Sunday, August 19, 2007

Milton Santos: é preciso ousar

Em 1993 o palpiteiro ingressou na Universidade de São Paulo para cursar geografia. Como todo calouro, lia tudo o que aparecia na frente, desde avisos no mural até as instruções do extintor de incêndio. Matrícula feita e o rosto sujo de guache, conseguiu ler uma frase pintada no chão: é preciso ousar. Poucas palavras e muita profundiade.

Desde o início das aulas ouvia-se um nome que se fazia acompanhar com tom e postura de respeito: Milton Santos. Com o tempo, descobriu de quem se tratava. Baiano de Brotas de Macaúbas, Milton Santos era um senhor que sempre andava de terno e gravata, sorridente e com uma elegância que poucos conseguem apresentar espontaneamente.

Milton de Almeida Santos concluiu seu doutorado em Strasbourg, na França, em 1958. Em 1964 teve que sair do Brasil. Não servia para dar aula no país que os militares prometiam melhorar. Mas serviu para dar aula na França. Também em Toronto. Serviu também para o MIT. Atuou na África, trabalhando na Tanzânia. Prestou serviços para a Organização Internacioanal do Trabalho, OIT. O mundo respeitava Milton Santos. Menos os chefetes políticos do seu país. Um armênio, Armen Mamigonian, e um árabe, Aziz Ab Saber, o convenceram a dar aula no Brasil, na USP. E finalmente o Brasil recebeu definitivamente o grande mestre.

Na França havia estudado três cidades: Salvador, São Paulo e Paris. Das comparações que fez, tirou conclusões que podem ajudar a interpretar o mundo, rico ou pobre. Era fascinado pela eficiência do correio brasileiro. Muito rígido, impunha horas de estudo rigoroso a quem quisesse acompanhá-lo. O palpiteiro conhece um desses herdeiros do Milton Santos e garante que quem com ele conviveu teve que ter disciplina nos estudos.

O mestre era otimista. Acreditava que as mudanças que tornariam a vida melhor viiram maius cedo ou mais tarde. Apostava na resistência dos mais fracos e debochava da miopia social da classe média. O palpiteiro já escreveu algo sobre isso em 27/12/06. Ao rever o palpite passado se assustou quando percebeu que escreveu em letras maiúsculas: "A MUDANÇA PELA ESCASSEZ". Milton Santos estava mais presente do que ele imaginava.

Hoje há um documentário em cartaz sobre ele chamado: "Encontro com Milton Santos ou o mundo Global visto pelo lado de cá". Coisa boa. Fernanda Montenegro, Osmar Prado e outros como Caetano Veloso não dariam seus nomes a persongem que não merecesse. O filme é bom e útil para quem quiser pensar. Pode emocionar. Mas pode dar sono a quem não tiver um grama de solidariedade.

Alguém disse certa vez que "apenas os gênios vêem o óbvio". Milton Santos leu, estudou, viajou, pensou, debateu, brigou, deu entrevistas e se calou por momentos para chegar a uma simples conclusão: "um outro mundo é possível". Sim, tratava-se de um gênio que sabia que num mundo pautado pela mediocirdade era preciso ousar. Ousar em sonhar. Ousar em ter esperança.

Saturday, July 07, 2007

À espera de Harry Potter

Há alguns anos esse palpiteiro ouviu falar de um tal Harry Potter, um fenômeno da literatura infanto-juvenil. Foi num verão, numa praia, que o palpiteiro viu quatro crianças brigando para dividir o tempo de leitura do livro. Haviam combinado que cada um teria 20 minutos de leitura, pois tinham apenas um livro. Praia linda, limpa, uma casa com piscina e crianças brigando por leitura... O palpiteiro teve que reconhecer que a autora do livro tinha mesmo poderes mágicos. Respeito é bom e todos nós o apreciamos.
Estamos a poucos dias da estréia do mais recente filme de Harry Potter. Produzido pela Warner, o filme é garantia de sucesso de bilheterias. Espaços comprados em Tele-jornais e revistas de grande circulação garantem uma sensação coletiva de ansiedade, necessária a venda de ingressos...
Mas há algo muito maior em Harry Potter do que apenas um sucesso comercial. A história é boa e a autora dos livros digna de respeito. J.K. Rowling deu aula de inglês na cidade do Porto em Portugal. Sabe ler em português e trabalhou na Anistia Internacional. Dizem que teve uma briga feia com seu marido português que a agrediu e a expulsou de casa. Rowling voltou para o Reino Unido onde se dedicou a escrever a história do jovem bruxo.

Saber um pouco da trajetória da autora nos dá a possibilidade de aprendermos mais sobre Harry Potter. Ela apreciava em Portugal ler o Jornal Brasileiro o Pasquim, periódico famoso por seu papel durante a ditadura, com uma linha editorial bem-humorada e crítica, num tempo em que a “grande imprensa” se calava por obrigação da censura ou por conivência com o regime de exceção. Quem assistiu ao filme ou leu o livro sobre o “Cálice de Fogo” viu o incômodo que uma repórter causa a Harry por distorcer as informações que o bruxo dá em entrevistas.

J. K. Rowling sabe provocar sugerindo, sendo militante sem ser panfletária. Na escola dos estudantes de bruxaria há a divisão em casas. Sabe-se que os bruxos do mal têm em comum o fato de serem da casa “Salazar Sonserina”. Identificar a origem do mal com um nome desses é natural para quem viveu em Portugal e soube da ditadura de Salazar. Neste caso, valeu menos a história de Portugal e muito mais um manifesto contra todas formas autoritárias de governo.

Um certo Walldemorth é um bruxo cuja volta aterroriza o mundo dos bruxos. O bruxo do mal defende a idéia da bruxaria praticada somente entre bruxos de “sangue puro”. Um certo Draco Malfoi é um garoto que segue esse pensamento. Malfoi é loiro e debocha dos personagens que são pobres ou de “sangue ruim”, como os amigos de Harry, Ermionne e Ronny. Impossível não associar a idéia de “pureza” de sangue de Malfoi ao discurso nazista de “raça-pura”. Experimente trocar o nome de Walldemorth por Hitler e descubra que o mal é muito mais terreno do que parece no mundo da fantasia.

A história de Harry Potter prende a atenção por ser bem contada. É um anti-herói pobre e modesto. Seus amigos vencem pelo estudo, lealdade e ética. Para J.K. Rowling não é o sangue, a raça, a origem familiar ou a cor da pele que definem uma pessoa, mas sim o seu caráter. A autora soube contar uma história bonita e interessante, em que a mensagem deixada por Mantém Luther King não ficou desagradável. Muitas mensagens podem ainda ser tiradas de um mundo criado por uma escritora que demonstra preocupação ao escrever para crianças e jovens. Conhecer o mundo de Harry Potter é saber que lidar com crianças e adolescentes requer seriedade. Pena os autores de Malhação serem tão atarefados com enredos que visam despertar o consumismo, o sexo, o narcisismo e a superficialidade. Harry Potter também passa mensagens. Não sabemos se por sua origem britânica o faz com classe e elegância. Temos apenas a certeza de que ter compromisso com a ética e mensagens dignas não exige nenhum tipo de bruxaria. Ainda que se recorra a ela como pretexto em romances agradáveis e divertidos.
Muitas crianças e jovens de vários países aguardam a estréia do mais novo filme. Há adultos também. Entre pais, tios e tias, padrinhos e madrinhas estão adultos que admiram boas histórias. Sejam para diversão, sejam para posteriores palpites...

Tuesday, June 05, 2007

Darwin é o cara

O palpiteiro foi conhecer no Masp algo sobre a vida daquele que mudou a forma de entender a vida de todos aqui na Terra: Charles Darwin. Manuscritos, fotos, ilustrações e muitos painéis para informar quem foi o homem. O palpite no dia foi: “Darwin foi O cara...”

Darwin era rico e descendente de uma família que prezava o conhecimento. Gente que o historiador Hobsbawm chamou de “burguesia progressista”. Pessoas de posses que destinavam parte de suas riquezas para o conhecimento. Humboldt na Alemanha, antiga Prússia, foi um desses exemplos, assim como Engels mais tarde. O próprio Santos Dumont foi um exemplo raro de uma família rica brasileira que seguiu parte desse caminho. Eram ricos diferentes, pois queriam algo imaterial, como o reconhecimento por suas idéias e atos. Diferentes de muitos ricos do século XXI que buscam reconhecimento apenas pelo que podem comprar. A Daslu aqui no Brasil é um notório exemplo. Uma repórter de Nova York chegou a escrever que a Daslu era um contraste num país onde a miséria das ruas só não era maior do que a indigência intelectual de suas clientes.
No século XIX, Darwin foi um gênio que até hoje dá o que falar. Sabia que sua teoria incomodaria e gastou décadas para aprimorá-la e então divulgá-la. Havia sido preparado durante a sua juventude para ser pastor e tinha consciência do quanto sua teoria poderia irritar alguns religiosos. Um tal Wallace, mais pobre e não menos genial, aproximou-se bastante da teoria de Darwin. Uma saudável competição motivou Darwin a publicar sua teoria. Ambos se respeitavam e Wallace teve a grandeza para reconhecer a maior consistência dos estudos do seu colega mais velho.
Conhecer essa história nos dá a chance de imaginarmos outras utilidades para o dinheiro. Carros e roupas envelhecem ou saem de moda. Podem morrer como seus donos, antes ou depois. Já disseram que os diamantes são eternos, mas depois de cem anos, ninguém se lembra de quem os lapidou ou os comprou pela primeira vez.

As idéias de Darwin e Wallace foram o grande passo para uma corrida que, iniciada no século XIX, ainda não cessou. Vacinas e antibióticos foram criados, mas precisam constantemente de atualização, pois vírus e bactérias podem também evoluir.

