Thursday, August 30, 2012

Os 100 mil acessos

Em questão de horas, de acordo com as estatísticas do Sr. Google, o espaço em que agora escrevo terá alcançado 100.000 acessos. 

É razoável aceitar que uns 5.000 deles são do próprio palpiteiro, dada a necessidade de acessar o blog para   postar palpites, moderar comentários, ou simplesmente cortar o caminho para acessar os blogs do Luis Nassif e do Paulo Henrique Amorim.

A ideia do blog em questão nasceu da arrogante necessidade de publicar opiniões que ninguém solicitou. Mas também manter o agradável exercício da escrita. Escrever é antes de tudo uma prática. O palpiteiro sempre gostou de escrever, desde a primeira série do antigo primeiro grau. A composição com uma narrativa "da barata" se perdeu com o tempo. Mas está na memória, na folha de linguagem, com o carimbo da "lição da barata", que a professora usava para estimular a imaginação da molecada. (Os mais velhos devem se lembrar da lição da Barata da Cartilha "Caminho Suave").

Escrever é muito bom para quem gosta e tem tempo. Mas, segundo o velho Jorge Luís Borges, ler é a atitude mais nobre. Quando escrevemos perdemos tempo pensando nas palavras mais adequadas para ideias que ainda não temos necessariamente a clareza do que significam. No papel riscamos, na tela, deletamos. Mas ler é nobre. E o velho poeta cego disse que a pessoa que lê dedica-se apenas a ler. Não porta caneta, não mira o papel e não pensa em palavras. Desfruta das ideias e libera a imaginação. Borges sabia da importância do leitor para tudo o que escreveu. 

Escrita sem leitura não tem valor algum.

Sem demagogia, sem apelação ou markentig miserável, o palpiteiro agradece aos que por aqui passaram e leram, mesmo que apenas alguns parágrafos. Nesses 100.000 acessos não se descarta o número de pessoas que abriram, viram o título, leram a primeira linha e mudaram de endereço, em busca de algo mais importante. 

Mas há certamente aqueles que leram e gostaram. E tantos que se indignaram. Além dos que apenas lamentaram. 

Seja como for, o que vale é a comunicação. Não apenas aos que leram, mas principalmente àqueles que de algum modo pensaram no que foi escrito. A essas pessoas dedico o trabalho e o tempo - escasso - para algo em torno de 700 postagens e, agora, 100.000 acessos. 

Não parece nada. 

Para mim é muito. 


Grato a todos. 


Sergio de Moraes Paulo - opalpiteiro.



Obs.: em homenagem aos que passam por aqui, quero fazer algum tipo de sorteio. Vou escolher o livro, mas não me atrevo a montar a forma de presenteá-lo. Quem se dispuser a ter alguma ideia que seja simples e justa, que apareça. Não encontro outra forma mas adequada de solução que não seja a colaboração dos amigos - e eventuais inimigos- que acessam esse blog de quando em vez.

Tuesday, August 07, 2012

Hinos bonitos

Gostar do hino nacional dos outros não para qualquer um. Mas professores de Geografia, História e eventuais curiosos apreciam esse desvio.

Hinos nacionais surgem por razões diversas e nem sempre nobres. Não raro prevalecem pelo gosto do que estão no Poder e que desejam perpetuar o momento de seu comando. 

O hino da França tem tanto melodia quanto uma história bonita. Não nasceu para ser o hino oficial do país. Mas o seu significado foi tão forte que os franceses acabaram por adotá-lo. Foi o hino que ajudou a mobilizar as massas que da Revolução Francesa participaram. Seu apelo popular é tão forte entre os franceses que chegou a ser proibido por algum tempo.




O hino de Israel tem uma melodia triste e uma letra em forma de oração. O sofrimento dos antepassados em diferentes momentos da história serve para entendê-lo. Não precisa ser judeu e nem saber hebraico para se ter uma ideia do que representa. 


O da Alemanha é também interessante e com uma melodia não menos impactante. Originalmente nasceu como a "Canção dos Alemães" e pegou como hino. Há uma polêmica em torno de alguns de seus trechos. Quando se canta "Alemanha acima de tudo", há quem imediatamente acredite ser herança nazista. O mais interessante é saber que foi adotado como hino antes da ascensão dos nazistas. A turminha fanática do Hitler não inventou a exaltação da "Alemanha acima de tudo", mas soube aproveitar bem para os seus interesses. No pós-guerra o trecho em questão era evitado, e cantado apenas pelos neonazistas de plantão. Após a queda do Muro de Berlim, da reunificação do pais e de muitas discussões internas, aceitou-se que o hino deve ser cantado em sua versão integral. Com polêmica e tudo.


Os EUA podem ser criticados por muitas coisas. Mas indiscutivelmente possuem um belo hino. O palpiteiro nunca se deu ao trabalho de ler a letra com calma. Mas a sua melodia é muito agradável. Protestos à parte, Jimmy Hendrix o melhorou muito...


O da Argentina não deixa de ser bonito também. Mas provocações deixadas de lado, o palpiteiro tem sempre a impressão de ouvir muito mais um toque de fanfarra do que propriamente um hino. Como o da Itália, que lembra muito uma festa animada em alguma cantina do Bexiga. Embora alguns italianos apreciem muito uma segunda música que entendem ser uma espécie de segundo hino. Trata-se de Nabuco, de Verdi. Muito bonita, sem dúvida. 




