Monday, December 04, 2006

O jeitinho absurdo

O JEITINHO ABSURDO

Há uma lenda no país do absurdo que diz que para tudo se dá um jeito. Ou melhor, para tudo há de se dar um jeitinho... Não se sabe quem foi o primeiro a notar a corruptela do jeito para o jeitinho. Pois jeito não é o mesmo que jeitinho.Se ao primeiro se dá a conotação de improviso, ao segundo o sentido é ético. De todo modo, o que se sabe é que dar um jeitinho envolve muito mais do que simplesmente dar um jeito. O jeitinho no país do absurdo é dado no diminutivo por que é tido como algo maroto e digno de orgulho. Muitas vezes soa mais como o filho caçula, menino temporão que veio somente a finalizar todo o processo de formação do país.
A matança de nativos para a tomada de suas terras, a imposição de uma religião, a escravidão negra, o descaso com o meio natural, as grandes desigualdades, enfim, tudo o que fora necessário para a constituição do país do absurdo não seria suficiente se não fosse o famigerado jeitinho. A lógica funcional do jeitinho não pode ser aprendida teoricamente. Requer acima de tudo prática. O jeitinho é vivido. Pois é certo que o que num momento seja passível de um jeitinho, noutro pode suscitar grande revolta e indignação. A lógica do jeitinho não está necessariamente na sua execução, mas acima de tudo em seus executores. O exercício do jeitinho torna-se soberano quando acompanhado da pergunta “ sabe com quem está falando?” . A pergunta mais afirma do que questiona, pois traz implícita a posição na hierarquia social de quem a fez. O jeitinho, quando acompanhado da pergunta, é soberano e forte em sua imunidade legal.
Para um país tão grande e com tamanhos ABSURDOS, o jeitinho não pode ser considerado de maneira uniforme. Por isso resolvemos dar um jeitinho na sua exemplificação. Lembramos que há uma infinita combinação de situações em que sempre caberá o jeitinho.
Vejamos então um exemplo:

O JEITINHO NOSSO DE CADA DIA: Dada uma fila qualquer com mais de vinte pessoas e uma espera de pelo menos trinta minutos entre o fim da fila e o atendimento, o jeitinho logo aparece. Alguém encontra um conhecido numa posição privilegiada da fila. Inicia-se uma conversa informal, geralmente animada e cheia de intimidade. O papo evolui a ponto de não mais ser percebido pelos demais da fila, preocupados com a demora no atendimento. A fila se movimenta, os amigos vão ao atendimento juntos. São atendidos. Saem felizes, um por ter dado um jeitinho de furar a fila. O outro por ter concedido a facilidade que será então cobrada em outra situação semelhante. Ninguém reclama na fila porque há um código de ética no jeitinho. Não se deve reclamar do indivíduo que furou a fila. Reclama-se da ausência de um amigo na frente dele. Lamenta-se a falta de sorte e, com fé, alimenta-se a esperança de que um dia se encontrará um amigo numa fila ainda maior. Nesse dia, toda a falta de sorte será expiada.
O país do ABSURDO tem dado um jeitinho em tudo há muito tempo. Talvez um dia possa ser esgotado. Talvez um dia o jeitinho possa não ser mais viável. Sei não, acho que esse dia já está ficando cada vez mais próximo. De todo modo, o jeitinho tem a chance de saber que aqui não há nada que comprove essa tese, consituindo antes de tudo mais um palpite...
Obs.: esse palpiteiro tem constado as limitações do jeitinho com o Windows.



3 comments:

Vania Carolina said...

Uau! Ei parabéns pelo blog.
Gostei muito de todos os comentários, críticas e indicações aliás foi uma bela indicação do Paulo.
Parabéns!
Bjos!

Rafael Seferian said...

O jeitinho só deve funcionar no espaço físico, ou, ainda não descobriram um jeitinho virtual!
mas logo logo, tampouco o espaço virtual chege à grande maioria do espaço físico do país, ele envolverá o Windows, Office e outros softwears da nossa kerida Microsoft!

abrazzz

Anonymous said...

Muito bom!

Eu acresceria a "jeitinho", já que você tocou em expiar - e cada um sangre o seu próprio bóde - um outro sinônimo: pecadinho.

Um mal menor,sem muita importância, que sara até mesmo com o sangue de uma rolinha parda, suja e descabaçada.

Afinal, como bem lembra uma música que se encaixa muio bem no contexto - geógrafo; pecado; expiar e palpitar: "não existe pecado do lado de baixo do equador."

A todo vapor!

Abraços.

ps - Dia 06 a 10 estou em Paristuba, vamos mandar aquela cerveja gelada bucho a dentro e comemorar a derrota da direita e da mídia podre, afinal: o Yom Kipur passou e eu não sangrei coisa alguma; o ramadan já acabou faz tempo e eu comi e bebi de tudo e sem parar, a quaresma vem só em março e eu, como bom cristão, claro que não vou deixar de beber, pois isso representaria retirar o pão dos irmãos que vivem a base de cevada e outros maltes e fermentados.

Abs.

Rasca.