma lição que ainda não foi totalmente aprendida.

3 comments:

Bruna said...

Olá Professor, como vai?^^

Há alguns anos mencionei um curta chamado "Um Outro Modo de Ver as Coisas", baseado num texto escrito após o 11/09.

Recentemente, encontrei este curta no youtube, e hoje lembrei q nunca pude mostrá-lo p/ vc. Resumindo, vim pedir um palpite ao palpiteiro^^.

Um Outro Modo de Ver as Coisas
(O filme está dividido em 3 partes)

Um forte abraço,
Bruna

Marcus said...

Assisti, depois de 9 anos, o documentário 102 minutos que mudaram o mundo, no My History. Chocante. Nunca havia parado para ver a expressão facil das pessoas diante do que parecia o caos.
Recomendo. São gravações reais feitas sejam a uma grande distância do ocorrido, seja a apenas um quarteirão.

Anonymous said...

Moraes,

Estava conversando com uns amigos sobre a sucateação do ensino público esses dias e ouvi falar de um tal de "Acordo MEC-USAID", que foi implantando em 1968. Você poderia palpitar algo sobre?