O hino hino nacional brasileiro às vezes soa como marchinha, é animado e muito comprido, comparado aos dos outros países. Mas não deixa de ter sua beleza. Difícil é saber o quanto gostamos dele por ser belo ou apenas por representar o país.

Mas na tendenciosa, parcial e inútil opinião do palpiteiro, poucos chegaram perto do hino da Rússia. Eles tinham uma monarquia imoral quando os Bolcheviques tomaram o Poder e precipitaram a Guerra Civil que resultou na Revolução Russa. Lênin, a exemplo de outros líderes políticos, entendeu que era necessário um novo hino, para um novo país, que inaugurava uma nova era. 




Entenderam os líderes da Rússia comunista que o hino mais adequado seria a versão em russo da Internacional Socialista. Acreditavam que lideravam um novo processo de transformações que algum dia aboliria as fronteiras dos países. 

Lênin morreu, Stalin se tornou ou líder da URSS e a revolução mundial não ocorreu como anunciado. Assim como muitas coisas boas prometidas também não se confirmaram. 

Na Segunda Guerra Mundial os nazistas invadiram a URSS. Stalin e seus generais acreditaram que a mobilização nacionalista na guerra exigia um hino próprio. Encomendaram um hino com melodia forte e letra para lá de russa. Ele ficou pronto em 1944 e agradou muita gente cansada dos alemães. 

Os russos gostaram do hino, mas na década de 1950 alteraram a letra, que exaltava Stalin no momento em que denunciavam os abusos do seu regime ditatorial. 

Logo após o colapso do regime socialista e da desintegração da URSS abandonaram o hino de 1944, alterado na década de 1950. 

A URSS acabou em 1991 e, em 1992, nos jogos olímpicos de Barcelona, a Rússia se manteve como maior ganhadora de medalhas de ouro. O inusitado era assistir a medalhistas russos, orgulhosos de suas vitórias, mas constrangidos por ouvirem um hino que já não lhe dizia muito a respeito de seu país. 

Na década de 2000, a turma de Vladimir Putin inaugurou o hino atual. Mantido com a melodia e a exaltação da Rússia, dos tempos da URSS, mas com alterações na letra, para não incomodarem aqueles que se irritam com a lembrança dos erros e abusos da era soviética. 

Nos jogos olímpicos de Londres a Rússia já não tem mais a força dos tempos da Guerra Fria. Ver a Coreia do Sul ter mais medalhas que ela deve ser muito desagradável para muita gente da Bacia do Volga. Mas de uma coisa eles não podem reclamar: ainda vêem sua bandeira tremular em modalidades nobres e ouvem um hino que muito gostam. Assim como palpiteiros pelo mundo afora.

Sunday, July 15, 2012

Para o bem de todos

Para a necessária preservação da tranquilidade das cabeças alheias, assim como da própria, o palpiteiro não postará nada nos próximos 10 dias.

Wednesday, July 04, 2012

Uma despedida do Pacaembu

Na metáfora mais óbvia o futebol seria uma religião, os torcedores seus adeptos e os estádios os templos.


Na metáfora mais óbvia os estádios seriam os templos das alegrias e das tristezas. Das frustrações e das esperanças.

Na metáfora mais óbvia, o futebol seria politeísta. E seus Deuses teriam desígnios desconhecidos para os mortais. Nós.

Nenhum templo do futebol brasileiro tem o charme do Pacaembu. Construído para a  copa de 1950, foi sede do time campeão, a seleção uruguaia. Campeã.

O Pacaembu nasceu para ser nobre. 


Está localizado em bairro arborizado e que abrigava até uma concha acústica, derrubada para a construção daquela horrorosa arquibancada que chamam de "tobogã".

O palpiteiro confessa que já assistiu a jogo do Corínthians no Pacaembu. Além da memorável apresentação de Jimmy Page e Robert Plant, em 1995, talvez.

O Pacaembu foi o templo de outras paixões também, além da corinthiana. Palmeirenses e santistas também tiveram por lá as suas glórias. Pelé jogou muitas vezes naquele estádio.


Mas não há dúvidas de que foram os os corinthianos que mais amaram o Pacaembu. Isso é indiscutível.

Amaram? Não amam mais?


Parece que não. Caberá a Juvenal Juvêncio, o mais pateta dos presidentes que o São Paulo teve, a honra de ter mexido com o brio dos corinthianos e, ao mesmo tempo, ter tirado o Morumbi da Copa e estimulado o Corínthians a ter seu próprio estádio.

Juvenal Juvêncio quis humilhar o Corínthians e vender apenas 10% dos ingressos para um clássico com o SPFC. Achou que seria popular com seus torcedores sendo arrogante e burro. 

A humilhação levou a um ponto de honra: como mandante, o Corínthians jamais jogaria no Morumbi de novo. 

 Num primeiro momento  o caso prejudicou o Corínthians, pois o Pacaembu tem menor capacidade do que o Morumbi.O que significa menos ingresso vendidos. 

Mas o capitalismo jogou a favor do Corínthians. Com menos ingressos, os valores foram aumentados, devido a uma tal lei da oferta e da procura. 

Mesmo com preços exorbitantes, o estádio enchia e ainda dava para liberar o sinal para a Globo transmitir em TV aberta. 


Não demorou muito para o Corínthians descobrir que direitos de TV e ingressos caros dava mais grana que lotar o Morumbi inteiro com corinthianos a preços populares. O time do povo aprendeu a se elitizar. E ganhar muito com isso.

E assim se fez a aliança maligna, entre a Globo,o Corínthians e, mais adiante, o Poder Público nas suas 3 esferas, Federal, Estadual e Municipal.