Assim a teoria da evolução das espécies nos possibilita a entender a vida como ela se manifesta: sempre dinâmica. Mais do que a própria teoria, talvez haja a possibilidade de aprendermos com a história de Darwin. Aprendermos e assim educarmos nossos ricos do século XXI, pois há muitas formas de se aproveitar a riqueza, como por exemplo, aprender com a vida.
Nota: A exposição de Darwin está no Masp e me parece que fica até o dia 14 de junho de 2007. Com carteirinha ou carteirada do estudante se paga R$7,00. Mesmo pagando-se o dobro é certeza de economia, pois parte do acervo pertence ao Museu de História Natural da Inglaterra. Ir a Europa para conhecer a história do homem das espécies certamente sairia mais caro...

Tuesday, April 10, 2007

Falando da vida alheia: Florestan Fernandes

Florestan Fernandes nasceu em 22 de julho de 1920. Era filho de uma mulher pobre que ganhava a vida como lavadeira no bairro do Brás, em São Paulo. Apesar da pobreza, Florestan teve um gosto especial para a leitura. Teve que trabalhar desde criança, razão pela qual não pode concluir os seus estudos. Assim, sua história não foi muito diferente das de muitos brasileiros pobres que não puderam terminar seus estudos. Mas Florestan foi um brasileiro diferente.
Quando trabalhava de garçom num restaurante do centro de São Paulo, despertou a curiosidade de alguns estudantes de direito da USP, lá no Largo São Francisco. Um garçom diferente. Educado, Florestan trabalhava com sobriedade. Mas sempre que podia, pegava um livro e se dispunha a ler, aproveitando as horas de menor movimento. Os estudantes se aproximaram de Florestan, tornando-se seus amigos e motivando-o a terminar sues estudos. Florestan Fernandes fez um curso supletivo para terminar o que hoje chamamos de Ensino Médio e, na época, Madureza. Florestan estudou mais e se formou mais tarde em Sociologia. Entrou na USP. Foi colega de curso de um jovem de origem libanesa chamado Aziz Nacib Ab’Saber. (ESSE PALPITEIRO ESCREVE AGORA COM BASE EM TUDO O QUE SE LEMBRA DE UMA PALESTRA DADA PELO PRÓPRIO AZIZ, SENDO QUALQUER IMPRECISÃO FRUTO DE LÁPSOS DE MEMÓRIA...).
Aziz disse certa vez que a amizade com Florestan surgiu naturalmente, diante das circunstâncias. Aziz não era tão pobre, mas era “turco”, tinha dois metros de altura e um inconfundível sotaque do interior de São Paulo. Era tímido. Aziz e Florestan sentavam-se próximos nas aulas do professor francês Roger Bastide. Eram tempos em que a USP tinha professores franceses que davam aulas em francês. Aziz às vezes não entendia alguma passagem da aula do professor Roger e se socorria com o colega. Florestan não se limitava a traduzir a aula. Em francês, aprofundava o que o professor havia dito, chegando ao cúmulo de corrigí-lo algumas vezes. Tudo em voz baixa... Bastide logo percebeu a inteligência do rapaz e o preparou para ser professor da USP. O filho da lavadeira pobre substituiu o professor francês. Devemos essa a Bastide...
Como professor, Florestan percebeu algo de genial num jovem estudante, chamado Fernando Henrique Cardoso. O filho da lavadeira que havia se tornado professor da USP não era preconceituoso e por isso deu grande ajuda para o desenvolvimento do filho do General, ex-aluno do tradicional colégio jesuíta São Luis, de São Paulo.
Mais tarde Fernando Henrique se tornou também professor da USP e, assim como Florestan, cassado após o Ato Institucional número 5, o famigerado AI-5. A história do Fernando Henrique muitos sabem, foi para a França. Curiosamente, poucos falam sobre Florestan. O “comunista” Florestan foi muito bem recebido nos EUA e deu aula na Universidade de Colúmbia. Os EUA podem ser qualquer coisa, menos burros. Viram o tesouro de conhecimento que era Florestan e o aproveitaram. Azar do Brasil, que por ter uma ditadura estúpida o perseguiu. Azar de quem não pode ter aula com ele na USP.

Florestan voltou ao Brasil, mas não à USP. Foi dar aula na PUC. A USP reconheceu mais tarde o valor do professor e o homenageou como “professor emérito”, título que poucos podem ter. A recém-inaugurada biblioteca de Ciências Humanas da USP fez uma exposição sobre Florestan, que dá nome ao novo prédio. Numa das fotos da exposição, uma linda e simbólica foto de Florestan abraçando o amigo Aziz Ab’Saber por ocasião do título de professor emérito.

Florestan se elegeu deputado pelo PT em 1986. O mesmo Florestan que antes, em 1977 foi dar aula em Yale, Universidade que forma a elite dos EUA. Aquela por onde andaram Bil Clinton e o tal George W. Bush. Florestan não servia para a ditadura, mas serviu para Yale... Como deputado, foi uma das referências para a elaboração da nossa Constituição. Os embates foram fortes e o professor funcionava como uma bússola em meio a tantas leis e projetos.

Mais tarde, Itamar Franco deu uma honraria da República, reconhecendo o valor de Florestan. Florestan apoiou Lula em 1994, mas quem levou a presidência foi seu antigo aluno, agora “FHC”. Para ele, Fernando. Florestan foi implacável nas críticas a Fernando. Fernando, agora FHC, sabia a profundidade e o alcance de cada uma delas. Florestan estava velho e doente do fígado. FHC deixou as divergências políticas de lado. Propôs a Florestan que se tratasse nos EUA. Deixou claro que o professor tinha esse direito, dada a prerrogativa da honraria que Itamar o havia concedido.

Florestan agradeceu e mandou dizer que era apenas um funcionário público como outro qualquer. Sugeriu que Fernando melhorasse a saúde pública brasileira, de modo que qualquer cidadão pudesse dignamente ser tratado no próprio país. Florestan foi operado e morreu. Morreu em agosto de 1995, com a dignidade que poucos no Brasil podem até hoje sustentar. Morreu digno e coerente ao que defendia. O professor Florestan era muito mais do que um garçom diferente: era um brasileiro diferente na suas atitudes e na sua importância. Até hoje pode ser considerado uma bússola...

Friday, March 16, 2007

SÃO PAULO, AS CHUVAS E AS TRÊS GRANDES BOBAGENS

Esse palpiteiro vive no hemisfério sul, ganha a vida dando aulas de Geografia e aprendeu antes de entrar na faculdade que em Dezembro se inicia o verão em São Paulo. Com ele as chuvas.
Para quem não conhece, São Paulo tem como marco inicial de sua formação o que chamamos hoje de Pátio do Colégio, um lugar onde os Jesuítas iniciaram um processo de aculturação e envangelização de índios. Quem for até o local, verá que fica numa área mais elevada do que o Tamanduateí. Além de estratégico para a defesa - afinal nem todos os índios queriam ser evangelizados...-, o lugar estava livre das inundações do verão, quando o tal rio transbordava. Pode-se dizer que esse foi o padrão de formação de São Paulo: áreas mais elevadas, como os topos de morros. Alguém que viesse à São Paulo do início do século XX observaria à noite não uma cidade contínua, mas várias. Cada topo de morro das áreas mais centrais com luzes acesas e vales inteiros ainda com a vegetação original, escuros.
Mas a cidade cresceu e foi se expandindo para as áreas disponíveis. Os vales foram gradativamente ocupados por casas e ruas. Os mais ricos- como reza a tradição - ocuparam os melhores lugares, ou seja, aqueles que não inundavam. Os mais pobres... E esse processo foi rápido: São Paulo tinha cerca de 100 mil habitantes em 1900. Hoje conta com mais de 10,5 milhões. Para compararmos, Londres hoje tem cerca de pouco mais de 7 milhões de habitantes, datando aproximadamente do ano 50 D.C. . Crescemos mais em menos tempo. E com menos dinheiro...
Uma grande característica da cidade de São Paulo foi a prioridade dada ao automóvel. Londres, Paris, Nova Iorque e Buenos Aires já tinham metrô quando os dirigentes de São Paulo optaram pelo carro. O Túnel da 9 de Julho, as grandes avenidas como a 23 de Maio e a Paulista são exemplos dessa tara pelo rodoviarismo.
Mas o exemplo maior dessa forma de crescimento da cidade está nas avenidas Marginais do Tietê e do Pinheiros. Geometricamente uma boa idéia. Duas grandes avenidas expressas, ao estilo das vias americanas, conduzindo os fluxos de automóveis nos sentidos norte-sul e leste-oeste. Para alguns poucos a idéia foi melhor ainda. Bastava construir as marginais bem próximas aos rios. Quanto mais próximas, mais espaços da várzea para serem valorizados e vendidos. Assim, foi um bom negócio comprar um brejo antes da contrução e vender depois um terrenão valorizado. Para isso era preciso apenas saber onde seriam construídas as avenidas, comprar o brejo, vendê-los e dar uma porcentagem do ganho ao político que deu ou vendeu a informação. Tudo isso sem meter a mão diretamente nos cofres públicos, mas fazendo a prefeitura dar lucro. Para poucos.
Faltou apenas combinar com as chuvas. Desde o tempo do Anchieta - o tal padre evangelizador - se sabia que as várzeas inundavam no verão. Ninguém em perfeitas condições de sanidade mental construiria em lugares inundáveis. Sobrava espaço então para o futebol. Campos de futebol às margens dos grandes rios e de seus afluentes. E assim, talvez nenhuma expressão seja tão paulistana quanto a do "futebol de várzea"... Mas nem todos dispunham de sanidade mental. A ganância para a obtenção de ganhos com obras superfaturadas, assim como a prática da especulação imobiliária com brejos loteáveis fizeram essa cidade que se orgulha de ser a maior do país se tornar refém de qualquer chuva mais forte.
A cidade continou crescendo e novas áreas foram ocupadas. Outro fenômeno se deu então. Simultânea à tara que São Paulo desenvolveu pelos automóveis, tivemos a fobia por terra. Toda e qualquer área com "mato" passou a ser cimentada. Esse palpiteiro ainda se lembra de sua infância quando visitava casas com quintais enormes cobertos com um piso de cerâmica bem vermelha. A moda passou e hoje é mais elegante ter pisos de ardósia no quintal, com a churrasqueira no fundo. Terra? Isso é coisa de pobre e "dá muito trabalho". Com tantas áreas cimentadas e com tanta ardósia, a água tem cada vez menos lugares para se infiltrar. Os geógrafos americanos estudaram muito isso e chamam de runoff o escoamento superficial de águas como as das chuvas. Menos terra, maior o runoff. Ou o escoamento superficial.
Bingo!! Conseguimos duas grandes bobagens num só processo: avenidas construídas em várzes de rios que se enchem muito rápido com um fluxo de água que não tem mais tanto espaço para se infiltrar. Enchentes.Mas faltava ainda a terceira grande bobagem. Como descrever tudo isso. Num país com péssima qualidade ensino, a geografia para muitos se limita ao conhecimento das capitais dos países ou para um bom desempenho no "Show do Milhão". Tentar compreender o uso do espaço pela sociedade e como esse tipo de uso pode comprometer nossa qualidade de vida se tornou conversa de chatos. Assim nasceu a terceira bobagam: jornalistas que explicam esses problemas apenas pelas chuvas. Exemplo dessa grande asneira são manchetes do tipo: "chuvas castigam São Paulo". Ou ainda sermões ridículos de jornalistas ignorantes que acreditam seriamente que a culpa pelas enchentes é de "quem joga lixo no chão". Na ignorância do jornalismo paulista reiside a confortável omissão frente aos reais problemas que afetam a cidade durante as chuvas de verão.
Alguns insanos chegam a utilizar o termo "caos urbano". Como se essa monstruosidade que construímos não tivesse nenhuma lógica. A lógica do ganho com a venda de carros, a especulação imobiliária e o superfaturamento na construção de ruas e avenidas nos explica muitos dos nossos problemas. Culpar a natureza pode ser muito mais do que ignorância. Atribuir a "São Pedro" ou a qualquer outra entidade espiritual as causas de nossos problemas não deixa de ser um ato de fuga e ou covardia. E enquanto combinarmos ignorância e covardia seremos bombardeados com essa pérola do jornalismo que se repete todos os verões: "CHUVAS CASTIGAM SÃO PAULO"...

