Friday, November 24, 2006

Falando da vida alheia: Nelson Massini

Quem é Nelson Massini? Caso alguém queira saber sobre esse brasileiro, poderá acessar o google e digitar o nome dele entre aspas. Recomendo a ficha do cabra no lattes. Verá um currículo impresisonante. Massini é formado em odontologia pela Unicamp. Ficou reconhecido por sua participação no caso Mengele, em 1986. Para quem não lembra, Mengele foi um dos carrascos nazistas mais procurados pelo Mossad, serviço secreto de Israel -um dos melhores do mundo. Mengele fazia experiências genéticas em seres humanos no Campo de Auschiwitz, durante a II Guerra Mundial. Chegou a injetar tinta colorida nos olhos das pessoas para ver se poderia forjar a "raça ariana". Adorava fazer experiência em gêmeos. Crianças. Ao que consta, refugiou-se na Argentina após a guerra. Ouvi dizer que foi veterinário dos cavalos de Perón... Quando o Mossad estava quase a pegá-lo, entrou no Brasil, sabe-se lá com a ajuda de quem. Foi meu vizinho aqui em SP. Morava em Caieiras. Morreu afogado em Bertioga e foi enterrado em Embu. O corpo, pois a alma deve estar a queimar no inferno, em bom caldeirão, a 300 graus no óleo de dendê...
O Mossad chegou até seu túmulo em 1986. Ficou na dúvida se era mesmo o maldito. Romeu Tuma era chefe da Polícia Federal em SP, na época da transição democrática. Ficou assim: Tuma entrava com a fama, liberava a exumação do corpo e o Mossad teria o que queria: a certeza do caso Mengele. Tuma até hoje se orgulha dos prêmios que recebeu por isso. Tudo porque sabe assinar papéis...
Mengele era dado como morto com outro nome. Motivo: afogamento. Contudo, a caveira do esqueleto exumado apresentava um orifício no maxilar, dando a impressão de ter sido morto com um tiro, numa posição para lá de estranha. Era mesmo Mengele? Quem poderia dizer?
O caso Mengele envoleveu muitas pessoas. Legistas de SP comprovaram que era mesmo o safado. Na Inglaterra fez-se o exame de DNA, um dos primeiros para uso em medicina legal no mundo. Mas tivemos também Massini.
Como odontologista conseguiu provar o seguinte: Mengele tinha um problema crônico num dente. Não podia ir ao dentista, pois o padrão de sua arcada dentária o denunciaria como alemão do tempo da II Guerra. Como médico resolveu se virar. Cutucava com uma agulha o dente. Fazia a assepcia e depois esperava até a próxima vez. Fez isso durante muito tempo. Perfurou o maxilar de tanto fazê-lo. Segundo Massini, devia doer pra caramba... Azar o dele, digo do Mengele... Assim se notabilzou Massini, internacionalmente.
Em 1990, Caco Barcelos, ao fazer suas investigações sobre a morte de pessoas pela Rota em SP, chegou até o cemitério de Perus, também aqui perto de casa... Resultado: descobriu uma vala comum, onde vários corpos estavam enterrados como indigentes. Muitos com tiros no crânio, indicando execução. A ficha de muitos desses indigentes tinha um "T" bem grande na foto do IML, referindo-se à classificação de "terrorista". Esse termo era muito comum entre os agentes da repressão política àqueles considerados subversivos. Massini estava na Unicamp e assumiu o compromisso de identificar os corpos de Perus.
Em 1996, 19 sem-terras foram mortos pela polícia militar do Pará. A PM alegou confronto, numa situação em que tivemos 19 mortos de um lado e nenhum do outro. Curioso confronto com questionável desequilíbrio de forças...Massini comprovou que pelo menos 10 deles foram executados.
Seguiu um caminho nada convencional. Como dentista formado pela Unicamp poderia ter uma excelente carreira em SP, talvez na Oscar Freire, ganhando uma boa grana. Preferiu medicina legal. Apenas um louco para pegar gosto nisso. Ou apenas uma pessoa compromissada com certos princípios para entender a importância dessa área para a sociedade brasileira. Massini merece muito mais respeito do que seu longo currículo sugere. Num país em que muitos se impressionam com títulos, deveria ser respeitado pelas suas atitudes de interesse claramente coletivo.
Obs.: Além do Google, também é possível ler uma entrevista dada por ele na Revista Caros Amigos há alguns anos. Não me perguntem o número... Parece que o cabra também fez alguns serviçois para a ONU. Na incerteza dessa informação, preferi não citar. Quem souber, agradeço o palpite...

6 comments:

denise said...

Legal a história do moço!
Lembro que vc contou o primeiro parágrafo numa aula... mas não sabia do envolvimento dele com o Caco (adoro o trabalho dele... vc ja leu Abusado?).
=]

Bjus!!

Anonymous said...

Segue o link Moraes.

"O médico legista Nelson Massini lança luz sobre os grandes crimes brasileiros em uma entrevista mais que explosiva."

http://carosamigos.terra.com.br/da_revista/edicoes/ed24/sumario.asp

Abraco.

Filipe, diretamente da Patagonia.

Anonymous said...

Essa merd* cortou o link...

http://carosamigos.terra.com.br/
da_revista/edicoes/ed24/sumario.asp

MonicaPD said...

Fui aluna do Massini na UFRJ e, além de ser um excelente professor, era uma pessoa muito simples e bem-humorada. Um verdadeiro gênio, que soube transmitir seu entusiasmo com a matéria até para quem não tinha o menor interesse, como eu. Explico: medicina legal seria interessante para um futuro advogado que atuasse no crime ou um futuro Delegado.
As aulas eram sempre um acontecimento e todas muito interessantes. Ele levou slides da exumação do Chico Mendes e de outros crimes, para ilustrar a matéria.
Na aula sobre enforcamento, esganadura e afins, ele levou uma boneca (xuxa). Eu perguntei: "professor, o que vai fazer com essa bonequinha?" e ele respondeu: "vou fazer umas maldades..."
Durante o discurso de nossa formatura, a beca dele começou a cair e ele disse: "o strip-tease não estava no programa..."
Enfim, era um professor muito querido de todos, que merece todas as homenagens. Ele poderia estar rico, se não fosse um cara tão honesto.

Anonymous said...

Sim, provavelmente por isso e

Anonymous said...

Atualmente ele ministra aulas na UERJ na cadeira de Medicina Legal I e II, com inquestionável assiduidade e competência. Grande pessoa. Grande mestre. Como dito acima, poderia muito bem ser mais um na Oscar Freire...