Lula quando era presidente percebeu mais uma vez para onde os ventos sopravam. E sopravam para os lados da zona leste de SP...

Oportunismo todo político tem, mas negar o amor de Lula ao Corínthians é negar a realidade. 


Com interesses diversos e nem sempre dignos, viabilizou-se a construção do estádio do Corínthians. Sede da Copa do Mundo de 2014 em SP. 

Será um estádio moderno e à altura do novo momento do futebol: não muito grande e adequado para garantir ganhos de bilheteria com transmissões pela TV, que não afetarão as vendas de ingressos. 

O Morumbi é muito maior, mas quem já assistiu jogo lá sabe que é um estádio velho e inadequado para um espetáculo que exige cada vez a transmissão pela TV.

O Corínthians então terá o seu próprio estádio, com o estimulo do tricolor Juvenal Juvêncio, o mais cretino dos presidentes que o SPFC já teve.


E hoje será a despedida do Corínthians do Pacaembu. Seja lá qual for o resultado, no ano que vem o novo estádio estará pronto e, para o brasileirão 2012, há poucas chances do time da ZL decidir o título.

Caberão aos deuses do futebol decidir como será essa despedida. 


O templo poderá ser condescendente e ajudar o Corínthians de todas as maneiras: bola na trave, pênalti não dado e gol impedido poderão dar ao Corínthians o almejado título da Libertadores. Além da inspiração a gols históricos e ou heroicos. 

Mas também poderá haver um acerto de contas. O templo que tantas alegrias deu ao Corínthians, hoje desprezado, poderá ficar chateado. E tudo poderá da errado numa decisão em pênaltis. E sabemos que ao contrário do Deus judaico-cristão, os deuses do futebol são maliciosos, caprichosos e vingativos.


O palpiteiro não nega que assistirá ao jogo de hoje torcendo para o melhor, o Boca. E que ficará atento ao que o Pacaembu decidirá. 

A despedida do Pacaembu poderá ser inesquecivelmente boa para o Corínthians. Ou não. 

Os deuses falarão...

Monday, June 25, 2012

Quando os bovinos incomodam

Há momentos em que a ira se mistura ao desânimo.

Condição humana. Humana fraqueza.

Humanos são os erros.

Humanas são as tolices.

As vacas são felizes. 

Nunca erram. Pastam, ruminam e repetem sua vida ordinária.

Bovinamente.

O que fazer quando o desânimo e a ira se intrometem no seu caminho?

O que fazer diante de tanto pasto, ruminantes e ordinários?

Simples: voltar às raízes.

Sentir no coração e na alma de novo o motivo da caminhada. 

A alegria da renúncia consciente. 

Não pastar, não ruminar. Não repetir. 

Erros e desânimo. 

A ira então se vai...


Obs.: Para tanto


"A Cruz de Giz" (Bertold Brecht)

Eu sou uma criada. Eu tive um romance
Com um homem que era da SA.
Um dia, antes de ir
Ele me mostrou, sorrindo, como fazem
Para pegar os insatisfeitos.
Com um giz tirado do bolso do casaco
Ele fez uma pequena cruz na palma da mão.
Ele contou que assim, e vestido à paisana
anda pelas repartições do trabalho
Onde os empregados fazem fila e xingam
E xinga junto com eles, e fazendo isso
Em sinal de aprovação e solidariedade
Dá um tapinha nas costas do homem que xinga
E este, marcado com a cruz branca
ë apanhado pela SA. Nós rimos com isso.
Andei com ele um ano, então descobri
Que ele havia retirado dinheiro
Da minha caderneta de poupança.
Havia dito que a guardaria para mim
Pois os tempos eram incertos.
Quando lhe tomei satisfações, ele jurou
Que suas intenções eram honestas. Dizendo isso
Pôs a mão em meu ombro para me acalmar.
Eu corri, aterrorizada. Em casa
Olhei minhas costas no espelho, para ver
Se não havia uma cruz branca.
Bertold Brecht (Alemanha)




Thursday, June 14, 2012

Eu me rendo

O palpiteiro é são-paulino e não escondeu de ninguém que torceu muito para que o Santos vencesse o Corínthians no primeiro jogo da semifinal da Copa Libertadores das Américas, 2012. 

E torcer pelo Santos contra o Corínthians não é nada difícil para quem gosta de futebol. 


O Santos tem Neymar, Ganso, Arouca e Muricy Ramalho. Vê-lo jogar bem é gratificante para quem aprecia o bom futebol.  

O Corínthians não tem nenhum destaque individual. Joga em conjunto e valoriza a defesa. Tite, o técnico, sonha com a mudança das regras que permitirá algum dia fazer um time ser campeão de futebol sem um único gol. 

Mas ontem as coisas deram errado. Sabe-se lá por que, Neymar se apagou, Ganso não criou, Arouca não surpreendeu. E Muricy não teve nenhuma grande ideia. 

Pelo lado do Corínthians houve garra e disciplina. Se não teve lances geniais durante toda a partida, conseguiu um placar magro com um gol indiscutivelmente bonito. A opção germânica do futebol corinthiano pode ser feia, mas não deixa de ser eficiente. 


Por tudo isso o palpiteiro se rende.


A partir de hoje passa a torcer, além do São Paulo, para o time do povo!

O time das massas!

O time cuja torcida não abandona seu clube do coração jamais!

O time da torcida que lota os estádios!