Tuesday, February 06, 2007

Kassab cassou o debate

Quando o palpiteiro ingressou na Universidade em 1993, seguiu um conselho: assistir palestras. Descobriu o debate. Foi na universidade que o palpiteiro descobriu essa prática interessantíssima. Uma ou duas pessoas falam por alguns minutos, às vezes um hora, outras vezes até duas, dependendo da importância dos debatedores. Aí então a gloriosa sessão de perguntas. Ninguém é mais importante que ninguém. Uma pessoa habilidosa pergunta já provocando. O debatedor, se também for habilidoso, responde com ironia redobrada. Bons debatedores sabem agitar a galera. E, claro, a galera quer ver o circo pegar fogo. Vale quase tudo. Ironia, cara feia, emoção, indignação, raiva. Mas uma regra é fundamental: respeitar o direito do interlocutor se manifestar.
Foi assim que o palpiteiro viu um debate entre Mário Covas e Roberto Requião, durante a campanha entre Parlamentarismo e Presidencialismo, em 1993. Também viu Marilena Chauí, numa aula inaugural, debatendo com quem quisesse se manifestar o tema cultura e racismo no Brasil. A mesma Marilena Chauí que debateu a eleição presidencial de 1994 com Eva Blay. A primeira defendendo Lula, a segunda, defendendo Fernando Henrique Cardoso, pois era suplente dele naquele ano. Mais tarde o palpiteiro viu o candidato Lula debatendo com alunos curiosos questões sobre política, ideologia e rumos para o Brasil. Mas nenhum desses debates chamou tanto a atenção do palpiteiro quanto Aziz Ab’Saber e Fábio Konder Comparato. O primeiro, Geógrafo reconhecido internacionalmente, é capaz de arrancar lágrimas e gargalhadas em questão de poucos minutos de fala. Sua capacidade impressiona por adequar a fala ao tipo de público a que se dirige. Aziz é capaz de impressionar tanto professores doutores num auditório da USP, quanto qualquer um que assista a uma passeata da qual ele faça parte. O palpiteiro viu as duas situações... Fábio Konder Comparato faz mais o estilo do comedimento. Tem fala suave e postura acadêmica. Talvez o doutorado em Direito em Paris, tenha-o influenciado nesse sentido. Ab’Saber e Comparato fizeram um debate na Faculdade de Economia da USP certa vez. A mesma onde também estiveram tantos debatedores, como Aldo Rebelo e Delfim Neto. Por razões desconhecidas, o debate com Aziz e Comparato foi mal divulgado. Apareceram cerca de dez pessoas. Entre elas um palpiteiro em formação. Havia dúvida se o debate ocorreria. Os dois debatedores surpreenderam. Ao invés de se despedirem e voltarem tristes para casa pediram permissão para fazer algo diferente: descerem as cadeiras do palco e fazer um debate mais informal. Uma conversa com cerca de 15 pessoas em roda. Foi uma das maiores demonstrações de humildade e respeito que esse palpiteiro testemunhou. Um geógrafo disputado entre França e EUA e o advogado de acusação contra Collor no processo de impeachment conversando com simples estudantes de graduação. A regra foi respeitada. Exposição dos debatedores e perguntas de uma platéia de 13 pessoas. Respeito à regra e às pessoas que quisessem se manifestar. Nada de especial. Apenas uma questão de civilidade.
Anos mais tarde, houve uma discussão acalorada na Faculdade de Humanas da USP. A discussão era sobre o fechamento do acesso ao prédio. A TV Globo cobriu o primeiro dia de discussões. Apresentou uma matéria completamente distorcida no seu jornal SP TV. Muitos ficaram indignados com a atitude da emissora. Dias depois, novas discussões. Uma equipe de reportagem da Globo apareceu. Imediatamente, alguns alunos se manifestaram contra ela gritando “fora satanás”... A equipe da emissora ficou preocupada. Democraticamente a galera colocou em votação a presença da Globo no auditório. Ganhou o não. O palpiteiro comemorou como uma criança idiota uma vitória que foi motivo de vergonha. Regina Sader, professora cassada no período da ditadura, estava ao lado do palpiteiro. Ela não viu a euforia com a qual o palpiteiro comemorou a expulsão da Globo. Apenas olhou e disse: “Que absurdo! Lutamos tanto pela liberdade de expressão e agora não permitimos o trabalho de uma canal de televisão...” O palpiteiro acenou com a cabeça, ao mesmo tempo concordando e se sentindo um lixo anti-democrático pela atitude imbecil. Lembrou-se então da lição dos franceses: “posso não concordar com nenhuma palavra do que você fala, mas defenderei até à morte o direito de dizê-las”. É assim que aprendemos a conviver. Lição essa que vale para todos, palpiteiros ou não.
Vale até para quem se julga acima das pessoas comuns, como esse tal prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab que ontem expulsou aos berros um idoso que se manifestou contra ele. O debate é uma prática humana que vem de tempos muito antigos. Sobreviveu ao fim da Grécia Antiga. Sobreviveu ao Império Romano. Resistiu à repressão religiosa da Idade Média. Venceu tanto a ditadura soviética quanto as ditaduras do Nazismo na Alemanha e do anti-comunismo de Argentina e Brasil. A necessidade e a força do debate resistem ao tempo e às pessoas que a ele se opõem. Kassab haverá de passar. Que fique o debate...

Wednesday, January 31, 2007

27 de Janeiro

Com tanta poluição noticiosa, às vezes somos levados à busca incessante pelo que acabou de acontecer. Ao ficarmos sabendo do fato mais recente já nos preparamos para o seguinte, sem nos darmos conta de que acompanhamos muito apreendendo pouco. Nesse turbilhão de notícias das últimas semanas uma data foi pouco lembrada: 27 de janeiro. Neste dia, em 1945, tropas soviéticas liberaram o campo de Auschwitz.
Tratava-se de um complexo militar-prisional onde pessoas eram presas, submetidas a trabalhos forçados e exterminadas. Era um complexo, pois envolvia tanto a prisão quanto o extermínio e o trabalho escravo. Já houve um tempo em que esse palpiteiro buscava informações sobre as atrocidades praticadas nos campos de concentração do nazismo. Nessa busca, o palpiteiro aprendeu que os judeus assumiram o compromisso de jamais esquecer. Seja pela memória dos que morreram, seja pelo sofrimento daqueles que sobreviveram ou tiveram seus parentes assassinados. Há pelo menos uma década e meia o palpiteiro tem procurado ir além das meras descrições. E a pergunta principal é: por quê?
Uma explicação é a desumanização da pessoa, e aqui devemos a aula a Hanna Arendt. A base das atrocidades praticadas contra a humanidade no século XX foi justamente uma visão na qual a pessoa aparece como massa, nunca como indivíduo. Assim, quando colocados no coletivo, não são assassinadas pessoas, mas grupos. Por exemplo: nessa visão, não foi a Anne Frank e nem a Olga Benário que morreram em campos, mas simplesmente “judias”. Do mesmo modo, não foi alguém em especial que assassinou pessoas, mas sim “os nazistas”. O palpiteiro achou genial essa explicação, pois é humana. Imagine que um idiota qualquer como um pacato covarde, cumpridor de suas obrigações na escola, no trabalho, na igreja ou na família. Imagine esse mesmo idiota vestindo uma camisa de alguma torcida organizada. Seja lá qual for. “O médico e o monstro”. Grande transformação. Coletivamente, o idiota sente-se forte. Imbatível, já não mais atende por si, mas pelo grupo ao qual integra, com grande euforia. Mas a euforia é ainda mais fermentada se envolver ódio. Daí a necessidade de uma torcida adversária. Esse palpiteiro já viu muito desses idiotas na vida. Se alguém quiser comprovar faça uma experiência simples. Aproxime-se do infeliz e demonstre interesse pelo grupo ao qual ele se orgulha em fazer parte. Ficará mais convincente se puder escolher alguém de uma torcida do time pelo qual você mesmo gosta. Seja bom ouvinte. Com tempo, tente separar as histórias banais, das histórias que envolvem as brigas contra pessoas de outras torcidas. Não se assuste se notar um forte brilho nos olhos do idiota-covarde-brigão. Pronto, você não está mais diante de um indivíduo, mas de um fragmento de massa...
O problema será se você achar que todo membro de torcida organizada é por princípio um idiota-covarde-brigão. Daí ele poderá também lhe analisar e você poderá ter uma grande surpresa ao saber como é fácil pensar como massa e classificar os outros como grupo e nunca como pessoas.
Agora imagine essa forma de pensamento num exército. Bandeiras gigantes e marcha sincronizada e, claro, um líder raivoso para agitar toda a galera... Esse palpiteiro descobriu que é muito fácil chamar Hitler de louco e imaginar um país inteiro como a Alemanha se comportar como os ratinhos que seguiram o flautista da história infantil. Houve quem concordasse, quem lucrasse e quem apenas se omitisse diante de tal acontecimento.
Tentar entender como tudo isso aconteceu é não esquecer Auschwitz. Admitir que nossa condição humana nos permite ver o outro e a nós mesmos como parte de grupos e não como indivíduos é não esquecer que Auschwitz pode voltar com outros nomes, em outros lugares. Pode voltar no Iraque, pois não seriam crianças morrendo, mas “insurgentes”; pode ser no sul do Líbano, pois não seriam velhinhos mortos em casas bombardeadas, mas “terroristas”; pode ser no Capão Redondo ou na Brasilândia em São Paulo, onde no lugar de jovens mulatos mortos pela PM teríamos “bandidos”. Lembrar Auschwitz é pensar que não se trata apenas de um lugar, mas sim de uma prática. E reconhecer essa prática é um dos primeiros passos para evitar sua repetição. Jürgen Habermmans disse que “não é estúpido acreditar que existam neonazistas na Alemanha mas que existam APENAS na Alemanha”. Foi pensando nisso que lembramos 27 de janeiro de 1945. o “por quê” de Auschwitz seguramente tem muito mais do que essa explicação. Um dia palpitaremos sobre mais algumas.

