Friday, January 23, 2009

A Rota dos Ratos (Ratlines)

Em tempos de acusação de anti-semitismo para aqueles que criticam atualmente as atitudes militares de Israel, não custa lembrar de uma historinha para lá de interessante.
A Rota dos Ratos ou Ratlines foi o nome dado ao esquema internacional que permitiu a fuga de milhares de nazistas acusados de crimes contra a humanidade. Não se sabe ao certo quantos nazistas delas se aproveitaram, mas o mais importante é saber que existiu e que ainda sabemos muito pouco dos detalhes que envergonhariam muitas pessoas e instituições.
Após a rendição alemã, os aliados (EUA, França, Reino Unido e URSS) decidiram julgar aqueles que colaboraram com os abusos que resultaram na morte de milhões de pessoas. Mesmo antes desse fato muitos nazistas sabiam que seriam julgados e condenados. Antes mesmo da rendição alemã, muitos já haviam fugido. "Os ratos são os primeiros a abandonar o navio", ensina o ditado que acabou por dar nome ao esquema de fuga.
Em primeiro lugar teriam melhores condições de fuga aqueles que possuíssem recursos valiosos para serem negociados. Diamantes e ouro, por exemplo, tomados dos judeus e demais povos oprimidos pela Alemanha Nazista. Assim, os maiores usuários da Rota dos Ratos foram oficiais de maior patente, justamente os que tiveram maior acesso a bens e formas de corrupção durante a guerra. Não por acaso, alguns dos maiores criminosos e assassinos.
O primeiro passo era se desfazer de documentos e demais formas de identificação. Coronéis e Capitães se fizeram passar por soldados rasos. Em seguida arrumaram algum jeito de chegar até a Itália. Os meios foram variados e sempre clandestinos. Trens e caminhões de carga. Os mais bem relacionados já saíam com documentos falsos, mas foram raros.
Na rede de relações desses criminosos aparecia a Máfia italiana. Perseguidos pelos fascistas de Mussolini, muitos mafiosos colaboraram com a CIA, facilitando a entrada das tropas americanas no Sul da Itália. O fato de Michael Corleone ser um soldado americano em O Poderoso Chefão I não é mera coincidência...
Mas além da Máfia, muitos nazistas tiveram uma ajuda acima de suspeitas: padres e bispos católicos. O Bispo Católico Alois Hudal foi o mais conhecidos desses.
O esquema era relativamente simples. O Bispo emitia um documento com um nome falso para o fugitivo. Não chegava a ser um passaporte, mas era um documento reconhecido pela Cruz Vermelha. O fugitivo com nome falso pedia através da Cruz Vermelha um visto de entrada para algum país fora da Europa, em especial a América do Sul. Teoricamente a Cruz Vermelha deveria conferir a veracidade das informações, mas o respeito pela Igreja Católica servia como atestado.
Muitos nazistas vieram para a Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. Na região havia muitas comunidades com descendentes de alemães que os abrigavam. Ofereciam ajuda por dinheiro, solidariedade diante de um alemão que pouco sabiam de seus atos ou ainda mesmo por convicção. Simpatia pelo nazismo também.
Em São Paulo, grandes criminosos nazistas desembarcaram usando a rota dos Ratos. Josef Mengele chegou a Argentina primeiro, com proteção do governo peronista. Procurado, ficou algum tempo no Paraguai, sob a omissão da ditadura de Stroessner. Perseguido, entrou no Brasil. Viveu um bom tempo no município de Caieiras, próxima a duas grandes indústrias Melhoramentos e Voith, com muitos funcionários alemães. Ao que parece, Mengele teve a generosidade de alemães simpáticos ao Nazismo em SP.
Franz Stangl foi responsável pela morte de 900.000 pessoas no campo de Treblinka, na Polônia. Trabalhou como supervisor de fábrica na VolksWagen até 1967. Foi descoberto e extraditado para a Alemanha, onde morreu após ser julgado e preso.
Gustav Franz Wagner viveu em Atibaia, interior de SP e, assim como Franz Stangl, usava seu nome verdadeiro. Chegou a ser descoberto e denunciado internacionalmente. Mas não foi extraditado. Acabou se matando algum tempo depois.
Com a morte desses nazistas, muitos dos segredos da Rota dos Ratos foram enterrados.
Mas até que ponto autoridades brasileiras da época coloboraram?
As autoridades brasileiras foram omissas por incompetência ou simpatia?
Quando o Vaticano vai abrir seus arquivos e reconhecer que alguns de seus sacerdotes ajudaram Nazistas criminosos de guerra?
E os alemães e descendentes que ajudaram esses nazistas no Brasil? Quem será que eles apoiam nas eleições?...

2 comments:

Edu said...

Post muito bom!

guilherme said...

É...
Não ensinam isso no colégio...