O time mais querido dos operários! Dos Pobres, excluídos e sem esperança!


O time que emociona pela sua torcida vibrante!


O time que tem como grande Rival um outro que representa as elites arcaicas que vivem na cidade mais rica do país!


O palpiteiro não tem a mínima vergonha de assumir que torcerá para o time que encanta a nação...ARGENTINA!

A partir de hoje, dá-lhe BOCA JUNIORS!!!! 

Saturday, May 12, 2012

É a Geografia, estúpido!

De tempos em tempos surgem ondas favoráveis a intervenções do Poder Público que trarão as soluções mágicas de que todos nós precisamos. Em comum, seguem alguns padrões: nunca são fruto do pensamento nativo; seus defensores citam ao menos 3 cidades ou países -normalmente ricos- que já as utilizam com sucesso; a simplicidade da solução é acompanhada da sensação de que fomos tolos por não termos pensado "nisso antes"; as soluções mágicas somem do jeito que apareceram, sem ninguém explicar a razão de seu sumiço...

A solução mágica de hoje no Brasil é a bicicleta. Bebedores de vinho francês bradam as vantagens do seu uso. Amsterdã e Paris são lembradas como bons exemplos da substituição do automóvel em favor da bicicleta. E militantes das duas rodas com tração humana aparecem vociferando pelo seu direito ao transporte individual não motorizado. 

Mas seria a bicicleta uma solução viável?


Talvez sim, talvez não. Não se nega que a bicicleta como meio de transporte polui menos, faz bem à saúde e melhora as relações entre os habitantes de qualquer cidade. Mas é preciso que se tenha em conta a peculiaridade de cada cidade. 

As cidades europeias que tem promovido o uso das bicicletas tem um elemento natural em seu favor: a topografia. São cidades construídas em planícies, ou seja, terrenos com poucas variações nas suas formas de relevo. Ou ladeiras, para sermos mais precisos. Não é absurdo pensar em ciclovias com mais de 50 Km numa cidade como Paris. Mas acreditar que na cidade de São Paulo poderemos ter algo semelhante sem ao menos um morro é uma grande ingenuidade. 

Recentemente foi inaugurada uma ciclovia na marginal Pinheiros, em São Paulo. A ideia é boa, e merece o respeito como espaço para a atividade física. Fechar pistas de algumas avenidas para lhe dar acesso aos domingos é excelente. Mas no cotidiano de trabalho, impraticável. As ciclovias em São Paulo deveriam ser construídas em fundos de vale, onde os terrenos são aplainados. São aquelas avenidas mais largas, que normalmente desembocam em outras mais largas, tendo como destino comum as avenidas marginais. Ou alguém sonha que teremos ciclovias FUNCIONAIS nas avenidas Rebouças, Brigadeiro Luis Antônio e Lins de Vasconcelos?


Quem tiver a curiosidade de observar um mapa da cidade de São Paulo verá um padrão de avenidas largas que desembocam nas marginais, pois foram construídas nos vales mais largos e baixos dos rios que cortam a cidade. Muitas de nossas avenidas reproduzem o traçado dos rios que constituem as bacias dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí. 

Um exemplo disso é a avenida do Estado, que acompanha o Tamanduateí e desemboca na marginal Tietê. Fizeram duas grandes avenidas num sistema já existente. Em São Paulo as várzeas dos rios é que se tornaram a base para grande parte do sistema viário. 


Ciclovias nessas avenidas mais largas e baixas são aparentemente uma ideia simples, se aceitássemos que todos os habitantes da cidade morassem nessas áreas. O problema é como chegar a elas. São Paulo é uma cidade que nasceu e cresceu no "Domínio dos Mares de Morros Florestados", como ensinou o velho mestre Aziz Ab'Saber. As florestas já não existem mais. Porém os morros, sim.


Seja nas áreas centrais ou nas periferias, o que predomina na cidade de São Paulo são os morros. Rapidamente: tente se lembrar dos lugares que você passa pela cidade que não são partes de morros, com ruas que sobe ou descem? Terrenos aplainados são regra ou exceção em São Paulo?


Diariamente, milhões de pessoas se deslocam de carros, motos, ônibus trens e metrôs na Grande São Paulo. Ao contrário das cidades europeias, os mais pobres moram muito longe dos centros que apresentam maior número de empregos, e não dispõem de transportes coletivos confiáveis no horário, seguros no deslocamento e confortáveis para o corpo e para a alma.

Em resumo, construir ciclovias parciais não resolveria um problema que é metropolitano. 


Mas os demagogos aparecem sempre e, entre eles, os amigos das soluções da moda. A gestão de Kassab, o exterminador do futuro, tem se esmerado nesse sentido. Não construiu corredores de ônibus para que as pessoas utilizem mais o transporte coletivo. Ao mesmo tempo, tem sido generosa - a gestão - na liberação da construção de condomínios e prédios que resultam em mais trânsito. Ao lado de Kassab surge a sra. Soninha Francine, adepta da onda ciclista. 


E assim pedalamos. Uma cidade gigantesca, cheia de morros, com uma distribuição espacial de empresas e trabalhadores que exige longos e demorados deslocamentos com soluções infantis. 


Estudar topografia? Bobagem...

Reconhecer as diferenças do sítio urbano que existem entre São Paulo e Paris é coisa para chatos. Para que repensar a organização espacial da cidade e os transportes coletivos se podemos comprar bicicletas? 

A prefeitura isola uns 100 km de ciclovia numa cidade com mais de 1.200 km2, as autoridades tiram fotos e, se houver atropelamentos, é só culpar os motoristas...