Saturday, January 27, 2007

Roubando o Ibirapuera

Espaço público deve ser destinado ao interesse público. Isso é óbvio, mas não nem sempre verdadeiro. Quem assistiu a Copa de 2006 pela televisão entende isso. Um grande evento numa Alemanha cheia de histórias. Tentativas de revoluções, guerras e o nazismo, ensinaram a Alemanha que não se pode ignorar o próprio povo em nome de “interesses maiores”. Por isso aquelas cenas de praças lotadas com grandes telões para todos assistirem os jogos. Bastava arranjar um lugar na praça e se divertir. Dinheiro? Apenas para a cerveja e o salsichão... Os alemães gastaram muito dinheiro público para o evento. Não dava para deixar o povão de fora. Por mais ricos que eles sejam, foi preciso garantir ingressos aos estrangeiros e aos patrocinadores, o que excluiu muitos interessados do país em assistir os jogos. Como incluir o povão na festa? Telões.

Mas São Paulo é diferente. O palpiteiro foi até o Parque do Ibirapuera em 26 de janeiro de 2007. Aniversário de 50 anos do planetário. Mas também teve um troço chamado “São Paulo Fashion Week”. Seja lá o que for isso, foi um evento privado, para grandes empresas e para imprensa, e não para o povão. Estacionamentos reservados aos tais “vips”, pretensas modelos com botas de inverno no verão paulistano com 27 graus de temperatura e...Nada para quem quisesse apenas ir ao parque.
O mais interessante é que o evento é mostrado como se fosse algo grandioso para a cidade. Ninguém discute a importância econômica, os empregos gerados e etc... Mas com tanta grana rolando, não dava para ser num espaço privado, longe de quem quisesse apenas passear num parque público de uma cidade com tão poucas opções de lazer público de qualidade? O palpiteiro questionou uma autoridade municipal que por acaso estava no Planetário para as comemorações do dia 26 de janeiro. O tal Eduardo Jorge disse que o palpiteiro tinha razão. Explicou que era mesmo um absurdo a Fundação Bienal alugar seu espaço para a São Paulo Fashion Week. Acrescentou que além de não pagar nada à população de São Paulo, ainda a Prefeitura de São Paulo arcava com os custos de segurança, organização do trânsito etc... O palpiteiro perguntou se não tinha alternativa para reverter isso. O tal Eduardo Jorge disse que tinha, mas exigia uma licitação na qual a Fundação que controla a Bienal talvez pudesse perder.

O palpiteiro ainda não entendeu qual o problema da Bienal perder o seu espaço. Tendo tamanha importância, seria razoável imaginar que alguém com muita grana pudesse ajudá-la. Enquanto isso não acontece, não há licitação. A Bienal de São Paulo não perde seu espaço e a São Paulo Fashion Week continua com um espaço público de área verde reservado aos seus interesses privados, por um preço baratinho. Como podemos ver, há quem ganhe com tal situação. Quem perde? O cidadão que acredita que parques públicos municipais sejam de fato destinados à população...

Foi nessas circunstâncias que o palpiteiro viu um tal Kassab em frente ao Planetário. Parece que é o prefeito de São Paulo. O palpiteiro não resistiu e disse algumas palavrinhas nada doces ao senhor prefeito. Seus assessores e seguranças olharam feio. O prefeito deu uma risadinha amarela, foi embora e a cidade continuou a perder o parque do Ibirapuera...

Thursday, January 18, 2007

Any e a tragédia espetacular

Todo jornalista em começo de carreira aprende que “notícia é quando um homem morde um cachorro e não o contrário”. Uma criança morta por um cão feroz não teria o mesmo apelo que “homem mata pit bul a dentadas...” Tanto quanto a informação precisa e imparcial - seja lá o que for isso...- é preciso ter o talento para chamar a atenção daqueles a que se destinam as notícias e, assim, vender mais jornais, revistas ou aumentar a audiência do rádio, televisão e Internet. Mudam os meios de informação, mas no geral o objetivo é o mesmo: despertar o interesse pela notícia. Em tempos de férias surge o problema. As pessoas querem se divertir, viajar, namorar mais. Janeiro no Brasil é assim. Não é por outro motivo que o ano para as emissoras de televisão como a Globo começa em abril, início de outono e certamente pós-carnaval. Esse palpiteiro mesmo conseguiu ficar dez dias sem qualquer acesso a veículos de informação, no tradicional esforço de desintoxicação informacional que realiza sempre que possível, geralmente em Janeiro. Assim, ficou sabendo que um buraco engoliu terra de suas bordas e fez desaparecer um micro-ônibus com algumas pessoas dentro, além de outros desafortunados que estavam próximos ao local. Teve o conhecimento disso cinco dias mais tarde. Mas não deu outra: com três dias as coisas já estavam esfriando numa metrópole tão violenta como São Paulo e, uma tragédia como a que tivemos, gradativamente foi sendo incorporada na história e no cotidiano de todos. Porém a imprensa precisa de “notícias”. E junto com a terra movida pelos bombeiros, repórteres escavam fatos. É preciso piorar as coisas para que despertem a atenção de todos. Vale tudo: cenas de corpos cobertos em seu resgate e matérias sobre cadelas talentosas do corpo de bombeiros. Uma delas é chamada de Any, como soubemos nesses dias.
Esse palpiteiro passa com relativa freqüência na região do evento, já foi Office-boy e se formou em geografia numa Universidade banhada pelo rio Pinheiros. Mesmo após tudo o que apurou junto à imprensa, o palpiteiro ainda acredita que é mais perigoso ser roubado no Metrô que já funciona em São Paulo do que novas tragédias na parte em construção da dita linha Amarela. E numa quinta-feira chuvosa, o palpiteiro assistiu o filme “Os monstros estão de volta”, na sessão da tarde. Foi muito mórbida a situação na qual a Globo exibia um filme de comédia com a exaltação a cadáveres e assuntos fúnebres intercalando chamadas ao vivo do buraco, na qual um tal César Tralli tentava dar ar de seriedade e respeito ao andamento do resgate de alguns corpos da tragédia do Metrô. Também está sendo patética a forma pela qual Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo cobrem o evento. Manchetes já priorizam o termo “cratera”. Sim, não foi um buraco de uma obra do Metrô. Mas apenas uma cratera. Termo maroto esse. Preserva a companhia Pública responsável maior pelas obras e também o seu controlador, o Estado de São Paulo. O palpiteiro assume os riscos e questiona palpitando:

1) Um movimento de terras dessa magnitude não ocorre como avalanches de desenhos animados. Embora rápidos, há uma série de indícios que olhos atentos de engenheiros civis sabem identificar: fissuras no asfalto ou nas calçadas, por exemplo. Cá entre nós, se você fosse um engenheiro responsável por uma obra desse tamanho assumiria riscos? Arriscaria sua vida ou a de operários, sob a possibilidade de perder a própria vida ou a de responder processos por mortes de subordinados? Arriscaria perder o emprego por um incidente que chamasse a atenção da sociedade e que o tornasse um desempregado?
2) A segunda dúvida se relaciona à primeira: porque a única vítima entre os que trabalhavam na obra foi a de um caminhoneiro que voltou para pegar seus documentos? Teriam sido os outros avisados? Será que num buracão daquele tamanho não exigia a presença de NENHUM funcionário das empresas envolvidas? Sorte ou prudência de quem sabia que algo ruim poderia ocorrer?

Ao que parece, a imprensa quer fazer o homem morder o cachorro. Talvez a Any. Não nos parece que seja interessante questionar o cotidiano brasileiro de omissão de autoridades ou do poder que empreiteiras têm no país. Isso infelizmente nos indica que novas tragédias poderão ocorrer. E que a depender do nível de informação que a sociedade recebe, ficaremos mais no espetáculo da tragédia do que no combate àqueles que as causam. E coitados dos cachorros...