Soninha Francine, a vereadora que vai mudar SP com sua bike...




O prefeito Gilberto Kassab mostra como pretende trabalhar com o revolucionário sistema de ciclovias em São Paulo. Note que o prefeito usa capacete para proteger a caixa craniana de onde brotam as mais brilhantes soluções para o sistema de transportes da cidade. Perguntar não ofende: os demais companheiros de Kassab estão de capacete para carona ou eles pretendem revezar o uso do veículo?




Av. Brigadeiro Luís António, onde o palpiteiro aguarda a ciclovia que dará oportunidade a alguns engravatados usarem suas bikes para trabalhar na Av. Paulista. Será interessante ver os motoristas da cidade a manter uma distância mínima de 1,5m de um ciclista que arriscar subir essa avenida...




Mapa da Grande São Paulo com o Rodoanel, em funcionamento e em projeto. Para os ignorantes, um mapa resolve qualquer problema. Para quem estudou um pouquinho de geografia, esse tipo de mapa não revela claramente onde tem subidas e descidas. Repare nas várzeas dos rios Tietê e Pinheiros e nas ruas que neles desembocam. 

Divulgação


Friday, May 04, 2012

Que Tinoco descanse em paz

O palpiteiro ficou sabendo hoje, 4 de maio de 2012, que Tinoco morreu num hospital municipal de São Paulo. Ele era simplesmente metade da dupla "Tonico e Tinoco", que cantava modas de viola e música caipira (Para quem tem um pouquinho de discernimento, há a diferença entre uma coisa chamada "música caipira e um troço chamado "música sertaneja"). 

O palpiteiro cresceu ao som da música de Tonico e Tinoco. Numa época em que a música eletrônica dominava as rádios e que qualquer coisa cantada em português era mal-vista, as músicas de Tonico e Tinoco resistiam nas rádios AM. 

Os "jovens" e "modernos" sabiam de tudo. Inclusive que a música caipira era coisa de velho, ignorante e analfabeto. Os caipiras que moravam na cidade sabiam que tinham uma história, uma origem e uma dupla que cantava sobre isso. Tinham várias duplas, mas era a "Tonico e Tinoco" que simbolizava a resistência caipira numa cidade que queria ser NY com uma população majoritariamente pobre, mal-escolarizada e cabocla. 


Particularmente, o palpiteiro aprendeu a gostar mais de Tião Carreiro do que Tonico e Tinoco. Discordâncias respeitadas, Tião Carreiro é na viola caipira o que Bach foi na música erudita e Jimmy Heendrix no rock. Pessoas que amam a música reconhecem talentos e gênios que se manifestam de diferentes formas. Bach, Hendrix e Tião Carreiro. Ignorantes classificam diferentes gênios por hierarquia, com o ridículo  do "melhor" e do "pior". Tonico e Tinoco não eram os melhores. Mas eram, indiscutivelmente, autênticos. 


Quem cresceu na cidade de São Paulo, como filhos de gente do interior,  entre as décadas de 1950 e 1980,  entende bem o que se quer dizer nessa postagem. 

Para quem não vivenciou esse momento, nessas condições, a morte de Tinoco é algo banal, como a queda de um motoboy ou uma chacina na Grande SP.

Tinoco morreu. Com ele se foi um pouco da história do século XX do rádio e da música popular do Brasil. Um dia poderemos ter no Brasil o orgulho de termos artistas como Tinoco, Luis Gonzaga, Cartola e Tião Carreiro. Tanto quanto os alemães tem de Bach, os franceses de Vivaldi e os italianos de Pavarotti. Por enquanto isso não é realidade. Nossas elites continuam a beber vinho francês e acreditar que são superiores por conhecer jazz e a Flórida. Valorizam trufas e desdenham do doce-de-abóbora...Ignorantes com soberba, apenas.

Que Tinoco descanse em paz. Justiça ao seu talento e à sua importância será um dia feita. Mesmo que demore mais um pouco mais.

Saturday, April 21, 2012

Um sábado modernista

Sábado de outono na cidade de São Paulo. Temperatura agradável, com céu encoberto e uma garoa que ameaça ficar e não fica. 

No Memorial da América Latina os prédios cheios de curvas. Edifícios com espelhos d'água. E claro, o concreto armado da arquitetura modernista de Niemeyer. 

Em exposição, os paineis "Guerra e Paz", de Cândido Portinari. Imagens universais que retratam a alegria e a dor. Contrastes entre cores e temas dentro do mesmo estilo. Muitos triângulos. Sugeridos e sorrateiros. Um vídeo com imagens de esboços comenta, de maneira suave, algumas das ideias da obra. 

Ao fundo, um poema de Carlos Drumond de Andrade, outro modernista. 

Na sequência das imagens que compõem o painel da "Paz", a música é infantil e de domínio público, segundo o arranjo de Villa-Lobos. 

O palpiteiro teve assim um sábado modernista. Niemeyer, Portinari, Drumond, Villa-Lobos. E, não muito longe do Memorial da América Latina, um lanche no Ponto Chic, o mesmo bar e restaurante que outrora abrigava a vanguarda modernista da década de 1920, ainda no Largo do Paissandu.

O Brasil foi muito mais interessante quando acreditava que podia ser grandioso se fosse moderno. E moderno pressupunha ser avançado sem deixar de ser brasileiro. 