Saturday, December 30, 2006

Execução e farsa para Sadam Hussein

Quando acabou a Segunda Guerra Mundial em 1945 havia um sentimento mundial de alívio e esperança. O alívio se justificava pelo que representou aquela guerra, pois a humanidade provou definitivamente que podia matar pessoas em escala industrial. Em 27 de Janeiro de 1945 os soldados do Exército Vermelho da antiga URSS liberaram o campo de Auschwitz. Além das vidas dos presos que foram salvas, os soviéticos conseguiram um material muito precioso: filmes e documentos que provavam as execuções em massa feitas pelos nazistas. Esse material foi utilizado como provas contra os criminosos de guerra. Realizado em Nuremberg, o julgamento dos criminosos nazistas trazia uma carga enorme de simbolismo, uma vez que se tratava justamente da cidade onde Hitler anunciou muitas de suas leis racistas. Os nazistas julgados e condenados à morte foram enforcados, pois o fuzilamento é um ato digno entre militares e simboliza um certo respeito frente ao inimigo derrotado e que tem direito a uma morte rápida e sem sofrimento. O enforcamento é destinado a assassinos comuns. Além da execução, era preciso dizer ao mundo as razões pelas quais os nazistas foram condenados. Mas o problema foi jurídico. Como poderia haver legitimidade num tribunal de guerra no qual os vencedores julgaram os derrotados? Um tribunal penal internacional seria mais apropriado, mas não permitiria algo tão importante que é a demonstração de Poder dos vencedores. Mais do que justiça, os Aliados procuraram demonstrar força no julgamento de Nuremberg.

Entretanto a esperança foi fortalecida. Os EUA assumiram o discurso dos valores humanitários e, em que pesem os atos de hipocrisia e manipulação, ninguém pode negar a importância da sua participação na derrota alemã, assim como da URSS. Na guerra do Vietnã o feitiço virou contra o feiticeiro. Se para os nazistas os americanos quiseram encarnar o “bem”, no Vietnã assumiram o papel do “mal”, pois os abusos foram inegáveis. O massacre de My Lai se tornou tão simbólico quanto as imagens da menina vietnamita correndo nua e queimada pelo efeito da bomba de Napalm, o gel incendiário que os EUA lançaram sobre a população civil do país. Não é possível mobilizar tantos cidadãos nos EUA em nome da liberdade e da justiça durante a II Segunda Guerra e vinte anos depois praticar atos semelhantes no Vietnã. Deu no que deu, os EUA conseguiram uma forte oposição interna contra uma guerra tão sanguinária quanto inútil.

Desta vez é o Iraque. O país foi invadido em 2003 sem o consentimento do Conselho de Segurança da ONU. Nada prova que os EUA e o Reino Unido diziam a verdade quando alegavam que o país desenvolvia armas de destruição em massa. O governo de Sadam Hussein foi derrubado e o país ainda mais destruído, pois se tratava de uma terceira guerra desde 1980. Sadam foi preso. Um governo fantoche foi imposto ao Iraque. Os EUA afirmam que há legitimidade no novo governo, pois foi aceito pelos que votaram nas eleições que os próprios americanos organizaram. Faltou apenas convencer o povo iraquiano aceitar a legitimidade e honestidade de um governo que pode tudo no país, menos dominar o exército, obediente aos EUA, e controlar as reservas de petróleo, guardadas para futuros negócios... Ganha um Big Mac quem acertar quais empresas e qual o país serão privilegiados... Sadam foi executado hoje, sábado, às 6:00h no Iraque, 1:00h em Brasília. Tal como Nuremberg, o tribunal que o julgou declarou crimes contra a humanidade. Tal como Nuremberg, Sadam foi enforcado. O mesmo que teve apoio dos EUA na Guerra contra o Irã entre 1980 e 1988. Curiosamente, os crimes pelos quais Sadam Hussein foi condenado ocorreram no período em que recebia armamento e ajuda da CIA para conter o Irã. Tratava-se da Era Reagan, presidente morto recentemente e com o qual Sadam haverá de se encontrar no inferno. O vice de Reagan no período? George Bush, pai do atual Bushinho presidente dos EUA. Resumidamente, tivemos hoje a execução de um ditador assassino, condenado por um tribunal de um Estado governado por marionetes, que por sua vez estão a serviço de pelo menos duas potências que apoiaram Sadam no passado. E que o derrubaram com atos de força que ferem diversas leis e princípios internacionais, provocando a morte de tantas pessoas quanto Sadam provocou com suas armas químicas. Alguém já disse que a história sempre se repete, primeiro como farsa, depois como tragédia. Hoje tivemos a farsa.

Wednesday, December 27, 2006

A MUDANÇA PELA ESCASSEZ

Esse palpiteiro certa vez ouviu que somente os gênios vêem o óbvio. Embora não saiba ao certo a autoria da dita frase, sua simplicidade revela mais do que um fundo de verdade, sendo apenas genial. Um desses gênios que viram o óbvio foi Milton Santos. Em seus últimos anos de vida, adoecido por um câncer, Milton Santos deu muitas entrevistas, demonstrando a consciência de sua importância e a coerência de sua vida. Mais do que um geógrafo reconhecido pelo mundo, Milton Santos foi um professor.

Numa de suas muitas entrevistas Milton Santos disse que acreditava em mudanças e que por isso era um otimista. Disse que as mudanças viriam pela escassez e que a classe média haveria de aprender com os pobres a lidar com esse fenômeno. O professor sabia ver nos pobres a inteligência daqueles que têm de sobreviver com muito pouco. Para fundamentar o que dizia, apontou para as periferias das metrópoles. Esse palpiteiro, por exemplo, foi uma das testemunhas que viram um debate entre Milton Santos e Mano Brown na USP, ocasião em que o professor que já dera aula na França e no MIT, demonstrou grande apreço e respeito pelo poeta da periferia. Antes de tudo, Milton Santos via no rap uma expressão da linguagem urbana - metropolitana - que era mundial por abordar temas que eram também universais como pobreza, violência policial, desrespeito a direitos básicos, falta de moradia e etc. A escassez motiva o ser humano a mudanças. Talvez para melhor.

Desde então esse palpiteiro aprendeu a procurar em diferentes problemas alguns tipos de escassez que pudesse levar a mudanças. Na perspectiva de escassez de energia elétrica todos somos obrigados a adiantar o relógio em uma hora. Na escassez de espaço para a fluidez do trânsito de São Paulo, foi imposto um sistema de rodízio de veículos segundo os números das placas. Embora a instituição do rodízio tivesse sido motivada inicialmente pela poluição do ar. Ou melhor, pela escassez de ar respirável... O que mais despertou a atenção do palpiteiro foi o fato de serem medidas que, tomadas pela escassez coletiva, foram impostas a toda a sociedade. Ricos e pobres não têm alternativas: devem acordar mais cedo todos os anos e serem privados de circular com seus carros ao menos um dia da semana. Muitos são os exemplos de escassez cotidiana. Nos últimos meses, descobrimos a escassez de controladores de vôos e, por conseqüência, a escassez da pontualidade.

Assim, os sonhos desse palpiteiro têm sido direcionados pelos diferentes tipos de escassez. À escassez de mão-de-obra qualificada talvez tenhamos um dia um sistema público de educação mais decente. À escassez de boas condições de vida, talvez um dia tenhamos um saneamento básico melhor e um sistema público de saúde que de fato seja universal e digno. Na perspectiva de escassez de água potável, poderemos, quem sabe, ter práticas mais sábias de uso e conservação dos nossos rios. À falta de segurança, é possível que tenhamos melhores políticas de distribuição de renda, amparo social, moradia, lazer para os adolescentes e segurança pública, que deve sempre existir, mas que sabemos que é tão mais necessária quanto mais escassos forem os serviços e políticas de atendimento à população.

Na escassez de palpites que fossem apropriados para a véspera de mais um ano novo, segue a esperança de que, com tantos tipos de escassez, o ano de 2007 nos traga mudanças e que nunca se esgote nossa capacidade e disposição de nos indignarmos com o que é injusto, desonesto e desnecessário.

Thursday, December 21, 2006

A quem interessar possa...

Segue aqui uma sugestão de link. Um repórter da Globo escreveu uma carta explicando seu desligamento da emissora. Momento raro para entendermos algumas coisas da poderosa. O tom é de desabafo e a oportunidade excelente para reflexões. Meu palpite é simples: divulguemos.


Bom divertimento...

Wednesday, December 20, 2006

O ITA e o consumismo

Um aluno comentou com esse palpiteiro sobre a proposta de redação para o ITA 2007 que tinha como tema uma frase muito sugestiva: “Compro, logo existo”. O dito cujo estava apreensivo, pois embora a instrução da banca examinadora dissesse que critérios ideológicos fossem descartados, o aluno ficou cabreiro e disse que optou por uma crítica comedida ao capitalismo, sem qualquer conotação que o identificasse como “de esquerda”. Esse palpiteiro entendeu e concordou com a atitude do aluno, mas não sem ficar se questionando sobre que motivos levariam o ITA a propor tal redação. Antigamente –há muito tempo mesmo...- não havia vestibular para muitos cursos universitários. O aluno se inscrevia no curso que queria fazer. Marcava-se uma data para uma entrevista e numa conversa de cerca de meia hora o professor da instituição dava o resultado. Por ser aos sábados, esses exames -que na verdade eram entrevistas - ficaram conhecidos como sabatinas. Os tempos hoje são outros. Antigamente poucos terminavam o que chamamos de nível médio e por isso a entrevista se justificava. E se foi verdade que o número de pessoas com o ensino médio completo aumentou, o mesmo não ocorreu com o número de vagas nas universidades, pelo menos não na mesma proporção. Mas a tal sabatina era muito mais do que uma prova oral. O professor tentava avaliar também o aluno por outros critérios como capacidade de argumentação, pensamento lógico, retórica e postura. Não é preciso pensar muito que injustiças também foram cometidas, tal a possibilidade de julgamentos subjetivos predominarem em alguns casos.