Os paineis "Guerra e Paz" evidenciam isso. Emocionam com cenas simples de áreas rurais brasileiras. Portinari conseguiu isso: ser universal sem deixar de ser brasileiro. 

Em tempos que uma gente afetada que acredita ser importante conhecer vinícolas francesas e out-lets da Flórida, Portinari retorna em boa hora. 

O Brasil sempre acertou quando ousou ser moderno sem deixar de ser Brasil. Instituto Butantan, USP, Petrobrás, Embraer. Tudo isso derivou desse sonho modernista. 


No ano em que lembramos dos 90 anos da Semana de Arte Moderna, nada mais apropriado em procurar saber o lugar e o momento em que perdemos o trem da história. 

Sei não. Se insistirmos um pouquinho mais, achamos o caminho de justo. De novo.

Tuesday, March 20, 2012

Da esfera ao Kony

Em 2006, a cidade de São Paulo ficou atônita diante de ataques organizados pelo PCC, ou, como prefere a imprensa infantil "facção criminosa que atua nos presídios paulistas".  Os ataques alvejaram policiais, delegacias, bases de patrulhamento e até quarteis do Corpo de Bombeiros. No auge da violência programada, até um agente da CET foi assassinado. Ônibus foram incendiados. 

A violência do PCC começou numa quinta à noite e foi piorando com o passar das horas. No domingo, além dos ataques a policiais, houv rebeliões em diversos presídios do Estado. De um lado reforço policial nas cadeias. De outro, policiais amendrotados por ataques que poderiam vir de qualquer lado, a qualquer momento. 

O padrão dos ataques do PCC foi claramente inspirado na Al Qaeda. Ações simultâneas em ataques espetaculares. Ao mesmo tempo em que assustam, dão a sensação de insegurança coletiva e de uma força da organziação desproporcional à realidade. Os ataques e sua divulgação deram ao PCC uma imagem de poder que não corresponde exatamente ao que possuem, embora sejam de fato - como provaram- capazes de assustar um Estado inteiro.

Naqueles dias o palpiteiro ficou impressionado com a disseminação das informações sobre os ataques. Boatos de que estações de metrô foram alvejadas por metralhadoras ou ataques de bombas a prédios se misturaram a casos reais. O PCC não atacou apenas com chumbo e pólvora. Usou também a informação como arma de terror. Motoqueiros passaram assustando comerciantes, que, inseguros, baixaram suas portas. Mas o mais curioso foi o uso do MSN, SMS e do Orkut, numa época em que não existia ainda o Facebook. 

O palpiteiro trabalhava na Avenida Paulista e viu bancos fechados, com as grades típicas dos dias de grandes manifestações. São Paulo teve, por volta das 17:00h, um dos piores congestionamentos de sua história. Uma cidade inteira em pânico. 


No desfecho do caso, pouco se falou sobre o papel do cidadão comum no caso. Involuntariamente, muitas pessoas ajudaram o PCC, ao disseminar informações sem um mínimo de questionamento. Claro que você conhece aquele tipo que adora uma notícia ruim. Daqueles que quando você o informa ele saca uma pior...


Desde então o palpiteiro passou a ter mais cuidado no repasse de informações que não sabe a procedência. Ou que duvida da seriedade. 

Na última semana foi o caso Kony. Um ong americana propagou um vídeo, conclamando a prisão de um criminoso que já não atua como antes há 10 anos. Ao que parece, a ong queria dinheiro, não justiça. 

Nesse mundo de informação rápida, que dá a impressão de que o mundo virou uma esfera contínua com fluxos incessantes de infromações, não custa nada fazer algumas perguntas simples: 

"Quem disse?"

"Quem me passou essa informação?"

"A quem interessa que eu me oponha a essa pessoa ou instituição?".


Velhos cuidados que deveriam nos acompanhar há milênios nunca foram tão necessários quanto hoje.

Friday, March 16, 2012

Aziz Nacib Ab Saber, professor, sempre

O dia 16 de março de 2012 foi diferente dos anteriores. Foi mais nublado, cinza. Triste. Nesse dia morreu Aziz Nacib Ab Saber. 

Para quem não o conheceu é preciso dizer algumas coisas. Para quem o conheceu, é necessário dar continuidade a muito do que ele disse. E fez.


Quando alguém morre temos muitas maneiras de dizer  o que sentimos, para o bem e para mal. Mas no caso no Aziz o que segue aqui é mais do que o pesar formal de um geógrafo. Sai como desabafo de um perpétuo aluno do velho mestre.

Havia dois Aziz, o acadêmico e o cidadão. 

O acadêmico foi genial. O cidadão, incomparável. Aziz foi o doutor da tese sobre a geomorfologia do sítio da cidade de São Paulo. Foi nele que o pessoal do Metrô fuçou para poder cavar muitos dos túneis que usamos todos os dias. Foi também um dos autores da "Teoria dos Redutos", mais conhecida como "Teoria dos Refúgios", em parceria com Paulo Vanzolini. Quem conhece Vanzolini vai entender a importância disso. O Aziz acadêmico foi o presidente da SBPC. E morreu como presidente de honra dela. Ele foi o consultor do Projeto Radam-Brasil, que serviu de base para conhecermos melhor a Amazônia. Entre tantos outros feitos, ele construiu ao longo da vida um currículo com mais de 80 páginas. O palpiteiro leu. Num dado lugar está lá: "Títulos e honrarias recebidos: medalhas de honra ao mérito científico concedidas pelos governos da França e da Argentina...". Pouca gente sabe disso.