Com tanta gente capaz de cursar uma universidade pública e com tão poucas vagas, as universidades optaram pelos tais exames vestibulares. Uma vantagem foi a possibilidade de se avaliar uma grande quantidade de alunos em menor tempo. Dentre as desvantagens estava o risco de aprovar alunos com posturas éticas discutíveis, pois nada impede que uma pessoa seja extremamente inteligente e mau caráter. Uma qualidade não elimina necessariamente a outra. Qual a solução? Muito simples: redação. Além de avaliar certos posicionamentos éticos, há a vantagem de se avaliar a capacidade argumentativa do candidato, além de sua lógica. Unicamp, Fuvest e o Enem estão entre aqueles que reconhecem o valor das redações. Por isso a escolha de temas polêmicos e por vezes espinhosos, como o que o ITA propôs para 2007.

Mas porque uma instituição ligada à Aeronáutica, historicamente anticomunista, daria uma chance dessas, de criticar o capitalismo? Armadilha? Só para lembrar, apenas recentemente o ITA reconheceu o direito de alguns alunos terem seus diplomas, pois foram perseguidos em 1964 e 1975 sob o rótulo de “comunistas”. Coisas das ditaduras... Por isso o incômodo para esse palpiteiro: por quê?

O ITA foi criado em 1950. O mundo ainda estava chocado com o fim da Segunda Guerra Mundial e mais ainda impressionado com o desempenho dos EUA e da URSS. Os EUA estouraram Hiroshima e Nagasaki com bombas atômicas que quatro anos antes eram apenas “uma teoria”. Com dinheiro e muita ciência aplicada, provaram ao mundo que conhecimento pode se traduzir em Poder. Os soviéticos seguiram o caminho. E o resto da humanidade também. Pipocaram universidades e centros de pesquisa em todo o mundo. Alguns países multiplicaram por mil vezes o que investiam em pesquisas antes da maldita guerra. E assim o mundo mudou, dada a quantidade de conhecimentos adquiridos em tão pouco tempo. Iniciamos a “era atômica”, cuja chamada “era digital” também é um subproduto. Mais do que isso, o ITA, a USP, a UFRJ, o INPE, o INCOR, a PETROBRÁS e outras instituições brasileiras ligadas a algum tipo de conhecimento, nasceram do desejo de criar algo próprio, moderno e genuinamente nacional. Mário e Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral plantaram as sementes, colhidas por tantos brasileiros ousados como Oscar Niemeyer, Aziz Ab´Saber ou Isaias Raw, respectivamente arquiteto, geógrafo e pai das vacinas brasileiras. Outro Brasil, que acreditava que seria possível importar idéias para soluções próprias. Antropofagia... O Modernismo nos propunha isso: só fazer.

Mas algo aconteceu e nos desviamos de um caminho interessante. Trocamos o só fazer do modernismo pelo Just do it da Nike. A maldita ideologia neoliberal da década de 1990 pegou como praga e um sentimento de inferioridade se intensificou no Brasil. Em lugar de fazermos, melhor seria comprarmos. Pacotes prontos, em kits. Ligue 011 1406 e toque seu país para frente. Basta pagar. Aceitamos cartões... E assim abandonamos parte do sonho de tantos brasileiros que desejavam um país autônomo tecnologicamente e talvez melhor. O ITA formou grande parte dos engenheiros que hoje trabalham na Embraer, líder das exportações brasileiras. Pode parecer bobagem, mas esse palpiteiro acredita que o ITA está muito mais preocupado com as razões de sua existência do que o consumismo do capitalismo. Mas é só um palpite...

Tuesday, December 12, 2006

As lições do Chile

O Condor é uma ave andina, cujos hábitos o aproximam muito mais dos abutres, bicho carniceiro. Por motivos mórbidos o nome dessa ave foi escolhido para uma ação conjunta das ditaduras do Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai contra presos políticos, apoiada pelo governo dos EUA, através da CIA. Em 1964 o Brasil iniciou sua ditadura. Para fugir de perseguições políticas muitas pessoas se refugiaram no Chile. Lá havia argentinos, uruguaios e paraguaios, além de simpatizantes de outras nacionalidades que apoiavam o governo socialista de Salvador Allende. As fronteiras da América do Sul pareciam então permeáveis. Uma ditadura apertava de um lado e refugiados se escondiam em outro, sempre com a solidariedade de colegas de militância esquerdista. No Chile a situação era peculiar. Um governo socialista tinha sido democraticamente eleito e tentava fazer mudanças estruturais. A sociedade chilena foi então dividida entre os que desejavam as mudanças e os que as negavam. A divisão foi acentuada pelos dois lados. Eram tempos de Guerra Fria e não havia muita margem de negociação: ou se estava de um lado, ou de outro. Houve provocações mútuas. Mas os EUA já estavam decididos há muito tempo. Como no Brasil, um golpe militar foi apoiado e um General assumiu a presidência. Para evitar o trânsito de militantes esquerdistas é que foi criada a Operação Condor.

Maria Regina Marcondes Pinto, esposa do sociólogo Emir Sader foi uma brasileira que por suas ligações com a esquerda chilena foi seqüestrada pela polícia de Pinochet, na Argentina. Um casal de argentinos foi assassinado no Uruguai, diante de seus filhos, uma menina e um menino. As crianças foram levadas até o Chile, onde foram abandonadas. Essa história é contada no livro Clamor, de Samarone Lima. Esse palpiteiro não tem vergonha de dizer que foi o único livro que o fez chorar. E por histórias desse tipo é que seria injusto colocar toda a carga de culpa em Pinochet. Como no nazismo de Hitler ou na União Soviética de Stalin, o ditador comanda, mas nunca age sozinho. Assassinos de escritório. Às vezes nem ordenam um assassinato. Apenas acenam positivamente para algozes de plantão que se afirmam eliminando inimigos do regime imposto.

Pinochet morreu no dia 10 de dezembro de 2006, aos noventa e um anos. Algumas pessoas ficaram tristes e muitas demonstraram uma curiosa felicidade. Esse palpiteiro sorriu. Sua morte teve repercussão internacional, pois Pinochet foi muito mais do que um ditador chileno. Em 1998, um juiz espanhol teve a coragem de pedir sua prisão quando estava na Inglaterra para tratamento médico. Acusação: crimes contra a humanidade. A morte de cidadãos espanhóis no Chile e as leis da União Européia facilitaram a prisão do ditador. Mas Pinochet tinha amigos. Margareth Tatcher o ajudou. A Inglaterra dificultou o quanto pode e por razões humanitárias o devolveu ao Chile. O país é que se virasse com a mala sem alça e assassina. O Chile foi colocado numa situação incômoda: não entregar Pinochet significaria perdoar seus atos. Entregá-lo seria pior, pois significaria que o Chile não era capaz de julgar um criminoso daquela natureza. O Chile preferiu o caminho mais difícil, não entregá-lo e julgá-lo em seu próprio território, com suas próprias leis. Descobriram-se então mais coisas. Além de ditador e assassino de gabinete, Pinochet era corrupto. O homem foi julgado e teve prisão domiciliar. O antes todo poderoso não podia sair de casa sem autorização judicial.

Por tudo o que fez e representou, a prisão domiciliar foi uma grande vitória e não apenas os chilenos ganharam. Henry Kissinger, por exemplo, foi o norte-americano que idealizou muitas coisas na Guerra Fria, inclusive a Operação Condor. É respeitadíssimo no mundo e nos EUA. Mas não pode ir a qualquer lugar. FHC, quando presidente da República, cogitou condecorar Kissinger em São Paulo. Pegou mal. Serra, preso pela polícia chilena em 1973, foi um dos que se incomodaram. Mas a coisa desandou quando alguém lembrou que algum jovem do Ministério Público poderia querer ganhar fama prendendo Kissinger por crimes contra a humanidade. Pelo desconforto causado e riscos no horizonte, Kissinger não veio ao Brasil e não ganhou nada. Histórias como essas se tornaram mais comuns. Poderosos algozes temem algum tipo de punição em países que cogitam visitar. Mas a grande lição mesmo foi o dia de hoje. Pinochet está morto e seu corpo velado. Apesar de manifestações de alegria, tem o direito de ser reverenciado também. Quem quiser chorar que chore. Os que comemoram tem ao menos um alento: provar que são muito melhores que Pinochet e que o Chile hoje respeita os direitos humanos, inclusive do homem que mais os desrespeitaram no país. Cremar Pinochet com respeito é talvez a maior lição de humanidade que o Chile possa demonstrar a todo o mundo civilizado.

Friday, December 08, 2006

SÃO PAULO, AS CHUVAS E AS TRÊS GRANDES BOBAGENS

Esse palpiteiro vive no hemisfério sul, ganha a vida dando aulas de Geografia e aprendeu antes de entrar na faculdade que em Dezembro se inicia o verão em São Paulo. Com ele as chuvas.
Para quem não conhece, São Paulo tem como marco inicial de sua formação o que chamamos hoje de Pátio do Colégio, um lugar onde os Jesuítas iniciaram um processo de aculturação e envangelização de índios. Quem for até o local, verá que fica numa área mais elevada do que o Tamanduateí. Além de estratégico para a defesa - afinal nem todos os índios queriam ser evangelizados...-, o lugar estava livre das inundações do verão, quando o tal rio transbordava. Pode-se dizer que esse foi o padrão de formação de São Paulo: áreas mais elevadas, como os topos de morros. Alguém que viesse à São Paulo do início do século XX observaria à noite não uma cidade contínua, mas várias. Cada topo de morro das áreas mais centrais com luzes acesas e vales inteiros ainda com a vegetação original, escuros.
Mas a cidade cresceu e foi se expandindo para as áreas disponíveis. Os vales foram gradativamente ocupados por casas e ruas. Os mais ricos- como reza a tradição - ocuparam os melhores lugares, ou seja, aqueles que não inundavam. Os mais pobres... E esse processo foi rápido: São Paulo tinha cerca de 100 mil habitantes em 1900. Hoje conta com mais de 10,5 milhões. Para compararmos, Londres hoje tem cerca de pouco mais de 7 milhões de habitantes, datando aproximadamente do ano 50 D.C. . Crescemos mais em menos tempo. E com menos dinheiro...
Uma grande característica da cidade de São Paulo foi a prioridade dada ao automóvel. Londres, Paris, Nova Iorque e Buenos Aires já tinham metrô quando os dirigentes de São Paulo optaram pelo carro. O Túnel da 9 de Julho, as grandes avenidas como a 23 de Maio e a Paulista são exemplos dessa tara pelo rodoviarismo.
Mas o exemplo maior dessa forma de crescimento da cidade está nas avenidas Marginais do Tietê e do Pinheiros. Geometricamente uma boa idéia. Duas grandes avenidas expressas, ao estilo das vias americanas, conduzindo os fluxos de automóveis nos sentidos norte-sul e leste-oeste. Para alguns poucos a idéia foi melhor ainda. Bastava construir as marginais bem próximas aos rios. Quanto mais próximas, mais espaços da várzea para serem valorizados e vendidos. Assim, foi um bom negócio comprar um brejo antes da contrução e vender depois um terrenão valorizado. Para isso era preciso apenas saber onde seriam construídas as avenidas, comprar o brejo, vendê-los e dar uma porcentagem do ganho ao político que deu ou vendeu a informação. Tudo isso sem meter a mão diretamente nos cofres públicos, mas fazendo a prefeitura dar lucro. Para poucos.
Faltou apenas combinar com as chuvas. Desde o tempo do Anchieta - o tal padre evangelizador - se sabia que as várzeas inundavam no verão. Ninguém em perfeitas condições de sanidade mental construiria em lugares inundáveis. Sobrava espaço então para o futebol. Campos de futebol às margens dos grandes rios e de seus afluentes. E assim, talvez nenhuma expressão seja tão paulistana quanto a do "futebol de várzea"... Mas nem todos dispunham de sanidade mental. A ganância para a obtenção de ganhos com obras superfaturadas, assim como a prática da especulação imobiliária com brejos loteáveis fizeram essa cidade que se orgulha de ser a maior do país se tornar refém de qualquer chuva mais forte.
A cidade continou crescendo e novas áreas foram ocupadas. Outro fenômeno se deu então. Simultânea à tara que São Paulo desenvolveu pelos automóveis, tivemos a fobia por terra. Toda e qualquer área com "mato" passou a ser cimentada. Esse palpiteiro ainda se lembra de sua infância quando visitava casas com quintais enormes cobertos com um piso de cerâmica bem vermelha. A moda passou e hoje é mais elegante ter pisos de ardósia no quintal, com a churrasqueira no fundo. Terra? Isso é coisa de pobre e "dá muito trabalho". Com tantas áreas cimentadas e com tanta ardósia, a água tem cada vez menos lugares para se infiltrar. Os geógrafos americanos estudaram muito isso e chamam de runoff o escoamento superficial de águas como as das chuvas. Menos terra, maior o runoff. Ou o escoamento superficial.
Bingo!! Conseguimos duas grandes bobagens num só processo: avenidas construídas em várzes de rios que se enchem muito rápido com um fluxo de água que não tem mais tanto espaço para se infiltrar. Enchentes.Mas faltava ainda a terceira grande bobagem. Como descrever tudo isso. Num país com péssima qualidade ensino, a geografia para muitos se limita ao conhecimento das capitais dos países ou para um bom desempenho no "Show do Milhão". Tentar compreender o uso do espaço pela sociedade e como esse tipo de uso pode comprometer nossa qualidade de vida se tornou conversa de chatos. Assim nasceu a terceira bobagam: jornalistas que explicam esses problemas apenas pelas chuvas. Exemplo dessa grande asneira são manchetes do tipo: "chuvas castigam São Paulo". Ou ainda sermões ridículos de jornalistas ignorantes que acreditam seriamente que a culpa pelas enchentes é de "quem joga lixo no chão". Na ignorância do jornalismo paulista reiside a confortável omissão frente aos reais problemas que afetam a cidade durante as chuvas de verão.
Alguns insanos chegam a utilizar o termo "caos urbano". Como se essa monstruosidade que construímos não tivesse nenhuma lógica. A lógica do ganho com a venda de carros, a especulação imobiliária e o superfaturamento na construção de ruas e avenidas nos explica muitos dos nossos problemas. Culpar a natureza pode ser muito mais do que ignorância. Atribuir a "São Pedro" ou a qualquer outra entidade espiritual as causas de nossos problemas não deixa de ser um ato de fuga e ou covardia. E enquanto combinarmos ignorância e covardia seremos bombardeados com essa pérola do jornalismo que se repete todos os verões: "CHUVAS CASTIGAM SÃO PAULO"...

Monday, December 04, 2006

O jeitinho absurdo

O JEITINHO ABSURDO

Há uma lenda no país do absurdo que diz que para tudo se dá um jeito. Ou melhor, para tudo há de se dar um jeitinho... Não se sabe quem foi o primeiro a notar a corruptela do jeito para o jeitinho. Pois jeito não é o mesmo que jeitinho.Se ao primeiro se dá a conotação de improviso, ao segundo o sentido é ético. De todo modo, o que se sabe é que dar um jeitinho envolve muito mais do que simplesmente dar um jeito. O jeitinho no país do absurdo é dado no diminutivo por que é tido como algo maroto e digno de orgulho. Muitas vezes soa mais como o filho caçula, menino temporão que veio somente a finalizar todo o processo de formação do país.
A matança de nativos para a tomada de suas terras, a imposição de uma religião, a escravidão negra, o descaso com o meio natural, as grandes desigualdades, enfim, tudo o que fora necessário para a constituição do país do absurdo não seria suficiente se não fosse o famigerado jeitinho. A lógica funcional do jeitinho não pode ser aprendida teoricamente. Requer acima de tudo prática. O jeitinho é vivido. Pois é certo que o que num momento seja passível de um jeitinho, noutro pode suscitar grande revolta e indignação. A lógica do jeitinho não está necessariamente na sua execução, mas acima de tudo em seus executores. O exercício do jeitinho torna-se soberano quando acompanhado da pergunta “ sabe com quem está falando?” . A pergunta mais afirma do que questiona, pois traz implícita a posição na hierarquia social de quem a fez. O jeitinho, quando acompanhado da pergunta, é soberano e forte em sua imunidade legal.
Para um país tão grande e com tamanhos ABSURDOS, o jeitinho não pode ser considerado de maneira uniforme. Por isso resolvemos dar um jeitinho na sua exemplificação. Lembramos que há uma infinita combinação de situações em que sempre caberá o jeitinho.
Vejamos então um exemplo:

O JEITINHO NOSSO DE CADA DIA: Dada uma fila qualquer com mais de vinte pessoas e uma espera de pelo menos trinta minutos entre o fim da fila e o atendimento, o jeitinho logo aparece. Alguém encontra um conhecido numa posição privilegiada da fila. Inicia-se uma conversa informal, geralmente animada e cheia de intimidade. O papo evolui a ponto de não mais ser percebido pelos demais da fila, preocupados com a demora no atendimento. A fila se movimenta, os amigos vão ao atendimento juntos. São atendidos. Saem felizes, um por ter dado um jeitinho de furar a fila. O outro por ter concedido a facilidade que será então cobrada em outra situação semelhante. Ninguém reclama na fila porque há um código de ética no jeitinho. Não se deve reclamar do indivíduo que furou a fila. Reclama-se da ausência de um amigo na frente dele. Lamenta-se a falta de sorte e, com fé, alimenta-se a esperança de que um dia se encontrará um amigo numa fila ainda maior. Nesse dia, toda a falta de sorte será expiada.
O país do ABSURDO tem dado um jeitinho em tudo há muito tempo. Talvez um dia possa ser esgotado. Talvez um dia o jeitinho possa não ser mais viável. Sei não, acho que esse dia já está ficando cada vez mais próximo. De todo modo, o jeitinho tem a chance de saber que aqui não há nada que comprove essa tese, consituindo antes de tudo mais um palpite...
Obs.: esse palpiteiro tem constado as limitações do jeitinho com o Windows.



Wednesday, November 29, 2006

O sistema e a língua

Em tempos de virtualidade e avanço da informática parece que tudo está ligado ao tal sistema. Se você tiver um problema no banco, haverá alguém dizendo que o problema está no sistema. Ligue para a central de reclamação e aprenderá que o que você diz não tem solução porque o sistema diz outra coisa. Peça uma solução e poderá ouvir de alguém que o sistema não permite alterações.
Vá pessoalmente ao banco. Reclame com o gerente e ele dirá que o sistema não permite a solução que você tem certeza que lhe é de direito. Ameace então - com sutileza- de reclamar no Banco Central, pois ele regula o sistema financeiro.Talvez o gerente, sistemático, entre em pânico e tente resolver o seu caso.
Descubra na sua luta dentro do sistema que você foi roubado, pois o sistema bancário tem falhas e alguém pode ter clonado seu cartão magnético. Vá até uma delegacia e utilize o sistema policial, controlado pelo sistema jurídico. Aprenda que você foi vítima de estelionato, artigo 171, segundo a linguagem do sistema legal. Veja pessoalmente o escrivão assinar no lugar do Delegado Titular, com uma assinatura diferente da que indica o seu nome e se convença que o sistema permite falhas. 171 no B.O. de 171... Parece outro idioma, mas aconteceu e pode ser assim dito.
Volte ao banco. Ouça de uma gerente que o outro caso que deve ser resolvido, aquele que o levou até o banco, é um código 48, e que por isso deve ter outro procedimento. Olhe para o seu gerente e ouça dele que irá demorar um pouco mais, pois o sistema operacional do terminal está "dando pau, e que por isso será necessário dar um boot..." Seria sotaque ou gíria daquela outra língua da Delegacia?
Sorria sempre, pois você já se cansou de brigar. Perceba então que o sistema pode falhar e que com cordialidade muita coisa ainda se consegue no Brasil. Lembre-se que a sutileza pode se infiltrar no sistema como a água no solo. Lembre-se que a água reage com as rochas e que pode no longo prazo dissolvê-la.
Sorria novamente. Desta vez não para o gerente. Sorria para si mesmo, certo de que o sistema e sua maldita língua poderão um dia entrar em colapso. Basta saber como nos infiltrarmos. Tal como a água, o sistema poderá ser então dissolvido. Erodido.
Saiba que o sistema ainda não prescinde das pessoas. Alerte-as de que aceitar a língua do sistema com seus códigos e signos significa aceitar o domínio do sistema. Subverta a linguagem. Deboche sobre a gramática árida desse sistema. E então talvez possamos aprender que a linguagem livre é a tradução do estado das pessoas livres.
Aperte a mão do gerente e peça um protocolo, pois ainda é essa a linguagem que ele pode entender...