Mas havia o Aziz cidadão. Aquele que desprezava encontros com doutores de todo o Brasil nos congressos e encontros de Geografia. Mas que adorava conversar com os estudantes. O Aziz cidadão apoiou Lula contra Collor em 1989. Assim como o fez em 1994, 1998 e 2002. Com 3 meses de governo Lula ele sentiu que o governo Federal não estava de acordo com o que ele sempre defendeu. Rompeu, politicamente, com Lula ainda no primeiro semestre de 2003. 

Quando Lula perdeu para Collor em 1989, inventaram a "Caravana da Cidadania". A ideia era aproveitar a boa votação dele para continuar uma campanha para a eleição seguinte. Foram para várias cidades pobres do país. O Aziz o acompanhou. As imagens da caravana foram tão marcantes que os conservadores mudaram a lei eleitoral de 1994. Naquele ano a propaganda eleitoral não podia ter imagens em movimento, apenas fotos...

O Aziz cidadão estudou com Florestan Fernandes, e dele foi amigo até os últimos tempos. Em 2000 o PT venceu as eleições em muitos municípios brasileiros. Em São Paulo, venceu a Marta. Estava frio, mas o palpiteiro foi para a Paulista comemorar, pois não era todo dia que São Paulo derrotava Paulo Maluf de lavada. O palpiteiro e a esposa estavam lá, embaixo da chuva fina, quando encontraram o Aziz. Ele nos abraçou e, em lágrimas, disse: "...meu filho, isso é um passo importante. O Brasil vai mudar toda a América Latina..." O palpiteiro achou exagero na hora. Quem queiser que olhe para trás. A América Latina mudou muito desde então. O Aziz estava certo, era o mestre, afinal.

Em 2002 ele também estava na Paulista, a comemorar mais uma vitória eleitoral, daquela vez, do Lula.  

Nos últimos anos se transformou numa metralhadora acadêmica e política contra as obras de transposição do  São Francisco e com o Novo Código Florestal. Ele nunca se cansou. Tornou um crítico feroz do governo Lula e de Dilma. Não se conhece manifestação direta de Lula a esse respeito. Ele sabia que a briga com o Aziz era outra.


Tanto o acadêmico quanto o cidadão foram incansáveis na defesa de um Brasil mais justo e avançado. Desde sempre. Em 1943 ele gostava de se reunir com sua turma de nerds para discutir política e ciência na então Biblioteca Municipal de São Paulo. Foram eles que deram a ela o nome de "Mário de Andrade",com todo o simbolismo que isso tem.


Mas hoje ele faleceu. Hoje se foi o homem que disse: "...num país rico, estudam para manter a riqueza. Num país pobre, lutamos para mudar tudo..."


Hoje estava nublado. Foi um dia triste para o país. Mas é certo dizer que ele apenas nos deixou. Enquanto não nos calarmos e não nos conformarmos com o que está errado e seguirmos lutando, ele vive. As suas ideias e a fala nas nossas memórias ainda estão muito vivas. Descanse em paz, professor. 

Tuesday, February 21, 2012

Somos minoria???

Um moleque inconsequente no comando de um jet sky atropelou uma garotinha de 3 anos e a matou.

O moleque fugiu, sem prestar qualquer tipo de ajuda, sem perguntar o que aconteceu.

Sem admitir o que provocou.


Ao chegar em casa deve ter contado o fato aos pais.


Muitas serao as possibilidades do dialogo entre os pais do moleque e o rebento.


Seja la qual for a conversa que tiveram, o que se sabe: seus pais julgaram melhor fugir com o garoto das vistas de quem quer que fosse incomodar a tranquilidade da familia.


Ha quem diga que os pais deram fuga de Bertioga em um helicoptero. Tem gente que afirma que sairam em seus carros, convencionais para aquele padrao de moradia.


Seja de helicoptero, seja de carro, fica a curiosidade. O que conversaram no caminho? Teria o pai chamado o garoto para uma conversa seria? Teria ele lembrado do mal que seu garotinho provocou a outra familia? Ou o pai o foi xingando por ter estragado o feriado de carnaval??


O palpiteiro fez coisas erradas quando era menor. Em nenhuma delas seus pais o acobertaram.


Um vez o palpiteiro nao fez a tarefa de casa. A professora escreveu um bilhete que dizia: "...seu filho nao fez a tarefa de casa..."

A mae do palpiteiro leu o bilhete, deu um sabao nele e escreveu, no verso do bilhete: "...meu filho nao fez a tarefa porque foi vagabundo. Por favor, dobre a tarefa de hoje para ele..." A mae do palpiteiro acreditou na professora, respaldou a autoridade da mestra e nao deu chance de defesa. Aprendizado: ou anda na linha, ou fica sozinho com seu erro. O palpiteiro fez a taboada do 5 umas 20 vezes, pois a tarefa era para que todos fizessem 10 vezes...


O palpiteiro se recusa a acreditar que a maioria das familias tenham atitudes covardes e indignas como a familia do moleque do jet sky.



E fica aqui um desafio. Se voce tem alguma historia desse tipo, no qual seus pais, avos ou quem quer que seja o deixou na mao para educa-lo, que post aqui. Nada de comentario. Apenas exemplos de pais responsaveis...

Thursday, February 16, 2012

Lindemberg condenado e outros culpados livres

O palpiteiro acabou de assistir à transmissão da sentença de Lindemberg, assassino confesso da adolescente Eloá. 

O julgamento só não foi mais explorado do que o próprio caso, no qual abutres de terno e gravata transmitiam com emoção e música de fundo um bandido com descarada vontade de sair na TV.