Friday, November 24, 2006

Falando da vida alheia

Abaixo está a primeira proposta permanente desse blog. Aparecerá toda vez que esse palpiteiro acreditar que pode falar algo sobre alguém. "Falando da vida alheia" tem como objetivo apresentar pessoas notáveis que normalmente são esquecidas. Num país em se perde tanto tempo para as aventuras submarinas de uma tal Cicarelli, o palpiteiro julgou apropriado abordar assuntos das vidas de outras pessoas...

Falando da vida alheia: Nelson Massini

Quem é Nelson Massini? Caso alguém queira saber sobre esse brasileiro, poderá acessar o google e digitar o nome dele entre aspas. Recomendo a ficha do cabra no lattes. Verá um currículo impresisonante. Massini é formado em odontologia pela Unicamp. Ficou reconhecido por sua participação no caso Mengele, em 1986. Para quem não lembra, Mengele foi um dos carrascos nazistas mais procurados pelo Mossad, serviço secreto de Israel -um dos melhores do mundo. Mengele fazia experiências genéticas em seres humanos no Campo de Auschiwitz, durante a II Guerra Mundial. Chegou a injetar tinta colorida nos olhos das pessoas para ver se poderia forjar a "raça ariana". Adorava fazer experiência em gêmeos. Crianças. Ao que consta, refugiou-se na Argentina após a guerra. Ouvi dizer que foi veterinário dos cavalos de Perón... Quando o Mossad estava quase a pegá-lo, entrou no Brasil, sabe-se lá com a ajuda de quem. Foi meu vizinho aqui em SP. Morava em Caieiras. Morreu afogado em Bertioga e foi enterrado em Embu. O corpo, pois a alma deve estar a queimar no inferno, em bom caldeirão, a 300 graus no óleo de dendê...
O Mossad chegou até seu túmulo em 1986. Ficou na dúvida se era mesmo o maldito. Romeu Tuma era chefe da Polícia Federal em SP, na época da transição democrática. Ficou assim: Tuma entrava com a fama, liberava a exumação do corpo e o Mossad teria o que queria: a certeza do caso Mengele. Tuma até hoje se orgulha dos prêmios que recebeu por isso. Tudo porque sabe assinar papéis...
Mengele era dado como morto com outro nome. Motivo: afogamento. Contudo, a caveira do esqueleto exumado apresentava um orifício no maxilar, dando a impressão de ter sido morto com um tiro, numa posição para lá de estranha. Era mesmo Mengele? Quem poderia dizer?
O caso Mengele envoleveu muitas pessoas. Legistas de SP comprovaram que era mesmo o safado. Na Inglaterra fez-se o exame de DNA, um dos primeiros para uso em medicina legal no mundo. Mas tivemos também Massini.
Como odontologista conseguiu provar o seguinte: Mengele tinha um problema crônico num dente. Não podia ir ao dentista, pois o padrão de sua arcada dentária o denunciaria como alemão do tempo da II Guerra. Como médico resolveu se virar. Cutucava com uma agulha o dente. Fazia a assepcia e depois esperava até a próxima vez. Fez isso durante muito tempo. Perfurou o maxilar de tanto fazê-lo. Segundo Massini, devia doer pra caramba... Azar o dele, digo do Mengele... Assim se notabilzou Massini, internacionalmente.
Em 1990, Caco Barcelos, ao fazer suas investigações sobre a morte de pessoas pela Rota em SP, chegou até o cemitério de Perus, também aqui perto de casa... Resultado: descobriu uma vala comum, onde vários corpos estavam enterrados como indigentes. Muitos com tiros no crânio, indicando execução. A ficha de muitos desses indigentes tinha um "T" bem grande na foto do IML, referindo-se à classificação de "terrorista". Esse termo era muito comum entre os agentes da repressão política àqueles considerados subversivos. Massini estava na Unicamp e assumiu o compromisso de identificar os corpos de Perus.
Em 1996, 19 sem-terras foram mortos pela polícia militar do Pará. A PM alegou confronto, numa situação em que tivemos 19 mortos de um lado e nenhum do outro. Curioso confronto com questionável desequilíbrio de forças...Massini comprovou que pelo menos 10 deles foram executados.
Seguiu um caminho nada convencional. Como dentista formado pela Unicamp poderia ter uma excelente carreira em SP, talvez na Oscar Freire, ganhando uma boa grana. Preferiu medicina legal. Apenas um louco para pegar gosto nisso. Ou apenas uma pessoa compromissada com certos princípios para entender a importância dessa área para a sociedade brasileira. Massini merece muito mais respeito do que seu longo currículo sugere. Num país em que muitos se impressionam com títulos, deveria ser respeitado pelas suas atitudes de interesse claramente coletivo.
Obs.: Além do Google, também é possível ler uma entrevista dada por ele na Revista Caros Amigos há alguns anos. Não me perguntem o número... Parece que o cabra também fez alguns serviçois para a ONU. Na incerteza dessa informação, preferi não citar. Quem souber, agradeço o palpite...

Wednesday, November 22, 2006

Anorexia e cinismo

A última vez que comprei uma revista Veja foi em Setembro de 1999. Queria "me informar" sobre os bombardeios da Otan sobre a antiga Iugoslávia. (É, no tempo do Clinton e dos democratas também existiam bombas...). Quando abri a revista sob o título "A Guerra pós-moderna" percebi que fui enganado. Fotos que ocupavam pelo menos a metade das páginas, impressionantes. E nada de texto. Descobri que Veja é para quem não gosta ou não sabe ler. Desde então acompanho esse panfleto que chamam de revista através das capas, nas bancas de jornal.
A mesma revista que foi moralista com Cássia Eller (drogas), Cazuza (homossexualismo, lembra? Eu me lembro...), política (PT e o mensalão) essa semana ataca a anorexia. Não preciso abrir a revista para imaginar as críticas cheias de adjetivos a condenar a busca insana pela beleza artificial. Não preciso de uma boa memória para me lembrar das capas de Veja que exaltavam esse mesmo padrão de beleza, com chamadas pró-operações plásticas ou dicas dietéticas...
Pensei então na incoerência que é geral e não exlusiva de Veja. Pensei nos filmes e desenhos animados que exaltam a comilança. Scooby-doo me veio a mente. Comer é sempre engraçado, divertido. Lembrei também das horas que a televisão dedica a mostrar receitas de comidas. Sempre com os anúncios publicitários dos produtos que serão necessários aos pratos sugeridos. "Nestlé", "Maggi"e claro, geladeiras, fogões e microondas a prazo nas casas Bahia... Sou do tempo em que os pais achavam absurdo comer fora. Lanches eram considerados supérfluos e muito caros. O pão-com-mortadela era algo tão comum quanto lógico nos diversos passeios. Herança dos imigrantes. Mas vieram os costumes made in USA. Comer fora e em grande quantidade passou a ser legal. Levar lanche de casa tornou-se algo menor, coisa de farofeiro. E uma vez na rua, o que comer? Mc Donald's. Pizza. "Lanche natural". (Até hoje desejo saber em que árvores dão esses lanches, ou se são criados em cativeiro, naturalmente...) O Mc Donald's descobriu o óbvio: invista sempre em crianças. Faça-as saber que o Big Mc é gostoso, legal e salva a vida das criancinhas com câncer. Agrade-as com brinquedinhos made in China para torná-las como as crianças obesas made in USA.
Quanda essas crianças se tornarem adolescentes descobrirão outro mundo. O mundo dos magros e fortes. A barriga cultivada com carinho e alegria na infância passará a ser um incômodo social, psicológico, psiquiátrico, estético e ecológico..
Mas tudo isso é contraditório? Incoerente? Para quem pensa no bem das pessoas pode ser que sim. Para quem busca o lucro a qualquer custo não. Veja e outros meios de informação tem compromisso com as vendas, não com a coerência. Hoje condenamos a anorexia e a busca pela perfeição estética. Semanas seguintes exaltamos a gula natalina e anunciamos as novas formas de emagrecimento. Informar? Vender?
Ao me fazer essas perguntas, lembrei-me de um grupo musical da década de 1980: Gengis Khan. Um argentino com umas mulheres oxigenadas e com poucas roupas tentou fazer sucesso com música tecno. Não deu tão certo quanto uma música chamada "Comer e comer". As crianças adoraram. As mães aplaudiram. O Biotônico Fontoura sentiu um breve sopro de concorrência. Lembro-me até hoje das piadas de duplo sentido e escassa inteligência do Gugu Liberato. Claro, mulheres de biquinis cantando "comer e comer" eram mesmo um prato cheio para piadas do nível do SBT...
Ao cinismo de Veja e a toda máquina de indução ao consumo alimentar de nossos dias dedico essas poucas palavras. Abaixo tem a letra do antigo "sucesso" de Gengis Khan. Cuidado, pode ser perigoso para menores...