A juíza leu a sentença com elogios à PM de SP. Lembrou que é uma "das instituições mais respeitáveis do país". Fez referência ao combate diário que a PM de SP tem contra a bandidagem. Certo. Esqueceu-se de lembrar que a PM paulista foi para a história mundial como aquela que devolveu uma refém ao sequestrador. Ou o palpiteiro endoidou, ou muita gente se esqueceu que a outra menina, Nayara, se aproximou tanto de Lindemberg - com permissão da PM- que acabou sendo presa novamente. Nayara levou um tiro na boca e quase perdeu a vida. Mas a PM fez seu papel, segundo a juíza...


A juíza, quase elevada à condição de alteza, não poupou elogios também à imprensa. Lembrou do papel que a imprensa tem na comunicação entre o Estado que defende a lei e a sociedade, que deve ser defendida. Palavras bonitas, dignas de um discurso de formatura... Mas não há chance de sua alteza, a meritíssima juíza, repetir essa frase quando for lembrada que a "imprensa livre' deu voz ao macabro show de Lindemberg. Ou o palpiteiro endoidou, ou há registro de que a Rede TV transmitiu uma entrevista ao vivo, por telefone, do tal Lindemberg, que teve lá seu momento de fama e gloria televisa. 


A "imprensa livre" do Brasil parece ter memória curta, em solidariedade à alteza meritíssima. Pois não é que deu pouco espaço para o pai da vítima? Everaldo Santos, era cabo da PM em Alagoas. Foi condenado pelo assassinato de um delegado de lá. Estava pedido pela justiça alagoana a pagar 33 anos de cadeia. No desfecho do caso, fugiu e não pode ir ao enterro da filha. Acabou preso um ano depois.


O palpiteiro tangencia a leviandade e arrisca imaginar que não pegava bem dar destaque ao caso do pai de Eloá. Vítima de um lado, por ter perdido a filha. Bandido de outro, por ter matado outras pessoas e viver em SP com identidade falsa. Não pegava bem para uma cobertura jornalística que priorizou a condenação de Lindemberg e fingiu que a ação da PM no caso fora impecável. 


Que não se diga por aqui que o palpiteiro defende o assassino. é réu confesso, mau, exibido e tonto. Uma condenação a 98 anos de cadeia, mesmo que cumpra apenas 30 anos, não parece muito, neste caso. A sentença parece justa. 


O que intriga o palpiteiro é o espetáculo midiático, no qual busca-se falar mal apenas de UM malvado. O ódio instigado contra Lindemberg lembra muito a expiação feita com sacrifício humano. Entrega-se um condenado à execração pública. E assim os outros atos de maldade, ainda que menores, são sutilmente esquecidos. 


Para muita gente a justiça foi feita. Para o palpiteiro, veio incompleta. O tempo gasto para comentar o caso poderia ter sido aproveitado para questionarmos a ação da PM. Acertou em muitos pontos. Errou em outros. No mínimo, o mais grave, na entrega de Nayara ao cárcere de Lindemberg. 

Outro erro da PM foi a sua fraqueza perante a mídia. Nos dias em que Eloá esteve sob a mira de seu algoz, a imprensa fazia transmissão ao vivo, com um criminoso que queria também aparecer na TV. Um comando mais corajoso da PM teira isolado a área a ponto de não permitir a visualização do que ocorria. Cerceamento da liberdade de imprensa? Nada disso. Questão de segurança. Está mais do que evidente que a relação odiosa entre o assassino que queria fama e a imprensa que queria ibope, contribuiu muito para o desfecho trágico do caso.


Mas Lindemberg foi condenado. A juíza teve seus dias de fama. A imprensa saciou sua fome de por audiência e , de quebra, fingiu mais uma vez que nunca errou. 


E a sociedade adormece, mais uma vez. Iludida de que justiça foi feita, imprensa livre atuou e PM paulista venceu.

A PM de SP mais uma vez sai ilesa.

Os bandidos agradecem, mais uma vez.  




http://opalpiteiro.blogspot.com/2012/02/lindemberg-condenado-e-outros-culpados.html


Para quem quiser saber como ser uma péssima jornalista numa emissora sem ética...




http://www.youtube.com/watch?v=Y3oTNzkxUQE

Tuesday, February 14, 2012

Para registro

I. 
Entre os dias 13 e 15 de fevereiro de 1945 os Aliados bombardearam a cidade alemã de Dresden.

A cidade não era estratégica. Não tinha relevância econômica ou militar.


Milhares de pessoas foram mortas.


Motivo? Terrorismo.

O comando das forças dos EUA e do Reino Unido acreditou que tanta gente morta colocaria a população alemã contra o governo nazista, o que abriria caminho para a rendição alemã.



Dresden é um assunto incômodo.


O mundo ficaria mais fácil de ser entendido segundo a divisão entre bonzinhos e malvados.


Por esse ponto de vista, os nazistas foram maus e os Aliados bonzinhos.


O problema é quando se constata que aqueles que combateram os maus, também não eram grandes exemplos de bondade.


 Pelas vítimas de Dresden essa postagem é dedicada.


II.

Se alguém dissesse, em 1989, que em 2012: uma greve liderada por um filiado ao PSDB na Bahia foi enfrentada por tropas do exército brasileiro com o aval da presidente da República, do PT, ex-guerrilheira, com o argumento de defesa da ordem estabelecida... esse alguém seria chamado de doido...